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Conhecendo Purana Qila e as híjras, o “terceiro sexo” da Índia

Já são duas semanas desde que cheguei a Nova Délhi, e os meus dias entraram numa certa rotina. Primeiro alguma entrevista ou algo relacionado à minha pesquisa pela manhã ou no começo da tarde, e em seguida um bordejo pela cidade para visitar algo ou pra sair às compras (hehehe). Este dia, por exemplo, foi um caso ilustrativo.

Pela manhã eu saí para uma entrevista que tinha marcado com alguém num centro de pesquisa. Fui de metrô, evitei os tuk-tuks, e da estação fui a pé. Chegando lá, o diretor miserávi me fez esperar um século e depois ainda estava com uma cara de tacho. As secretárias, e até os seguranças, são quase sempre muito mais simpáticos. A Índia é um país extremamente hierárquico onde quem está em cima se sente o rei da cocada preta, e livre para tratar quem está abaixo como bem quiser. Bom, eu saí de lá com o trabalho feito e fui procurar um lugar pra almoçar.

Délhi, como você já pode ter reparado, é uma cidade extremamente hostil a pedestres: as distâncias são longas, sinal de trânsito, quando existe, frequentemente não funciona, aí fica o guardinha que às vezes apita e às vezes vai conversar com os colegas, e você nunca sabe quando aquela maré de motos e tuk-tuks vai dar a largada em direção a você. E, ah, Delhi normalmente não tem nome de rua. Pra quê?

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Ruas sem nome em Nova Délhi. Só as avenidas principais têm nome. No resto, Deus te abençoe. Vá com GPS. Os endereços são tipo “Bairro tal, Casa R-14”, e aí vá procurar onde ficam os Rs e de onde começa a numeração. Boa sorte.

Apesar de tudo, graças à perseverança (e ao meu guia Lonely Planet), achei um lugar onde comer. Comida boa e barata, como é comum aqui. O estilo era tipo padaria aí do Brasil, sempre com o detalhe do local de apreciação religiosa ali pra dar bons auspícios ao comércio do dia. Veja ali o altarzinho atrás do balcão, no armário de madeira ao lado da geladeira da coca-cola.

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Note o pequeno altar ali perto da geladeira da coca-cola. Há uma vela, incenso, e algumas imagens de Sai Baba, santo venerado nesta região da Índia. (Não confundir com Sai Baba o guru, que disse ser a reencarnação do santo; alguns acreditam, outros não).

Estou saboreando minha comida, meu delicioso lassi (iogurte grosso batido com açúcar, servido tradicionalmente gelado), e de repente eu ouço a língua mais bonita do universo, russo. Suspendi a cabeça igual cachorro quando ouve barulho. Vinha um casal já brigando com o garçom. (Casal de meia idade viu gente, antes que imaginem alguma tenista estonteante). Lembram o que eu disse sobre o chai já vir pronto e ninguém perguntar como você prefere? hehe, o tio russo não gostou. Em um sotaque carregadíssimo (que eu não posso fazer aqui, mas que terei prazer em imitar quando nos vermos pessoalmente), “Sem leite! No milk! Eu pedi chá preto!!“.


Nestes lugares, junto com a comida vem o famigerado copo d´água. Naqueles copos estilo extrato de tomate, uma água que Deus sabe lá de onde veio. A recomendação é não tomar, então faz-se aquela cara amarela pra o garçom e larga o copo de escanteio. Para a sobremesa, caí na besteira de pedir um bolo de abacaxi que na verdade foi um verdadeiro abacaxi. Lição aprendida: na Índia, coma coisa indiana, indiano quando se aventura em comida ocidental quase sempre faz cagada (Seu Bhalla, por exemplo, se refere a ketchup como “o molho”, e come com pão puro).


E na saída, eu dei de cara com uma híjra, éééé… aquelas travestis que são chamadas de “o terceiro sexo”, e que pedem dinheiro a você senão lhe seguem, fazem escândalo e lhe rogam praga. Eu não queria nem uma coisa nem outra, nem dar dinheiro nem receber praga. Ele(a) estava parando os transeuntes, pegou um casal que ia na minha frente. Eu escapei pela tangente antes que ele(a) viesse em mim.

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As híjras na Índia, e em todo o sul da Ásia, são consideradas o “terceiro sexo”. Houve até mesmo quem tentasse me convencer de que elas não têm cromossomos nem XX nem XY, mas algo distinto. Seja como for, socialmente elas (ou “eles”, não sei, pois em hindi deve haver algum pronome neutro), *não* são consideradas nem se consideram mulheres, diferentemente do que ocorre com as travestis ocidentais. Aqui elas exercem papéis sociais específicos, como isso de dar bênção em troca de um trocado. A crença é que, por serem indivíduos especiais (“amaldiçoados”, alguns indianos dizem), eles podem tanto passar coisa ruim pra você como também têm o poder de abençoá-lo, daí as pessoas aqui terem um certo respeito cioso a eles(as).

Na solina tipo 2h da tarde em Feira de Santana (peguei até uma corzinha), eu saí andando em direção a um monumento “próximo”. Foi o forte de Purana Qila, habitado pelo imperador Sultão Humayun no século XVI. Esse império islâmico a que me refiro, que dominou esta região, foi o Império Mogol (não confundir com Mongol; o mogol, ou mughal em inglês, se originou no Afeganistão, e dizem ter origem nos descendentes de Gengis Khan, daí a semelhança do nome).

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Entrada para o forte e cidadela de Purana Qila, construída no século XVI pelo Sultão Humayun e seus sucessores. Em Nova Délhi.

Dentro, quase sempre uma mesquita, como neste caso. Numa coisa a novela acertou: essas ruínas são verdadeiros points de encontro para namorico de casais. Muitas “Mayas” e muitos “Bahuans” pelas ruínas, assim como mendigos tirando uma soneca também.

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Frente da mesquita construída em Purana Qila. Hoje não funciona mais, mas é o prédio mais inteiro desse complexo de ruínas.
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O mihrab da antiga mesquita. Mihrab é essa reentrância decorada na parede, que toda mesquita tem, e que indica a direção de Meca. São virados pra o mihrab que os fiéis na mesquita oram.
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Jovens namorando no gramado das ruínas. Ruínas parecem ser dos points favoritos dos jovens indianos para se encontrar mais à vontade, longe dos olhares públicos. (Ainda assim, não há o agarra-agarra público que se vê na América Latina.)
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Em Purana Qila, após o expediente.

Antes de ir embora, visitei a biblioteca onde Humayun morreu. O sultão estava carregado de livros, segundo dizem, mas ouviu o chamado à oração na mesquita e, na saída do andar de cima, acabou tropeçando. Veio escada abaixo e faleceu. Assim partiu em 1556 o homem que reinava sobre quase um milhão de quilômetros quadrados, do Afeganistão ao oeste da Índia. (Seu mausoléu eu visitei neste outro post aqui.)

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Eis o Sher Mandal, torre octagonal construída em arenito vermelho, que foi observatório e também biblioteca de Humayun, sultão do Império Mogol. Aqui ele veio a falecer em 1556.

E a vida segue em Délhi, apenas poucos dias pra começar a conhecer as outras partes da Índia.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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