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Visitando um “dargah”, santuário islâmico em Ajmer, Rajastão (Índia)

Pôr-do-sol em Ajmer, de um pavilhão de mármore encomendado por Shah Jahan, o mesmo imperador que ordenou a construção do famoso Taj Mahal, no século XVII.

Um dargah, palavra persa, é um santuário construído sobre o túmulo de um santo islâmico — algo que eu nem sabia que era possível, dada a visão fundamentalista que a mídia nos mostra do Islã. Fiquei surpreso ao saber que o islamismo também tem santos e reverencia os seus notáveis. São muitos, e há peregrinação e devoção do mesmo jeito que é feito com os santos católicos no Ocidente. Ou quase do mesmo jeito.

Estamos em Ajmer, no interior do Rajastão, talvez o mais tradicional dos 29 estados da Índia. É por este norte do país que vive a maioria dos 15% de muçulmanos da gigante população indiana (de 1,3 bilhão, portanto com quase 200 milhões de muçulmanos, praticamente a população brasileira inteira).

Esta dargah de Ajmer é visitada por milhares de pessoas todos os dias. Feita em várias belas edificações de puro mármore branco há séculos atrás, ela homenageia o santo Moinuddin Chishti (1142-1236 d.C.), um místico persa que dizem ter sido um dos primeiros a ter introduzido música no louvor a Deus. Parte da construção foi encomendada pelo próprio Shah Jahan, o famoso imperador (muçulmano) autor do Taj Mahal como mausoléu para a sua falecida amada. (Caso você queira ler mais sobre o passado muçulmano na Índia, leia esta crônica anterior em Nova Délhi.)

Uma das várias entradas para a dargah em Ajmer.

Se você imaginou um monumento “solto”, sem prédios vizinhos, se enganou: a dargah fica no miolo do centro antigo de Ajmer, cercado de becos e casario velho — você mal a vê direito antes de entrar.

Eu estava com os Mathur, a família de amigos meus que me acolheu por uns dias neste interior do Rajastão. Seu Mathur, o ativo patriarca da família de seus 70 anos, me trouxe de carro até onde carro não passava mais, a partir de onde caminhamos pelos becos do centro.

Hora de entrar na muvuca.
Seu Mathur mostrando o caminho.
É engraçado porque os brasileiros gostam de achar que o Brasil é o cúmulo da esculhambação. Não viram nada. O Brasil, afora as favelas, é um paraíso de organização, limpeza e asseio comparado a isto aqui.

No caminho, eu volta e meia via gente trafegando descalço naquele chão e pensava “Afff, como é que o cidadão vem pra cá descalço?“. Mal sabia eu que o mesmo destino me esperava. Do ladinho, uma verdadeira Veneza de esgotos, com mais canais que Amsterdã, correndo pelos dois lados de cada ruela, às portas das lojas. Às vezes você via também o esgotão jorrando e os porcos-do-mato coletando coisa. De relance que olhei ficou a imagem, agora gravada na memória, de um porcão abocanhando um limão passado que a água suja ia trazendo. Are baba.

Os “canais” de Ajmer, no centro. O cheiro é aquele que você imagina do esgoto.

Contudo, em mais um dos contrastes típicos da Índia, esse ambiente sujo se chocava com a beleza das flores que as pessoas meticulosamente arranjavam em guirlandas ou em cestas para serem ofertadas no túmulo do santo.

Homens arrumando flores à entrada da dargah, no centro de Ajmer.
Flores e pétalas. Fazem até você se esquecer por um momento do entorno urbano de onde está.
As flores em arranjos, à venda para os fiéis no centro de Ajmer.

À entrada da área da dargah, operação tirar os sapatos — e havia ainda uma certa caminhada por becos até chegar à tumba propriamente dita. (Não passa pela cabeça dos indianos, mega-habituados a andar descalços por onde quer que seja, que você possa ficar com nojo daquilo. E não há como se recusar sem parecer um fresco insensível. Então vamos lá.)

Um sacerdote muçulmano amigo do Seu Mathur estava lá pra nos assessorar, e nós pegamos um atalho pra contornar as multidões vestidas de branco que estavam por aquelas ruas apertadas. Na área interna aos portões não era permitido entrar com a câmera (precisei deixá-la com o sacerdote), mas o celular ele permitiu. Precisei também amarrar um pano branco na cabeça e, mais tarde, uma fitinha do desejo — à là fitinha do Bonfim —vermelha e amarela no braço.

Havia uma riqueza em revestimentos de ouro e uma bonita prática e jogar pétalas de flores na tumba, e fazer um pedido (quando amarrei a fita). Moinuddin Chishti era conhecido como “o benfeitor dos pobres”, então na área há um serviço de alimentação gratuita oferecida aos pobres da região, mantido pelos muçulmanos. A Índia tem pobreza, mas também é cheias dessas coisas de caridade (mais que no Brasil).

Um dos portões para a dargah no centro de Ajmer.
Do lado de dentro.
Área por onde ainda caminhei descalços.
As edificações de mármore branco no interior. São resplendorosas.
Sabe o que é isso que você está vendo no fundo do poço? Dinheiro. Se na tumba as pessoas jogam flores, aqui neste poço elas fazem oferendas de dinheiro.
Eu descalços com o mármore da dargah e o pano na cabeça.

No fim, dei um trocado ao sacerdote muçulmano que nos facilitou as coisas (é assim que as coisas funcionam aqui, não fica só no “muito obrigado”).

O pé fica sujo da rua, mas vale a experiência. Naquele mesmo dia, eu — mui eclético — iria com os Mathur a um lugar sagrado hindu tomar bênçãos de outra fé.

Deixo vocês por ora com algumas imagens de (outras) edificações de mármore feitas à época de Shah Jahan, no século XVII, à beira de uma lagoa hoje imunda em Ajmer. (Deterioração ambiental é coisa séria.)

Pôr-do-sol por detrás de uma lagoa, em meio aos pavilhões de mármore do século XVII em Ajmer. Hoje, apesar da sujeira da lagoa, eles continuam servindo de point onde as pessoas vêm passear.
O pôr-do-sol detrás dos pavilhões.
E olha quem eu também encontrei aqui.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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