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Visitando o Taj Mahal em Agra, Índia

Finalmente, cheguei ao monumento mais famoso de toda a Índia. Agra, a 230Km de Nova Délhi (4h de trem), é uma cidade hiper-turística — talvez a mais de todo o país. É também uma cidade muvuquenta e incrivelmente suja, que talvez não dignasse a visita de um único visitante, não fosse pelo impressionante Forte de Agra e pelo mausoléu mais famoso de todo o mundo, o Taj Mahal.

O clima que me esperou já era frio — a Índia está acima da linha do equador, e novembro já é quase inverno aqui no hemisfério norte. Embora lá “embaixo” em Mumbai estivesse tudo quente e úmido, cá o povo já está todo agasalhado. Agra também me agraciou com uma bela chuva. Nada mais apropriado pra ver um monumento feito por um imperador para a sua falecida alma-gêmea.

Eu cheguei, me instalei num hotelzinho chinfrim a uma distância que desse para ir a pé ao Taj Mahal, e saí pela cidade.

Curiosidades nas ruas de Agra. As ruas aqui são uma zona.
Córrego que cruza a cidade.
O imponente Forte de Agra (Agra Fort).
A magnífica entrada do Forte de Agra.


O Forte de Agra — se me permitem falar dele antes de passar à estrela principal do post — é mais antigo que o Taj Mahal e data de 1573. Construído pelo imperador mogol [não confundir com mongol] Akbar, do império islâmico de origem afegã que governou este norte da Índia por séculos (de 1526 a 1857) até a chegada dos ingleses, ele foi residência imperial e efetiva capital por quase um século, até a transferência para o Forte Vermelho de Nova Délhi em 1638. O notável arenito vermelho usado nos dois fortes é do mesmo tipo. 

O Império Mogol, que do que é hoje o Afeganistão veio a dominar quase todo o território do que hoje são a Índia e o Paquistão. O império só se dissolveu sob os britânicos, em 1857.

O guia que eu contratei na entrada do Forte de Agra foi um coroa careca e de boné. Parecia ser uma dessas pessoas emocionalmente pouco equilibradas, mas isso não era raro de ver, então não me preocupei. 

Seguimos pelos longos caminhos, pátios e passadiços dessa cidadela fortificada que é o Forte de Agra, ele contando-me as histórias do desenrolar do Império Mogol na Índia. Falou-me de Babur, que em 1526 conquistou esta região para o império; de Humayun, seu sucessor, que foi coroado aqui em Agra, morreu numa queda na biblioteca, e cujo mausoléu eu visitei em Nova Délhi; de Akbar, o imperador que veio a fazer o Forte deAgra do jeito que ele é hoje em 1573; e de Shah Jahan, o seu neto que em 1632 ordenaria a construção do Taj Mahal. 

Aquele coroa de moletom era o meu guia, que me guiava pelos meandros do imponente Forte de Agra.

O guia me surpreendeu, no final, revelando ser um sikh, daquela religião indiana — diferente do hinduísmo geral — onde os homens usam turbante e não cortam o cabelo nem fazem a barba. (Xenófobos no Ocidente frequentemente os confundem com muçulmanos.) O sikhismo é uma religião monoteísta surgida na região do Punjab, noroeste da Índia, no século XV, derivada do hinduísmo. 

Homem sikh.

O guia, que já vinha contando sobremaneira os detalhes de como os imperadores mogóis tentaram forçar conversão dos sikhs ao Islã ao longo dos séculos (inclusive com decapitações públicas), contou-me que passou a raspar a cabeça numa promessa.

Em 1984, a primeira-ministra indiana Indira Gandhi foi assassinada por um dos seus guarda-costas sikh. Isso ocorreu depois de ela ordenar o exército indiano, meses antes, a invadir o Templo Dourado (santuário máximo dos sikh, no Punjab) e executar todos os insurgentes separatistas sikh lá dentro. Como violência gera violência, a morte da primeira-ministra levou a repressão geral na qual mais de 1.000 sikhs foram mortos pelo país.

O meu guia de hoje foi um dos que escaparam. Segundo ele, pediu clemência que os soldados não o executassem na frente dos filhos. Tomou coronhadas cujas cicatrizes na cabeça ainda me mostrou. Prometeu a si mesmo que dali em diante não conservaria mais o cabelo (não me perguntem da lógica disso dentro da teologia sikh). Vivia hoje como guia.

Nas ruas de Agra naquele dia chuvoso. As armas e a valentia, tão sempre celebradas, talvez tragam mais infelicidade que felicidade. Talvez, certo esteja o Mestre Yoda, que dizia que não há “grande guerreiro” porque guerra não torna ninguém grande.

Passemos agora da guerra ao amor.

O Taj Mahal é popularmente considerado o maior monumento do mundo feito em homenagem ao amor, e eu me programei para vê-lo tanto de dia quanto de noite, sob a luz da lua cheia. Essa segunda visita só é possível durante as cinco noites ao redor do dia da lua cheia, e é exigido que você compre pessoalmente as entradas ao menos 24h antes (ou seja, você não pode comprar no dia para visitar naquela noite — é preciso comprar pelo menos no dia anterior à data da noite em que pretende visitar, e lembre de levar consigo seu passaporte).

Já a visita durante o dia é muito mais simples, mais barata, e não precisa de guia. Recomendam visitar no começo da manhã, e é uma visita curta — o que mais vai demorar, sinceramente, é tirar fotos. Você vai basicamente por umas grandes arcadas, uns jardins com espelhos d’água, até que alcança o grande mausoléu em si (no qual a entrada não é permitida).

O caminho de entrada para os precintos do Taj Mahal na manhã seguinte ao dia em que cheguei a Agra. O chuvisco continuava intermitente, mas não era nada que impedisse a visita. De certa forma, dava uma elegância plácida ao momento.
O grande pórtico de entrada aos jardins do mausoléu. Percebam o uso do mesmo arenito vermelho que é comum nas demais obras do Império Mogol.
Basta ele aparecer no horizonte, e as câmeras já ficam em polvorosa. São 73m de altura e toneladas de mármore branco.
Os jardins e o Taj Mahal no origem. Aqui, um monge budista de vermelho e uma asiática posando para a foto.
O Taj Mahal com os tons daquele amanhecer chuvoso no céu. O Prêmio Nobel de Literatura indiano Rabindranath Tagore, há um século atrás, descreveu-o como “uma gota de lágrima na face do tempo”. 

A história do Taj Mahal, em miúdos, é a seguinte.

Há muito, muito tempo, nos idos 1600, nesta terra distante, o príncipe Khurram, herdeiro do trono de imperador, foi prometido a três esposas (na tradição muçulmana se pode ter até quatro esposas simultâneas). Às duas primeiras ele demonstrou muito pouco interesse, mas pela terceira, uma princesa persa, a história foi diferente.

Essa princesa de origem persa era Arjumand Banu Begum, apelidada de Mumtaz Mahal ou “a favorita do palácio”. Quando o imperador morre, ascende o príncipe Khurram ao Trono do Pavão Real. (Assim era chamado o assento dos imperadores mogóis. Fisicamente, tratava-se do lendário trono Taxt-e Tâvus, mais caro em valor do que o Taj Mahal inteiro, de tantas jóias que tinha e em ouro maciço — e que de tão valioso acabou sendo desmantelado tempos depois, antes de os ingleses chegarem, mas cujas jóias acabaram algumas indo fazer parte das “jóias da coroa britânica” mesmo assim.)

Ao ascender ao trono, o príncipe Khurram assume o nome de Shah Jahan, e sua princesa se torna a imperatriz favorita. A moça é relatada como sendo “o berço da excelência”, mulher de bom coração e beleza infinita. Além disso, boa companheira e sem aspirações políticas (o que, para a época, era importante, pra evitar aquele veneninho na janta). A relação era intensa. Ela era sua principal companhia e confidente; viajavam juntos nas campanhas militares do império, e juntos tiveram nada menos que 14 filhos. No parto do 14º, porém, a princesa veio a falecer. Dizem que Shah Jahan ficou tão em choque que os seus cabelos ficaram brancos do dia para a noite.


Assim, ele decidiu, ainda durante a campanha militar, que construiria um gigante mausoléu para a sua imperatriz. Assim veio à existência o Taj Mahal, que significa algo como “coroa dos palácios”, e que depois de 22 anos — em 1653 — ficou concluído às margens do Rio Yamuna.


Foi ele que eu visitava naquela chuvosa manhã.

O Taj Mahal de outro ângulo.
Sua portentosa estrutura.
As arcadas de mármore são imensas, com arabescos e motivos florais

Há rumores de que Shah Jahan pretendia construir um outro mausoléu em mármore negro para si próprio na margem oposta do rio, mas tudo indica que isso não passa de uma lenda inventada pelos guias turísticos.

Pra quem quer saber a continuação da sua história, no entanto, ela é um pouco trágica. Dos filhos de Shah Jahan e sua princesa persa viveram 6, duas mulheres e quatro homens. O mais novo, Aurangzeb, estava revolto que seu pai estivesse gastando tanto dinheiro enquanto outras pessoas necessitavam. Resultado: deu um golpe.

Aurangzeb matou seus três irmãos mais velhos, se mancomunou com uma das irmãs, e aprisionou o pai numa torre do Forte de Agra. A outra irmã tentou ajudar o pai e foi também presa. A torre não era uma masmorra, eu visitei, tinha fontes com água de rosas e tudo o mais, mas funcionava como uma prisão domiciliar. Shah Jahan olhava o Taj somente à distância. Quando a  sua vista ficou fraca, sua filha pediu ao irmão Aurangzeb que trouxesse um diamante para o pai, onde ele podia então ver o Taj pelo reflexo. Oito anos depois, Shah Jahan faleceu. Hoje os seus restos mortais estão juntos com os da princesa no subsolo do Taj Mahal.


Inspirados talvez pela história de Shah Jahan e seu amor intenso com a princesa persa, indianos continuam casando-se — frequentemente jovens, nos seus 20 e poucos anos. Eu acabaria, numa destas noites, presenciando nas ruas uma das “procissões” que eles aqui realizam com o noivo — tipo como mostraram na novela Caminho das Índias. Confiram no vídeo o noivo desfilante e os dançarinos.

Quanto ao Taj Mahal à noite à luz da lua cheia, havia uma nuvem no meio do caminho. No meio do caminho havia uma nuvem — um estrato enorme e não me permitia ver o fóton sequer de luz da lua. Perdi o meu dinheiro (e, mais importante, a chance), mas c’est la vie. A vida segue — no caso desses indianos que encontrei na rua, a passos de dança.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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