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Em Pushkar, a cidade sagrada indiana onde é proibido comer carne

Diz a lenda que Brahma, o deus criador hindu, certa vez deixou cair uma flor de lótus na terra, e a cidade de Pushkar apareceu. Estamos numa cidade indiana considerada sagrada onde é proibido comer carne ou consumir álcool. (Os hindus geralmente já têm essas duas proibições. Muitos são vegetarianos completos, vários são abstêmios, e quase nenhum come carne de boi. Aqui em Pushkar, essas restrições são levadas mais a sério.)

Eu estava com a família dos Mathur em Ajmer, interior do estado do Rajastão, e a um pulo de Pushkar. Vinte minutos de ônibus ou carro separam as duas cidades. Naquele dia nós já havíamos visitado o santuário de mármore sobre o túmulo de um santo islâmico no centro de Ajmer, e à tardinha seria hora de mudar de fé e ir visitar algo hindu.

(Em torno de 15% da população da Índia é muçulmana;  2,5% são cristãos; e 80% são hindus de vários tipos diferentes. Eles normalmente se dão bem. Os indianos adoram é rir dos europeus, que com porcentagens minúsculas de gente não-cristã já fazem aquele escarcéu todo. Na França e na Alemanha, por exemplo, os muçulmanos não passam de 6% da população. O X da questão, claro, é o aspecto cultural. Os indianos hindus e os indianos muçulmanos, apesar de seguirem religiões diferentes, compartilham de outros traços culturais em comum que os ajudam a conviver bem.)

Pushkar num dia de festa, seu lago e seus ghats (que são aquelas escadarias que descem até a água).

Nós fomos lá de carro num fim de tarde. No caminho a Pushkar, guardas queriam cobrar uma espécie de pedágio turístico para entrar na cidade. Seu Mathur, que estava dirigindo, deu a louca, dizendo que não ia pagar nada porque não era turista e morava em Ajmer há 50 anos e era uma pessoa dali e não tinha que pagar. Os guardas nos deixaram passar sem pagar (e você fica aí pensando que “jeitinho” só se dá no Brasil).

Pushkar consegue ter ainda mais bois e vacas do que Ajmer. Seu Mathur achou de querer estacionar bem onde havia um bovino. Foi se aprochegando e o bicho nem “tchum”. Aí é que veio o melhor:

– “Mairon, desce aí.

*Mairon desce*

– “Faz ele sair aí.

?

– “Espanta ele.

A minha resposta foi uma cara incrédula. Desculpa mas não me ensinaram a “espantar” um bicho de 500kg e com chifres. Foi uma bela cena minha batendo palmas, batendo o pé no chão e fazendo coisas do tipo enquanto meio que me escondia atrás do carro vizinho. Estas vacas daqui são muito confiadas, e não hesitam em lhe ameaçar. No fim das contas, deu certo. Devagarzinho o bicho se moveu e Seu Mathur foi estacionando.

Este é o Templo de Brahma, o deus criador hindu da tríade Brahma-Vishnu-Shiva. Apesar da sua importância, Brahma tem pouquíssimos templos dedicados a ele. Este é um dos poucos — e o mais famoso — em toda a Índia. (As pessoas em Pushkar gostam de dizer que é o único, mas isso não é verdade.)
Lá no pátio interior, a área colorida do Templo de Brahma, com suas colunas.

A partir daquele portão branco de entrada já é preciso tirar os sapatos e seguir descalços. Tome-lhe um pouco mais de pé sujo no meio do povão, mas nada que um bom banho não resolvesse. 

O templo é bem simples, mas legal. Os templos hindus são bastante coloridos, com chão de lajota, escadarias, um sino pra você badalar e receber boa sorte, e a área central cercada — no meio daquelas colunas azuis — onde ficam altares etc., com acesso só aos sacerdotes. Da beira da cerca você se dirige à divindade, faz sua oração etc. Se quiser, você bebe uma aguinha com açafrão que o sacerdote lhe oferece. (Eu não quis. Com água na Índia é preciso ser cuidadoso.)

Passamos por muitas barracas vendendo comida em condições de higiene duvidosas. Seu Mathur parou comigo numa que estava particularmente nojenta. Um frigideirão preto de tanto uso, grande que dava até pra abraçar. Várias rodelas de massa boiando num líquido grosso que eu não sabia se era calda doce ou se era óleo velho — ou alguma mistura dos dois.

Lá foi Seu Mathur: “Me dê três“. Um homem gordo que estava sentado de pernas cruzadas, com o pé sujo perto da frigideirona, fala alguma coisa e lá detrás vem um menino. O menino então com a mão preta de sujeira mete a mão dentro da calda e vai pegando (aqui na Índia ninguém usa guardanapo ou coisas pra evitar contato direto com a comida… é tudo na mãozona mesmo). Foi a gota. “Não compre pra mim não“, fui logo dizendo. “Mas essa é a especialidade daqui“, replicou Seu Mathur. Ele não ouviu nem resposta. Fiz aquela cara de “Nem f*dendo”, e ponto.

Já caía a noite quando ainda estávamos circulando pela cidade. O curioso é que álcool e carne são proibidos, mas não faltam drogas várias e gente as usando. (Pelo visto, acharam de transformar a flor de lótus que era Pushkar em flor de papoula ou de coca.) Passamos por incontáveis turistas fumando maconha, e ouvi dizer que qualquer tipo de droga você aqui encontra fácil. Pushkar virou point de tráfico e hedonismo. Pobre Brahma, desvirtuado.

Deixo vocês com algumas fotos à noite. Chegava a hora de eu me despedir da hospitalidade dos Mathur e seguir a Udaipur, noutra parte do Rajastão.

Havia uma vaca no meio do caminho. No meio do caminho havia uma vaca. O centro de Pushkar, onde Seu Mathur queria me comprar as rodelas boiando no óleo/caldo.
As escadarias para o Templo de Brahma em Pushkar à noite.
Templo de Brahma.
Por dentro, com a bela arquitetura indiana.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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