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A minha vida em Nova Délhi (e uma visita ao Qutub Minar)

Comecei a ambientar-me às coisas da vida em Nova Délhi.

Depois daquela ida ao templo no post anterior, eu voltei à companhia do Tio Bhalla pra o chai da noite. Digo na companhia dele e não da família porque eu sou sumariamente ignorado pelas mulheres da casa (quando ele está presente). Elas nem cruzam o olhar comigo nem se sentam à mesa conosco. Participar da conversa então, nem pensar. (Embora a ajudante de Bengala do Oeste não fale inglês, Dona Bhalla fala). Isso eu sei porque, quando ele não está por perto, dá pra conversar tanto com ela quanto com… errr… bem, com a Bengalesa dá pra gesticular, etc. Pelo menos rola uma comunicação. E o menino de 9 anos também arrisca umas frases boas em inglês. (O de 6 anos só me olha, com aquela cara de “quem é esse barbudo aqui em casa?”).

Depois do chai, antes de dormir, o banho. Faço questão de inserir esta parte aqui porque, depois de muitos anos, estou tendo que tomar banho de cuia. Mania que a gente tem de tomar as coisas por garantido. Sempre acha que chuveiro sempre tem. Mas olha ali ó, o banquinho, o balde… Nem precisa explicar como funciona, né?

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O meu banho aqui por um mês foi assim.


Falando em banheiro, só uma curiosidade: aqui eles não usam papel higiênico não, viu. Éééé… ficou chocado(a)? Achou que todo mundo usava papel? Eu tenho porque sou visita, mas o esquema aqui na Índia é na base da aguinha. Não é chuveirinho, é uma tina de água que você usa e limpa com a mão (esquerda, pois com a direita você come). Dar a mão esquerda pra apertar aqui é ofensa grave, você entende o porquê. Fique certo(a) de que “essa história de limpar com um pedaço de papel o que devia ser lavado” também é chocante pra eles. Mas depois eu conto mais dessas histórias. Chega de banheiro por agora.


Vamos pra algo mais ao ar livre. Pela manhã o Tio Bhalla, que me dá sempre umas dicas de onde ir e como chegar, me sugeriu visitar o Qutub Minar, um dos muitos monumentos deixados aqui em Delhi do tempo em que esta parte norte da Índia foi invadida por árabes e outros povos muçulmanos do centro da Ásia. (O Taj Mahal, por exemplo, não é uma construção hindu, é islâmica, dessa época aí). Então lá vou eu pra a rua de novo.

A ida até o metrô é sempre essa beleza aí abaixo, uma perfusão de odores e a adrenalina de atravessar cada rua. Moto aqui não freia, buzina. Nesse pedaço aqui da cidade tem muitos dos ciclo-riquixás também, desse daí da foto. Tipo um táxi-bicicleta. Nesse dia estava até sequinho o chão. Imagina isso aí depois da chuvarada que dá aqui frequentemente. Are baba.

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A minha vizinhança em Nova Délhi. Meu caminho diário para o metrô.


Mas, pegando o metrô, eu fui parar perto do Qutub Minar. Perto. Chegando à estação de metrô mais próxima, eu perguntei ao guarda por onde que vai. Pra a minha surpresa, ele responde: “Qualquer ônibus ali do outro lado da rua passa lá. Custa 5 rúpias” (uns 20 centavos de real). Heh, começava a aventura.

Pelo preço eu deveria ter imaginado. O ônibus em que eu entrei parecia uma mistura de pau de arara com camburão. O modelo é esse aí da foto, mas com gente saindo pelo ladrão. Sempre vai alguém literalmente do lado de fora, seguro naquelas barras ali na entrada de trás. Dentro é uma muvuca, e escuro. Não tem porta (ou tem, mas nunca fecha). Não tem catraca, tem um tiozinho que fica com umas tiras de papel na mão gritando lá e cá e apontando com o dedo “Você!”, pra pagar. Lá vão 5 rúpias e me dá o papelzinho dizendo que eu paguei.

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Ônibus em Nova Délhi. É uma escuridão lá dentro.
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É uma coisa chique!


Finalmente, cheguei. Indiano paga 10 rúpias pra visitar, estrangeiro paga 200. Se bobear, paga 300. Dei uma nota de 500, vira e mexe, o cara me volta 200 de troco. Eu fico olhando pra a cara dele e digo: “300 de troco, né“. “É, 300“, ele responde e dá o resto como se estivesse procurando a nota (e doido pra que eu fosse embora antes que ele encontrasse…).


Mas pelo menos valeu a pena. O Qutub Minar em si é um minarete, uma torre com o muezim, que do alto anuncia quando é hora de uma das cinco orações diárias dos muçulmanos. Hoje são ruínas, datadas dos idos do ano 1200 d.C., e tombadas pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade. 

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O Qutb Minar e prédios islâmicos adjacentes, dos idos de 1200.

Com 72,5m de altura, o Qutub Minar ainda é o minarete de tijolos mais alto do mundo. Ao seu redor, tumbas e ruínas de mesquitas de época. Tudo data do final do século XII e início do XIII, quando este norte da Índia foi conquistado por muçulmanos oriundos do Afeganistão. A Índia não era um estado único, mas um conjunto de reinados que partilhavam aquela matriz cultural hindu. A partir de então, haveria também reinos islâmicos no que hoje é a Índia. Talvez o maior deles tenha sido exatamente o Sultanato de Délhi, cuja fundação foi celebrada com a construção desse Qutub Minar na virada pra o século XIII.  

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Ruínas ainda de época. 
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Indianas em seus belos e coloridos trajes indo visitar uma das tumbas no complexo do Qutub Minar.
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Belas arcadas no interior do mausoléu, com a tumba ali em mármore branco. Ali ao lado do portal há escritos em alfabeto árabe, que não sei neste caso o que são, mas costumam ser versos do Alcorão, o livro sagrado do Islã.
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A tumba do sultão Shams-ud-din Iltumish, que governou o Sultanato de Délhi de 1211 a 1236. Ele próprio ordenou a construção deste mausoléu ainda em vida, para quando morresse. Reiterando que, como os hindus são cremados e, portanto, não se enterram, todos os mausoléus e tumbas na Índia são islâmicos. Pela tradição islâmica, os restos mortais não estão ali propriamente dentro desse sarcófago, mas numa cripta abaixo.
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Lindas arcadas, já ao pôr do sol, na saída.

Pra sair de lá, depois da visita, não peguei o ônibus. Fui de tuk-tuk. Depois conto das minhas aventuras em tuk-tuk na Índia. Por ora pergunto-lhes: deu pra perceber o que eu quis dizer anteriormente sobre Délhi ser uma cidade feia mas com “ilhas” de beleza?

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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