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Bem vindos a Varanasi, a cidade mais sagrada da Índia, à margem do Rio Ganges

O Rio Ganges. Um dos mais importantes do mundo. Provavelmente o mais festejado — a ponto de ser considerado um deus pelos hindus. Ou melhor, uma deusa, “Mãe Ganga”, e reverenciado como tal. Ao mesmo tempo, um dos afamados rios mais sujos de todo o mundo (dentre aqueles em que as pessoas ainda entram para nadar, é claro).

Varanasi, cidade continuamente habitada há 8.000 anos. Disputa com outras no Oriente Médio o título de mais antiga habitação humana. Cidade sagrada para os hindus, a ponto de considerarem que morrer aqui é auspicioso: você vai direto para os planos mais altos e sua alma escapa da roda das encarnações. Quem não morre aqui, muitas vezes vem ser cremado aqui, e ter as cinzas jogadas no rio. Sempre, dia e noite, as fogueiras queimando os mortos à beira do rio, e os vivos se banhando para se purificar. É como dizem por aqui: Varanasi é a “cidade da vida e da morte”.


É pra lá que eu fui.


Mapa da Índia, com Varanasi ali no centro. Eu vim o caminho inteiro desde Jaisalmer, no oeste do país, quase na fronteira com o Paquistão.

De Jaisalmer, no Deserto de Thar, até Varanasi são nada menos que 30 horas de trem. Toda a aridez ficaria para trás pra dar lugar a paisagens rurais verdes, de muitos vilarejos pobres — com gente por toda parte — em meio aos matos e aos campos.

Uma sujeira de dar arrepios. Rato dentro dos vagões. Banheiros que fazem passar logo a vontade, de tão imundos (sem assento, nem papel). E o pior é o povo: na minha frente, o pai botou o menino pra urinar ali mesmo, no ato, dentro do vagão, e eu só vejo o córrego amarelo na minha direção e da minha mochila (que fica no chão abaixo do assento). Isso porque eu fui de 2ª classe (na Índia são 5 classes, agora imagine a esculhambação que devem ser as de baixo). Are baba.

De dia todos ficam sentados aí. De noite quem é da cama de cima sobe e o dono do assento de baixo se espicha. Há essas cortinas (da foto ao lado) pra separar os compartimentos.
O interior de um trem indiano de segunda classe. Uma viagem curtinha de 30 horas aí, de Jaisalmer a Varanasi.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A farofada rola. Como há ar condicionado, não tem janela. E nem vidro transparente. É aquele vidro fumê sujo e pequeno que mal deixa ver o lado de fora. Mal entra luz também, então as lâmpadas vão acesas dentro. Com esse aspecto, você se sente tipo num submarino militar russo ou algo assim. Por sorte, achei uma australiana simpática com quem pude conversar por algumas horas.

Esse trem pedreira foi, de certa forma, uma boa preparação para a chegada a Varanasi. Varanasi é a cidade mais imunda que eu já vi na minha vida. Esqueça os padrões do que você acha que é sujo. Aqui esses padrões são rapidamente redefinidos. Você mal sai da estação de trem e já sobe aquele cheiro de fezes (humanas mesmo), vulgo fedor de bosta. Lixo você sai driblando pelas ruas, no meio das cabras, porcos e vacas. E pra piorar, tinha chovido.

O meu hotel ficava do outro lado da cidade, então tomei logo um “city tour” de tuk-tuk. O preço até não foi mau. Hotel decente também. Como já era começo de tarde (daquelas meio nubladas, úmidas, em que o chão está molhado e você não vê o céu direito), fui explorar a cidade a pé e conhecer de pert os seus famosos ghats, as escadarias que descem até a água. Cada ghat tem um nome e, às vezes, um uso diferente. Entre eles os ghats crematórios, que é onde eu queria ir. Percorri então a “orla” inteira do Rio Ganges até chegar lá.

A margem do Ganges em Varanasi (a outra margem não tem cidade).
Vacas perambulam pela beira do rio.
Pessoas também.
Um cidadão ali tirava um cochilo.

Parei, e me permiti degustar a sensação de estar na famosa, histórica, épica Varanasi. Naquele momento, eu sentia-me no lugar mais hippie do mundo, no coração espiritual da contracultura dos anos 60 e 70. Numa livraria à beira do Ganges, vendendo manuais de auto-ajuda de gurus hindus, eu me senti no lugar mais New Age do planeta. E ainda assim sua realidade material era muito díspare, era muito distinta daquela elevação espiritual toda. A realidade de Varanasi era pobre; a água, suja; o rio, imundo; as ruas, repletas de fezes e urina; a infraestrutura, acabando-se em pedaços. As pessoas, procurando como viver.

As ruas de Varanasi.
Altares hindus defronte ao rio.

Às vezes não dá pra ir de um ghat a outro, porque o rio bate direto no paredão de uma casa, ou porque o lamaçal é demais e não deixa passar. Aí é preciso entrar pelas várias ruelas e becos ali da cidade e contornar. É nessa que você se perde. E eu me perdi.

Nessa, a tarde ia caindo, e eu no entra e sai de becos, rodando por ali. Na verdade, é parte da experiência de Varanasi. E, como nos ghats, você vê figuras de todo o tipo: de homens-santos mendicantes (sadhus) vestidos de cor-de-abóbora e com cinzas passadas no corpo, até jovens europeus hippies em viagem. Não faltam lojas simples com livros, CDs, pôsteres e qualquer coisa que faça referência a espiritualidade, tratamentos alternativos, yoga, etc. Eu era lembrado sempre que estava na Meca de muito do espiritualismo alternativo. Às vezes a coisa parece séria, outras vezes descamba pra a maconha. Fui oferecido haxixe pelo menos umas 5 vezes na rua.

Você gosta de se sentir como o super-homem? Agora é possível.“, disse-me sério (apesar desse palavreado barato de vendedor) um rapaz indiano de seus 18 anos, agilizando-se para acompanhar o meu passo e tentando me oferecer alguma droga quando eu seguia pela margem do rio.

Eu já via no horizonte a fumaça das piras funerárias subir. Deixei o rapaz pra trás e segui. Mais adiante, navegando os becos, um senhor me aborda dizendo que vai me mostrar o caminho. “Venha, por aqui“. Você já fica meio cismado, mas vai. Lá fui. Entra em beco, sai em beco, chegamos ao ghat funerário principal. Lá várias fogueiras queimavam, à beira do rio. Uma construção de pedra escura de seus três andares me separava das fogueiras. Dava pra contornar, mas aí o homem me leva até a entrada desse ‘edifício’ e fala com mais alguém.


”Ele vai lhe mostrar lá de cima. Depois, na volta, você dá uma passada na minha loja. Tem sedas ótimas.” Não respondi nada, e subi com o novo cara. Ele falava um inglês meio decorado, às vezes repetia o que já tinha dito, e tinha dificuldade em responder se você perguntasse. Mas subimos. Lugar escuro, com gente sentada e deitada pelo chão, e a fumaça dos mortos por toda parte.

Subimos as escadas e fomos lá pra cima, onde de um parapeito dava pra asssitir a toda a cremação lá embaixo. Esse cara vai me pedir dinheiro, já ia pensando eu, conhecendo os indianos como conheço. Mas, bom, era até justo. Ele foi dando uma explicação de como procede toda a cremação, de que queima-se o cadáver por 3h e joga-se o defunto meio-queimado no rio; que grávidas, crianças e sadhus (os homens-santos de abóbora que eu falei) não são cremados; que quem morreu picado de cobra também não, só depois de tomar uma bênção do sacerdote, etc e tal. Detalhes alguns até que eu já esqueci, de tantos que são.

Lá em cima onde estávamos havia também pessoas no chão, parecendo sem-teto. Uma velha acocorada junto à saída pra a escada e um homem espichado num pano sujo perto de nós. Vi lá embaixo os familiares jogarem muitas oferendas juntos com o defunto (que vai meio que mumificado pra a fogueira, numas ataduras brancas). Vão flores, objetos, e muito pó de madeira de sândalo, usado em incensos (senão ia subir o cheirão de churrasco ao se cremar a pessoa).


A fumaça já estava me doendo os olhos, e eu já tinha ouvido a explicação toda, então hora de ir embora, a hora dolorosa do pagamento, que é sempre aquela novela porque você dá a mão e eles insistem em querer o seu braço, a perna… Chegamos à saída para a escada, onde estava a velha. E o cara: “Abaixe que ela vai lhe dar uma bênção“. Abaixei, a velha pegou minha cabeça, tomei lá a bênção, aíííí sim veio: “Agora você faz a doação pra ela, que toma conta disso aqui e compra madeira pra queimar os sem-teto que morrem“. Sei, sei.

Levantei-me, tirei uma nota de 100 rúpias [o equivalente a uns R$5] e estendi à velha. Ela já ia pegando, mas aí viu o valor da nota e puxou a mão pra trás, fazendo uma cara de quem tinha cheirado peido. (Ela não falava). Foi aí que o cara me veio dizendo que eu devia dar 50 kg de madeira. “E quanto é isso?“, perguntei eu.

7000 rúpias“, respondeu ele (o equivalente a uns 300 reais). Ah, tá bom, já tô dando isso tudo mesmo. Aproveitei que a fumaça já estava nos olhos e fiz o drama. Disse que ele não podia exigir isso de um estudante vindo de outro país em desenvolvimento. Aí ele, que só dava o preço em kgs de madeira, veio: “Se tem emprego, dá X kg de madeira; no job, Y kilos“. Vai dar o golpe da madeira em outro, meu tio. No fim das contas ele falou pra a velha aceitar as minhas 100 rúpias, mas insistiu que queria outras 100 rúpias pra ele próprio pela explicação. Sabia. Mas essas eu já tinha preparado, e dei o fora antes que inventassem mais alguma coisa.


Mas saindo, como que cronometrado, estava lá chegando já o cara que me achou nos becos. “Ah! Bem na hora! Venha ver a minha loja!“. Putz. Acabei indo com o cara. Aí é sempre aquela história: “Sente, toma um chai?“, e vai lhe empurrando a loja inteira. Não é tão mau, o problema é que nessa onda você acaba comprando. A única coisa que valeu foi, quando eu disse que era do Brasil, ele me mostrar um caderno de visitas assinado pelo Zé de Abreu (o ator que fez o papel do sacerdote na novela Caminho das Índias) e com uma foto nessa mesma loja, de quando fizeram as gravações.

A noite já tinha caído, e eu aproveitei para assistir ao ritual que fazem à beira do rio no ghat principal, perto de onde eu estava, onde dizem que Brahma, o deus criador, certa vez veio pessoalmente. Seguem mais fotos abaixo, e no próximo post o dia seguinte, do meu aniversário, quando eu fui ao Ganges propriamente dito.

 

Algumas belas estruturas.
Fachada de um dos muitos templos hindus de diferentes vertentes do hinduísmo.
A área moderna de Varanasi, quando você se afasta um pouco do rio, pelos becos.
Imundície até onde não pode mais. (Barranco abaixo à direita da foto, havia morros de lixo com água onde búfalos se banhavam a procurar restos de comida. Cena dantesca.)
Os mercados nos becos.
Um homem, perto do rio, esfregava-se com cinzas quando passei.
À noite, o ritual com fogo e incensos à beira do Rio Ganges.

Abaixo há um pequeno vídeo que fiz em qualidade limitada, mas que lhe permite escutar.

 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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