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Três dias de camelo no deserto do Rajastão, Índia

Depois de já comer areia no trajeto poeirento de ônibus desde Jodhpur e ver casarios que mais pareciam feitos de areia do deserto em Jaisalmer, era hora de experimentar o Deserto de Thar propriamente dito. Como eu já coloquei antes, esse não é um deserto dominantemente arenoso como o Saara, mas um deserto pedregoso, árido com pedras, mato espinhento e arbustos secos — como nos filmes de Jesus que mostram ele na Palestina.

Este aqui, o Deserto de Thar, foi há muito área de tráfego de caravanas, na rota que estava entre as Índias ricas de especiarias e os mercados árabes, persas e do restante do Oriente Médio — até a Europa. Tráfego esse que era feito em camelos (ou melhor, dromedários, que têm uma corcunda só), animais adaptados à região.

Era hora de eu aprender a andar de camelo e experimentar um deserto, com seu sol e sua vista para as estrelas — sem poluição visual — à noite.

Acertei o meu passeio com Adventure Travel Agency Camel Safari, possivelmente a melhor de Jaisalmer. Recomendo porque o que não faltam são trambiqueiros de toda sorte, gente que passa gato por lebre na Índia, então fazer o passeio com uma agência digna é mais que importante.

Normalmente, vão grupos de turistas, mas neste dia não houve ninguém. Seriam três dias comigo sendo o único visitante.

Panorama do Deserto de Thar, na Índia.

Às 5:20 da manhã, eu acordei. Havia chegado o dia. Tudo acertado, às 6h passaria o jipe pra me pegar numa rua perto do hotel em Jaisalmer. Antes mesmo de o sol nascer, lá fui eu, atentando para os cães de rua que, haviam me dito, ficam particularmente agressivos nesse horário — com fome.

Levei um par de roupas somente — não haveria porque trocar. Nada de banho por três dias; nada de banheiro. Fui na minha nova vestimenta branca, comprada nas mãos de Joni e Soni lá em Udaipur. Mangas compridas e calças compridas pra evitar o queimar do sol. Pensei em levar turbante, cheguei a experimentar alguns em algumas lojas, mas em geral eu não gosto de usar nada na minha cabeça, por tanto fui sem. Tenho cabelo suficiente.

No caminho, no jipe sozinho com os indianos, a primeira coisa que fiz foi tirar o relógio do braço. Desliguei o celular — caso funcionasse pois há torres em Jaisalmer. Pronto, estavam cortadas as ligações com o mundo civilizado.

O jipe seguiu por mais de uma hora numa estrada, pra se certificar de que estávamos longe da cidade, até sair da pista e embrenhar-nos no deserto. Ele então me deixou no “acampamento”, onde havia apenas uma fogueira e o que levaríamos conosco: água, comida básica, e alguns utensílios, tudo carregado nos camelos já habituados a carga. Esses camelos são ENORMES. As costas deles ficam a cerca de dois metros de altura do chão, então você parece que está montado numa girafa.


Jamal, o cameleiro principal, e Armik, seu escudeiro (um garoto de 15 anos), seriam minha companhia pelos próximos dias. Outras agências que organizam isso fazem você ir sentado junto com o cameleiro, pra ter maior segurança. Mas não aqui. Aqui era eu e Deus. No caso, o deus Shiva, que era o nome do camelo que eu peguei. Má ideia. Minhas mãos ainda estão doloridas e com as cicatrizes de tentar me segurar no lombo de Shiva.

Os primeiros dez minutos em cima do camelo são o cagaço. Pronto, lascou, vou cair daqui de cima e quebrar um braço. Tinha sela mas nenhum lugar firme de segurar. Como você vai na frente do único lombo, pra trás você não cai, mas capotar para frente, em cima do pescoço do camelo, é a coisa mais fácil do mundo. E ele arreia sem avisar, ajoelha pra frente e se você não estiver com o corpo todo jogado pra trás, lá vai você. Havia umas sacolas junto da sela, então tentei me agarrar a tudo que pude. Quando o camelo começa a trotar, quem sacoleja é você. É a receita certa para fazer voltar o chai da manhã.

O ar da manhã era fresco, ainda antes de o calor começar.

Seguimos os três, cada um no seu camelo solto, Jamal com uma leva de outros camelos sem ninguém atrás dele.

Os camelos descansando no deserto.
É a esta altura que você fica do chão.
Este é Al Pacino, que se tornaria o meu melhor amigo.

Fomos os três deserto adentro, e passamos tanto por áreas isoladas quanto por áreas onde alguns moradores tentavam — e conseguiam — fazer alguma agricultura ou pastoreio. Muito parecido com os sertanejos. Paramos e visitamos algumas aldeias no caminho, casas muito simples feitas de barro e esterco seco.

As paradas eram também uma bênção para as pernas e os quadris inteiros, que depois de horas trotando estão pedindo arrego. Para os homens, sente errado e você vai tomando batida de ovos o caminho inteiro.

Ovelhas.
As casas onde as pessoas moram.
Rapaz e crianças.
Alunos tendo aula, assim do lado de fora mesmo.
Tomando um chai por um momento com os homens da vila. A cabana é simples ao extremo, mas há o costume de tirar os sapatos na entrada.
Com duas crianças no lugar.
Um tipo de melão que eles conseguem cultivar aqui, com água de poço. Usam tudo, até as sementes. A casca é alimento pros animais.

Quando o sol vai chegando ao topo, é hora de parar, pois fica quente demais (e olhe que não é o verão, outubro aqui é meio do outono). Nos ajustávamos onde havia alguns arbustos ou árvores pequenas que fizessem sombra, e ali a gente se assentava.

Eu era o único turista, e o garoto Armik praticamente não falava inglês, então minha conversa toda era com Jamal, o cameleiro principal. Não era um mau sujeito, mas às vezes meio inconstante. Ele implicou que queria o meu celular pra ele, então no primeiro dia eu me senti igual Frodo seguindo viagem na companhia do Gollum: seguindo por áreas inóspitas e acampando guiado por alguém que estava doido por algo seu. “Posso ver um pouco o seu celular?“, “Você não troca ele por alguma coisa não?“.

Fizemos uma sesta, esperando o sol baixar, pra depois seguir de camelo por mais algumas horas.

Cabras passeando por onde nos sentamos para comer.
Jamal (à direita), Armik lá atrás, e um pastor idoso. (Eles aqui não falam hindi, mas marwari, um outro idioma. Jamal sabia os dois.)

Após a camelada pós-sesta, no fim do dia dói tudo. Parece que você foi estuprado e que lhe deram uma surra. O suor também o encharca, você bebe água igual doido, e a areia vai por toda parte.

Nos assentamos, desta vez para jantar. Comida simples mas boa, que havíamos trazido. Tudo cozido ali no fogo do acampamento mesmo. A princípio o estômago não queria comer muito — parecia estar vendo que não havia banheiro por perto. Mas não tinha pra onde correr. Não tinha como passar três dias sem comer ou sem ir ao banheiro. Ali, o mundo todo é banheiro à sua disposição.

À noite, a temperatura despenca. Havíamos trazido cobertores e uns colchonetes nos camelos — praticamente uma cama no deserto. A noite é talvez o melhor de tudo: a lua brilhava forte jogando sua luz na areia. E, melhor ainda, após a lua se pôr no meio da noite, as estrelas ficavam ainda mais claras, e a visão do universo era melhor do que nunca.

O nosso acampamento.
Cama no meio do deserto.
O esplendor do amanhecer.

No segundo dia, as moscas descobrem que você já está há um tempo sem tomar banho e não deixam você em paz.

Levantei antes do sol, e não houve escapatória a não ser usar o “banheiro” disponível. Fiz a minha caminhada épica com o papel higiênico por sobre as dunas, e afastei-me o necessário antes de retornar para o café da manhã de torradas e ovos.

O suor seco deixa você pegajoso, e com água mineral você tenta ao menos lavar as remelas do olho e um pouco do rosto.

Tomávamos chai com leite tirado das cabras dali mesmo, que Armik abordava e ordenhava assim no ato.

Café da manhã.
Pronto para o segundo dia.

No segundo dia, troquei de camelo. Passei de Shiva para Al Pacino, um camelo mais experiente e cuja sela dava mais estabilidade. Um pouco e você já começa a se sentir já o Sheik das Arábias.

Vista de cima do camelo.
A rota.
Sentindo-me o Sheik de Agadir.
Rumo ao sol.
Pelas dunas.
Pequeno oásis, onde os camelos bebiam água.
As cabras todas procurando a sombra.
Cenário que se tornou comum pra mim.

Entre andadas pela areia, pela terra pedregosa, e as trotadas no lombo do camelo, uma experiência única — dolorida, mas diferente de qualquer passeio mais convencional.

Com a cara queimada.
Com a areia do deserto.
No entardecer.
Al Pacino me olhando.

Ao terceiro dia de manhã chegaram mais alguns turistas, mas àquela altura eu já tinha tido o suficiente do que eu queria de isolamento e reflexão. Foi até bom ver outras pessoas. Eu já estava todo quebrado, doido por um banho, mas satisfeito com essa experiência inesquecível.

Este sou eu ao terceiro dia. Nunca um banho tirou tanta sujeira de mim.

Voltaríamos a Jaisalmer, para eu no dia seguinte tomar um trem a um lugar onde outras memórias inesquecíveis me esperavam: Varanasi, a cidade mais sagrada dos hindus, onde passa o eterno Rio Ganges.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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