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Era uma vez no Rajastão: Em Jaipur, a cidade cor-de-rosa

Há mais de 1000 anos, nas proximidades desta região junto ao Grande Deserto de Thar, começaram a se formar domínios de bravios reis-guerreiros. Eram os Rajputs, orgulhosos e belicosos, que diziam originar-se do sol, do fogo, e da lua. Em seus robes cor de açafrão, brincos de ouro e turbante, marchavam à luta mesmo que a derrota fosse certa — neste caso, sua família inteira atirava-se ao fogo para partir junto com o seu senhor. Os rajputs eram tão árduos que detiveram o avanço de invasores islâmicos por mais de 500 anos. Fizeram esta terra ser conhecida como “A Terra dos Rajs”, ou A Terra dos Reis, o Rajastão.

O Rajastão é o maior dos 29 estados indianos, um dos mais tradicionais e o mais turístico de todos. É, realmente, a visita obrigatória para quem vem à Índia. (Não se intimide por ele fazer fronteira com o Paquistão. Não há grandes episódios de terrorismo aqui. Você estará aqui muito mais seguro que no Brasil.)

Localização do estado indiano do Rajastão.


Era já perto das 6 da tarde quando o meu louco ônibus ia chegando. Aqui, cedo o sol se põe. Por esse horário já eram os últimos raios na muralha cor-de-rosa de Jaipur, a capital do estado.

Do lado de fora das muralhas, a cidade pós-colonialismo se tornou, como muitas no Brasil: crescimento desgovernado, falta de infraestrutura, e pobreza.

Do lado de dentro, o mundo é cor-de-rosa, literalmente. Muitos dos prédios da cidade são em arenito róseo, e os demais, a maioria, foram todos pintados de um rosa cor de goiaba — e assim o são desde 1876, quando o então rajput, o Marajá Ram Singh, que governava esta região sob a supervisão dos ingleses, resolveu que toda a cidade seria pintada com “a cor da hospitalidade” para a visita do Príncipe de Gales, que viria a se tornar o Rei Edward VII da Inglaterra.

Essa doçura com os ingleses não foi à toa. Os rajputs, sempre brigando entre si, acabaram cedo ou tarde subjugados pelo Império Mogol (islâmico) nos idos do século XVI, e ficaram como vassalos do imperador. Com a aparição dos ingleses e os mogóis perdendo força, os rajputs viram logo a oportunidade de dar o golpe. Resultado: deram fim nos mogóis, e os rajputs retomaram o controle da região, ainda que sob supervisão comercial inglesa, que tirava uns lucros enquanto fazia indulgências aos marajás. 

(“Marajá”, ou maharaja nas línguas da região, são os rajputs — ou reis — de mais alto grau. Havia uma série de rajputs vassalos, e sub-vassalos, estilo Idade Média européia em que haviam reis, príncipes, duques, condes, etc. — toda uma hierarquia).

Um dos grandes portais da cidade, em Jaipur.

Em Jaipur, praticamente a cidade inteira é cor-de-rosa, e o desenho da parte central foi todo feito de acordo com um antigo tratado (no sentido de “obra escrita”, não de “acordo”) hindu de arquitetura, o Shilpa-Shastra.

Blocos retangulares e avenidas amplas recheadas de bazares, cada uma dedicada a uma espécie de produtos — tecidos, joalheria, alimentos, etc. Hoje, claro, “tá tudo dominado”, e as ruas são um caos completo. A fauna de que falei no post anterior não entra tanto aqui, exceto pela boiada, que com uma tranquilidade búdica — como os donos da rua — passeiam numa boa no meio dos carros e carroças.

O lado de dentro das muralhas, a área central de Jaipur, ainda vista de dentro do ônibus ao chegarmos.
Vacas na rua, sem a menor cerimônia.
Se você achou o lado de dentro bagunçado demais, este é o lado de fora.

(A Índia tem o dom de chocar. Mas, antes que você se assuste demais, vale lembrar o que eu já disse antes em Délhi: as cidades da Índia são como mares de lama com algumas pérolas no meio. O geralzão é sempre uma esculhambação, epítomes da pobreza e do caos urbano superpovoado do século XXI, mas muitas vezes com monumentos belíssimos ali no meio, fazendo contrastes gritantes. Jaipur não foge à regra.)

O meu guia na cidade foi Achint, o primo do marido de uma amiga minha. (A vida se faz formando relações!) Ele me pegou de moto na parada do ônibus e seguimos cortando a cidade por entre vacas e vendedores.

Numa dessas, eu perguntei a ele se as vacas não ficam agressivas de vez em quando. “Às vezes“, respondeu. (E elas têm chifres! Na novela Caminho das Índias gravaram cenas com um novilho, certamente com medo que Tony Ramos tomasse uma chifrada, mas aqui as vacas e touros têm chifres bem avantajados. O que eu vi foi fulaninho tentando laçar vaca sem sucesso na rua, vaca se afastando no meio do trânsito — que pára para bovinos mas não para humanos — e o cara lá olhando de longe a vaca se distanciar do outro lado da rua.)

Fiquei num hotel-boutique simples, arrumadinho e limpo (o que é raro na Índia), onde todos os funcionários eram homens (o que é comum na Índia, sobretudo aqui no conservador Rajastão). Encerrei o meu dia com um lindo prato de lentilhas negras bem temperadas com arroz. No dia seguinte, sairia com Achint para visitar a cidade.

Ainda há uma gama de palácios tradicionais bem preservados em Jaipur. O mais esplendoroso deles, no centro de Jaipur, é o chamado Palácio da Cidade, onde ainda hoje mora o marajá, alto rajput da região. Sim, eles ainda existem. Não têm o mesmo poder político de antigamente, mas são ainda influentes e ricos.

Na rua, os homens do Rajastão, aqueles de famílias originárias daqui, quase todos usam um brinco de ouro — visto em nenhuma outra parte da Índia. Os homens mais velhos também tem bigodes frequentemente avantajados, e às vezes um turbante de determinada cor. Antigamente, a cor indicava qual era a sua região de origem dentro do Rajastão.

O Palácio da Cidade em Jaipur, com as suas estruturas cor-de-rosa.
No pátio interno.
Halls magníficos, com arcos tipicamente indianos.
Nem tudo é cor-de-rosa, mas tudo é bonito.
Numa das arcadas, com o meu audioguia.
Com um dos senhores do Rajastão que estavam por lá.
Portal no Palácio da Cidade com o ubíquo cor-de-rosa de Jaipur.

Nessa onda, vi até um homem andando com a cimitarra embainhada na rua (sem brincadeira). E aí é que entra a tradição dos Rajputs: eles, a polícia não pára por andar armado. Às vezes eles mesmo se tornaram a polícia. Já o meu amigo Achint não era tão tradicional assim, e resolveu que almoçaríamos no McDonald’s. Are baba, como dizem os indianos.

O McVeggie, com hambúrguer vegetariano. É o n.1 na Índia.

A título de curiosidade, digo-lhes que aqui na Índia não existe BigMac. Lembre-se de que os hindus são comem carne de boi. O número 1, em vez disso, é o McVeggie, vegetariano. Eles não servem nada que tenha carne de porco tampouco, já que perderiam a clientela muçulmana (uns 15% da imensa população indiana, e que não comeria no estabelecimento se lá fosse servido carne de porco).

A propósito, tomei uma baita carteirada na fila do caixa automático quando quis tirar dinheiro antes de comprar o sanduíche. O cidadão literalmente mostrou-me uma carteira de sei-lá-o-que dizendo que era urgente e tinha prioridade. Pelo que conheço da Índia, altíssima chance de ser mentira. Fique aí achando que certas coisas só acontecem no Brasil.

Deixo vocês por ora com a rósea Jaipur e mais dos seus palácios. Achint e eu ainda iríamos ao Amber Fort, nos arredores da cidade, um dos lugares mais cênicos do Rajastão.

O Palácio do Ar, ou Jawal Mahal, mais um dos palácios róseos de Jaipur. Esse recebe o nome pelas aberturas para ventilação ao longo de toda a estrutura, que permite que o ar entre e circule.
E o Jal Mahal, o “Palácio das Águas”, isolado no meio do lago.

Era só o começo do Rajastão, esse estado indiano de tamanha personalidade.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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