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Dilli Haat: Diversidade cultural, danças e compras em Délhi

Unidade na diversidade“, o lema que inspira a Índia desde o tempo em que os europeus ainda estavam em guerra entre si. Ele depois viria a ser adotado como mote, também, da União Europeia.

A Índia como país é uma idéia que só virou realidade em 1947, com sua independência do Reino Unido. Mas se engana quem acha que, antes da chegada dos ingleses, havia aqui um país bonitinho, organizado, com pessoas que se amavam. Havia um conjunto de povos com aparências diferentes entre si, falando línguas diferentes, com religiões diferentes (islamismo, budismo, hinduísmo…), e que habitavam esta parte do continente — as chamadas “Índias”. Os ingleses só precisaram — em bom estilo europeu, como feito nas Américas — pôr uns contra os outros, libertar A do domínio de B, e voilà, em pouco tempo a Companhia das Índias Orientais é quem dava as cartas por aqui.

Em 1947, quando se libertaram, as áreas de maioria islâmica decidiram que queriam ser independentes, e assim surgiram os atuais Paquistão e Bangladesh. O restante basicamente virou Índia, graças à liderança de Gandhi, reverenciado como “o Pai da Nação”. Mas não é porque se tornou um país único que a região inteira virou uma coisa só. São 22 línguas oficiais, quase que uma diferente pra cada um dos 29 estados. Dá uma sacada nessa placa de “Bem vindo” aí abaixo.

Delhi 5-01

Sim, há inclusive alfabetos diferentes em muitos dos casos. E, não, as línguas não são sempre parecidas umas com as outras. Tâmil, idioma de um dos estados do sul, é tão parecido com Hindi quanto português e japonês. (São inclusive famílias linguísticas diferentes; enquanto que os estados do norte tem quase sempre línguas da família Indo-Européia, as do sul são da família Dravídica).

Pra quem está curioso, seguem aqui alguns estados e as línguas principais de cada um [atualizado com um novo mapa após a divisão do estado de Andhra Pradesh em 2014, que criou o novo estado de Telangana]. Há uma tentativa por parte de Delhi de impôr o Hindi como língua nacional, mas os povos do sul, cuja língua não tem nada a ver com o hindi, rejeitam isso. No fim das contas, acaba sendo o inglês que conecta os indianos. Sinta a quantidade de falantes de algumas das outras línguas regionais.

Delhi 5-02
Novo mapa da Índia desde 2014. Bangladesh, país independente, é aquela área cinza a leste “abraçada” por estados indianos.

Andhra Pradesh & Telangana: Télugo (74 milhões de falantes)
Assam: Assamês (13 milhões de falantes)
Bengala do Oeste: Bengali (83 milhões na Índia, mais Bangladesh)
Gujarat: Gujarati (45 milhões)
Karnataka: Kannada (38 milhões)
Kerala: Malayalam (33 milhões)
Maharashtra: Marathi (72 milhões)
Odisha: Oriya (33 milhões)
Punjab: Punjabi (29 milhões na Índia, outros mais no Paquistão, onde o Punjab continua).
Tamil Nadu: Tâmil (61 milhões)


E esses são só alguns exemplos. Como eu disse, são 22 línguas oficiais mais centenas de dialetos. Vejam inclusive que muitas dessas línguas estaduais são mais faladas do que idiomas europeus inteiros, como o grego ou o polonês.

Haja diversidade. E provavelmente o melhor lugar onde constatar e experimentar disso em Délhi é o Dilli Haat, uma espécie de feira cultural permanente com lojas e shows artísticos das mais variadas partes da Índia. Mais: é também um excelente lugar para compras, pois é relativamente limpo, bem organizado, e conta com lojas governamentais onde o preço dos produtos é fixo. Caso você não saiba, normalmente na Índia os preços nunca estão visíveis — é preciso sempre negociar com o vendedor, barganhando, o que às vezes é um exercício cansativo e que te leva a ser enrolado e a terminar pagando muito mais do que um indiano pagaria. As lojas governamentais, além de te darem uma oferta de produtos a preço fixo, servem também como referência de preços, dando uma ideia para quando você for negociar com vendedores em outras lojas. Os indianos são cheios de lábia e mestres nisso, então atenção.

Fui portanto mais de uma vez a essa feirinha, pra tentar conhecer melhor as pecularidades de cada estado. Numa dessas batidas de perna por lá, resolvi parar pra comprar roupa.


O mercador era (ou dizia ser) do estado de Gujarat. E me perguntou, “De onde você é?“. “Brasil“. “Êêêê Brasiiiilllll… Kaká, Robinho, Felipe Melo… quer dizer, Felipe Melo not good“. (Havíamos recentemente terminado a Copa de 2010.)


Divertido o tio, mas contador de histórias. Queria me fazer crer, como todo vendedor de roupas (inclusive aí no Brasil), que os bordados eram todos à mão, e que ele era o designer e as mulheres costuravam. Atrás, a mulher, que estava mexendo no celular, só dando risada.

Olha o naipe da figura confiável. (E, sim, a esposa dele era um charme.)

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Estande de venda de roupas na feira de cultura de Dilli Haat. Os vendedores ficam assim, sentados nas almofadas lhe mostrando os produtos. Esse dizia ser de Gujarat, e supostamente grande fã do Brasil.

Os tecidos, seja como for, são lindos, e de um colorido espetacular. Só tenha bastante atenção para não levar gato por lebre. Nem sempre as coisas são aquilo que eles dizem que é. Acho bom você saber distinguir tipos de tecido pelo toque, etc., se quiser comprar roupas.

Jantei por ali mesmo (mais sobre as comidas depois), e assisti a dois espetáculos de dança no palco ali montado. Uma delas, mais cerimoniosa, foi do Estado de Odisha (às vezes escrito Orissa, não sei por que, acho que por diferenças linguísticas); a outra, mais jocosa, oriunda do Estado de Mizoram, no nordeste do país. Ficam aí as duas para vocês conferirem.

(Dilli Haat tem um custo de entrada de alguns poucos reais, abre todos os dias, e pode ser visitada pela estação de metrô I.N.A., que os indianos pronunciam soletrando em inglês.) 

 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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