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Visitando o Forte Vermelho (Red Fort) e a Jama Masjid em Nova Délhi, Índia

Quando eu retornei a Nova Délhi após o meu périplo pelo Rajastão e Varanasi, retornei à mesma família que havia me albergado antes. “Eu estou com a febre“, declarou-me Seu Bhalla (assim com o artigo definido mesmo, embora jamais tenha me especificado que febre era essa, nem eu tenha perguntado).

Seu Bhalla, pra quem não lembra, é o chefe da família a quem eu paguei para ficar umas semanas em estilo home stay, e que havia tentado me passar pra trás com o preço. Estávamos já em final de outubro, e a chuva diária das monções e o calor úmido começavam a ser gradualmente substituídos por um tempo mais frio. (Délhi chega a 5 graus no inverno, entre dezembro e janeiro.)

Eu cheguei com a minha mochila. Seu Bhalla, com aquele ar doente e de quem está irritado por estar doente, vestindo suas calças brancas, sandálias, e uma camisa de mangas compridas brancas, entregou-me a chave do meu habitual quarto no andar de baixo e disse-me que ia descansar, e que eu também deveria ir descansar. (Aquela sociabilidade latino-americana não existe aqui na Índia.)

Eu não iria descansar. Era ainda começo da tarde. Fiquei ali pelo bairro, fui me abastecer de comidas, etc. O meu retorno a Nova Délhi devia-se a um congresso sobre energias renováveis de que eu participaria, e minha estadia na poluída capital indiana não deveria demorar mais que alguns dias. Era hora de começar a agendar meus trens rumo ao sul do país, meu próximo destino.

No entanto, antes de o evento começar, eu ainda tinha um dia livre na cidade. Eu iria usá-lo para conhecer alguns pontos de Nova Délhi ainda não visitados, como o Forte Vermelho (Red Fort) e a mesquita Jama Masjid, uma das maiores da Índia. Ambos bastante impressionantes, e próximos um do outro.

Na manhã seguinte à minha chegada, fui tomar o café da manhã com a família, como era incluso no preço que eu pagava. Mas a bruxa estava solta no reduto dos Bhalla: Dona Bhalla estava internada no hospital (problema nas plaquetas, contou-me um vizinho); as crianças haviam sido levadas à casa de algum parente no interior; e Seu Bhalla com a tal febre parecia que tinha apanhado de porrete. Ele que já é um sujeito taciturno, a quem você às vezes pergunta algo e ele não responde, estava mais ainda.

Eu estou indo para o templo“, declarou Seu Bhalla com a educação necessária mas sem mais, de branco com uma trouxinha de comida num saco plástico, que me pareceu oferenda. A empregada, muda, serviu-me um pão na chapa com manteiga, um chá preto com leite (o chai), e pronto.

Depois desse café da manhã reforçado, eu me mandei para a loucura que é o centro velho de Délhi.

Chandni Chowk, numa das áreas mais velhas de Délhi. Lembra completamente o Slumdog Millionaire (filme que no Brasil saiu com o título de “Quem quer ser um milionário?”).
Aí de repente você se depara com a Jama Masjid, a maior mesquita da Índia.

Como Délhi foi uma cidade desenvolvida na Idade Média numa época em que esta parte da Índia era dominada por dinastias islâmicas, há muitas obras muçulmanas nesta parte mais antiga da cidade. Além disso, você encontra muitos da minoria muçulmana de 15% da população indiana (o que dá mais de 100 milhões de pessoas, vale dizer).

Você conhece aquela pessoa que gosta de dizer que direitos humanos é coisa pra proteger vagabundo? Convide-a à Índia. Me chamou a atenção como, no lado de dentro, havia funcionários da mesquita tirando as pessoas sentadas na escadaria na vara. Chegavam mesmo, sem nem querer saber quem era, tirando as pessoas a varadas como quem enxota cachorros de rua.

Olhei pra aquilo como quem vê uma cena bizarra saída de séculos atrás, que eu estou habituado a ver em filmes e não na vida real.

Apesar disso, a Jama Masjid é um encanto. Ela foi construída pelo mesmo imperador que ordenou a construção do Taj Mahal, Shah Jahan, em 1656, com mármore branco e arenito vermelho. O Forte Vermelho, que tem essa cor exatamente pelo uso desse arenito, foi também construído na época de Shah Jahan, em 1639. Essa foi a residência imperial por mais de dois séculos, até a tomada do controle da Índia pelos britânicos em 1857. (A Dinastia Mogol, escrito assim mesmo, controlava este norte da Índia por séculos. O sul eram outros reinos, hindus. Mais sobre esse passado islâmico do norte da Índia neste outro post aqui.)

A lateral da Jama Masjid com seus minaretes.
Garotos de alguma escola islâmica que flagrei ali, querendo ver sua foto tirada pelo turista.

Segui para a entrada do Forte Vermelho, onde é preciso pegar uma fila grande e comprar ingresso. Há uma fila separada para visitantes estrangeiros, que pagam mais (o que é habitual na Índia e em muitos outros países). Foi engraçado porque, normalmente, eu me disfarço de indiano, devido à minha cara e às minhas roupas compradas na Índia. Nesse dia, o guarda achou que eu era um malaco indiano pegando indevidamente a fila dos estrangeiros e quase me parou. 

— “De onde você é?”, perguntou ele sem grandes simpatias e com aquele tom de quem quer pegar um mentiroso.
— “Eu sou do Brasil“, respondi a ele em alto e bom tom no maior sotaque norte-americano que pude produzir, pra ficar bem claro que eu não era indiano. Metamorfoses. 

O grande Forte Vermelho de Nova Délhi, antiga morada dos imperadores mogóis entre 1639 e 1857.
Grande arcos de entrada pelas muralhas.
No interior, áreas verdes e pátios com esses arcos típicos indianos.
Belos pátios em mármore com os arcos.
Os muitos arcos em perspectiva, no arenito vermelho.
Uma das fachadas, com a bandeira da Índia lá em cima.

Como eu costumo sempre dizer, Délhi é uma cidade que é um mar de lama com algumas pérolas perdidas ali. O geralzão é horrível, mas ali no meio há monumentos muito belos.

Você leva algumas horas bordejando e tirando fotos, até a fome bater. Fui aonde? Faltando-me coragem para comprar comida na barracolândia da Índia, rendi-me ao McDonald’s que há ali perto. Comprei um MgVeggie, vegetariano, que é o n.1 aqui. Pois este acabou sendo o único dia em que eu tive uma bela dor de barriga, apelidada entre os turistas de Delhi belly.

Aqui na Índia, às vezes os lugares mais populares são mais limpos que os de shopping ou fast food. Certa vez, num dos outros dias retornando à noitinha à casa do Seu Bhalla, avistei um vendedor na rua com algo que me pareceu pão de queijo. Uma miragem. Acho que eu estava começando a ter saudades das comidas do Brasil.

O vendedor pobre não falava nada de inglês, mas eu consegui lhe pedir uma porção daqueles similares de pão de queijo. Na verdade, não eram nada parecidos: eram crocantes, e o cidadão abria um buraco no meio com o polegar sujo, mergulhava-o num panelão de sopa rala de tomate com pimenta que ele tinha ali, e me dava para comer. Eu devia estar fora de mim, ou com muita fome, pois comi quatro. A sopa rala espalhava-se na sua boca com o desmanchar da coisa. Achei que ia pegar uma dor de barriga das brabas, mas não tive nada. Pra você ver.

Era hora de mudar de ares e deixar os Bhalla pra trás. Passados alguns dias do congresso de que participaria aqui em Délhi, eu rumaria finalmente para passar um mês no sul da Índia, bastante diferente. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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