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O Melhor e o Pior do Canadá – Parte 2

2° Pior – Os canadenses são gentis com estranhos, mas não muito próximos como amigos


Qualquer um que já tenha vindo ao Canadá certamente notou o quanto os estranhos te tratam bem, na rua ou onde quer que você vá. Os canadenses são gentis e prestativos, mas raramente isso se transforma em amizade de verdade. No último post eu comentei como eles evitam assuntos pessoais nas conversas, e isso só ilustra um comportamento que é amistoso, mas bastante fechado em relação aos outros.


A “religião” aqui é a individualidade e o espaço pessoal de cada um, em todos os sentidos. Então, por exemplo, você mal tem contato físico com os seus amigos (pois, supostamente, “respeitar o espaço pessoal” da pessoa é mais importante). Nada de mão no ombro, abraço apertado, tapinha ou sentar no colo. Aperto de mão, só da primeira vez que se conhece, depois nunca mais. Beijo pra se cumprimentar então, esqueça. Você também não aborda ou pergunta sobre coisas pessoais (religião, sentimentos, relacionamentos etc.), porque “isso é pessoal”, e portanto não é pra se conversar a respeito. E, finalmente, você não faz piada ou dá aquela tiradinha saudável com a cara da pessoa, a menos que seja algo muuuuito de leve. Então o que você tem são basicamente relações cordiais, simpáticas, mas distantes, em que de fato se compartilha muito pouco um com o outro.


Mas me diga, não é exatamente essa abertura com o outro, tornando a relação cada vez mais próxima, exatamente o que cria amizade entre duas pessoas? Sem dividir o que você realmente pensa e sente, a amizade fica sem substância, e assim sem profundidade. Afinal, como é possível sentir qualquer ligação por alguém que conhece tão pouco sobre você, e que você também conhece tão pouco? Eu digo conhecer de verdade, saber o que vai por trás daquela “maquiagem” social que todo mundo põe no dia-dia, uns mais, outros menos.


A cultura aqui vai exatamente na contramão dessa idéia de abertura. Como eu comentei no post anterior, ela estimula conversas rasas (sobre se vai chover, etc.) em vez de conversas sobre opiniões ou sobre assuntos pessoais. Ela estimula a individualidade, e não o compartilhar com o outro. Estimula também a polidez (mesmo que falsa) em lugar da espontaneidade e da franqueza. E, assim, as pessoas acabam adquirindo um comportamento bastante fechado em vez de aberto. Pode-se chamar de “reservado”, uma palavra mais branda, mas o resultado de brando não tem nada: poucas relações de proximidade, pouca intimidade entre amigos, pouca habilidade pra expressar o que se realmente pensa e sente, e pouco jogo de cintura pra falar de coisas pessoais. Além disso, aqui leva uma eternidade pra uma pessoa se abrir com a outra. A coisa avança muuuuito mais devagar do que no Brasil ou em culturas mais calorosas, onde a vida social acaba sendo também muito mais intensa.


Eu acho que cada cultura tem algo a aprender e a ensinar a outras. Então talvez isso seja algo que o Canadá precisa aprender com as outras culturas que eles aqui chamam de mais “quentes” (os africanos, latino-americanos, europeus do sul, e outros). Pois sem se abrir, sem relações de proximidade, e sem amizades calorosas e com substância, eu sinceramente acho que se perde a melhor parte de ser humano.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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