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24h num trem indiano

A incrível jornada. Das praias do sul subindo de volta ao norte até Mumbai, a “São Paulo” da Índia — cosmopolita e coração econômico, mesmo sem ser a capital. Separando-me de Mumbai, 24h de trem. Trem povão, 4ª classe (15 reais a passagem pra esse tempo todo de viagem, por aí você já tem uma idéia). Mas foi uma experiência inesquecível.

Saindo da Praia de Kovalam no estado indiano de Kerala, eu ainda passei pela cidade de Coimbatore (nada pra ver lá) e fiz conexão até Chennai, antigamente chamada de Madras (muito pouco pra ver lá também). Estas duas cidades já são no estado vizinho de Tamil Nadu, onde falam eles a língua tâmil, a parte leste da pontinha sul da Índia. Lá em Chennai realizei alguns trabalhos breves e entrei na incrível jornada de um dia e uma noite no trem.

Estação de trem Coimbatore Junction, no sul da Índia. Em frente daí, fui familiarizado ao hábito regional de comer arroz com caldos sobre um quadrado de folha de bananeira na mesa em vez de um prato. Vem um morro de arroz branco, sobre o qual você joga caldos condimentados. (Não houve mãos limpas para tirar foto.) Os indianos normalmente comem com a mão (a direita, pois a esquerda é pra limpar a bunda com água ao se ir ao banheiro, já que aqui tradicionalmente não se usa papel higiênico). Vendo-me ocidental, deram-me um garfo e uma colher no almoço.

(Os indianos podem parecer xucros aos olhos dos ocidentais mais refinados com limpeza, mas isso não lhes tira outros méritos: na casa de um dos professores que entrevistei em Chennai para o meu trabalho de pesquisa, por exemplo, fui prontamente convidado a entrar e participar de um delicioso almoço caseiro de arroz com grão-de-bico temperado, e até pela cozinha eu circulei à vontade. Tudo com uma generosidade que vai muito além do que normalmente recebo dos requintados europeus do norte, como na Holanda, onde moro.)


No dia de pegar o trem rumo ao norte, eu saí cedo. Às 5:30h da manhã eu já estava de pé e corrido, fazendo tudo caber dentro da mochila e me mandando para a estação. O sol ainda mal raiava e eu já estava lá entrando no trem pra o que seria uma jornada de um dia inteiro e uma noite, chegando a Mumbai na manhã seguinte.


O trem indiano tem uma concentração grande de pessoas, como vocês podem imaginar. Em teoria, numa área de seus 1,5m x 3m vão 8 pessoas; na prática, logo na minha primeira hora de viagem contei 9 adultos e 5 crianças (sim, eu sou ótimo pra atrair a meninada). Pula pula, chororô, tudo isso.

Nesse meio estava uma família em que o homem morou na Alemanha, então ficamos conversando. Ele dizia que, sempre que possível, punha os filhos pra viajar nessa classe pra eles terem uma melhor noção do país.

O compartimento onde viajei. A foto foi tirada na surdina, pra não constranger as pessoas, e por isso ficou pouco clara, mas dá uma ideia.

O melhor é vocês assistirem a esse pequenino vídeo (abaixo) que eu fiz do interior do trem onde eu passei 24h.

O trem povão é também pinga-pinga, como você pode imaginar. Toda hora pára e entra gente. Além de passageiros, entram também os vendedores ambulantes, que são a verdadeira alma do trem povão. Nessa viagem, eu provei: samosa (uma fritura com batata e especiarias dentro), chai, doce de manga, bolinho de arroz com molho de côco, pão chato, goiaba verde com sal e pimenta, e outras coisas que eu já esqueci.


(Um adendo sobre as frituras aqui. Uma vez perguntei a um entrevistado meu se eles não usavam resíduos de óleo frito, de restaurantes, pra fabricar biodiesel, como no Brasil. Ele disse que não, porque mesmo esses óleos de mais uma semana ainda tem quem compre para fritar ainda mais. Então já viu. Boa sorte com as frituras daqui.)


Normalmente, eu não entro muito nessas frituras de beira de rua, e também essa história de goiaba com pimenta não me apeteceu muito, mas acabei me juntando a um grupo de indianas pra jogar baralho, e aí rolou aquela pressão. O mais interessante foi ver a cara dos mais velhos olhando eu e um bando de rabos de saia (ou de sari) dando risada e jogando.

Na Índia, normalmente os grupos de jovens são unissex: você vê aquele bando de rapazes juntos parecendo o Clube do Bolinha, posando de gostosões (os indianos adoram posar e andar parecendo bad boy, igual o povo que vai pra a exposição agropecuária lá de Feira dar em cima das domésticas). Ou então é aquele bando de moças dando risada e confabulando, sem nenhum rapaz no meio. Eu já estava de saco cheio de ficar conversando só com homem (até porque os caras indianos às vezes tem uma conversa beeesta…), então puxei conversa com as moçoilas e acabamos jogando. Foi divertido e foi boa companhia pra ajudar a passar o tempo.

Goiaba verde com tempero jogado por cima, que cobrei de um vendedor ambulante que entrou no trem.

Duas coisas “pegam” no trem povão. A gandaia dentro do trem, ao entra e sai de passageiros e de vendedores você se acostuma (se não se acostumar, você surta), e em grupo fica até divertido. O negócio pega é na hora do banheiro e na hora de dormir. Como vocês viram, o banheiro estava fechado na hora do vídeo, mas eu tirei uma foto pra vocês verem…

Este é o banheiro. Aqui ele ainda estava limpo, depois de umas horas com aquele povaréu todo, vira um pandemônio.

Esse é o banheiro típico indiano. É, sem vaso mesmo. Tradicionalmente, indiano não usa vaso, faz em pé ou de cócoras. Hoje em dia é que vaso está ficando comum nas casas, mas mesmo assim banheiro público é quase sempre sem. Ou quando tem, vem escrito “Western Toilet” na porta. No trem tem um por vagão (+ dois em estilo indiano), mas depois de 2h de viagem já está a fedentina e a molhação no chão.

A segunda hora complicada é a de dormir. A classe povão vai sempre com gente a mais. O negócio é que aqui eles usam um sistema de reserva em que, se alguém cancelar, o lugar é seu. Como você nunca sabe se vão cancelar ou não até a hora H, você entra. Aí frequentemente dúzias de pessoas vão no chão, dividindo assento, no motor… tem de tudo.

No meu caso, eu primeiro descobri que o lugar de deitar não me cabia; tive que ir encolhido, e dividindo o espaço com uma senhora idosa gorda que estava sem lugar e um menino (também gordo) que estava espirrando e com a garganta ruim. Já imaginou aí que climão bamba pra dormir? Agora, parando pra analisar, pense aí que muitos daqueles outros — do menino gordo gripado e sem assento até o povo dormindo no chão — estavam em situação muito pior do que a minha, e se bobear eles passam por isso todo mês.


Você, é claro, não dorme; você no máximo cochila por 2h, aí acorda, tenta se revirar e vê que não dá, aí tenta dormir assim mesmo, acorda de novo… É uma experiência inesquecível, e não necessariamente por razões inteiramente boas.

Além dos vendedores ambulantes, passam também as híjras pelo trem, o dito “terceiro sexo” aqui na Índia, travestis que vivem de pedir esmolas e distribuir bênçãos ou maldições — a depender de você ter cumprido a sua parte ou não na hora em que lhe pedem as esmolas. Várias chegavam na maior cara de pau, já a bater palminhas, requebrar o corpo e estender a mão pra eu pôr dinheiro; se desse (coisa pouca, 10 rúpias, o equivalente a 50 centavos de real), davam-me um tapinha no cocuruto da cabeça, o que passava por bênção. Após a terceira híjra, eu já estava ficando cansado, e uma das moças indianas me disse que eu simplesmente não desse mais, e assim fiz. Elas simplesmente seguiram adiante.

Fazer longas viagem de trem na Índia, especialmente na classe povão (sleeper), pode ser penoso, mas tem as suas diversões.

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos (eu acho). De manhãzinha cedo, estávamos chegando a Mumbai, para uma bela manhã de chuva.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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