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Rishikesh, Índia: A capital mundial do yoga

A minha viagem até os pés dos Himalayas, as maiores montanhas do mundo, foi longa e tortuosa. Eu jamais cheguei a ver as montanhas propriamente ditas — que chegam a mais de 8 mil metros, mais adiante, quando se chega perto das fronteiras da Índia com a China e o Nepal. Mas eu sentiria mesmo assim o aroma daquele ambiente de montanhas, onde o relevo começa a se elevar, o ar a ficar mais fresco, e até o Rio Ganges — aqui mais perto de sua nascente — é limpo. Assim é Rishikesh, considerada “a capital mundial do yoga”.

Este prólogo abaixo narra a minha memorável ida até lá. Após ele, relato a minha estadia na cidade. 


Prólogo: Chegando aos pés dos Himalayas

Já era fim de novembro aqui na Índia quando eu rumei para aquela que seria a minha última cidade a visitar: Rishikesh, apelidada “a capital mundial do yoga”, no extremo norte da Índia. O frio do inverno se aproximava, e — por surpreendente que possa parecer a quem sempre imagina a Índia como um lugar quente e úmido — Nova Délhi já registrava temperatura de 10ºC quando eu aqui regressei do meu périplo pelo sul do país. Já nem parecia a mesma cidade quente e chuvosa que eu havia encontrado quando cheguei em setembro.

Saí de Agra pela manhã, cheguei a Délhi para o almoço após uma breve viagem de trem, e entrevistei quem eu queria a trabalho no princípio da tarde. Como eu acontecia de estar próximo a uma das esculhambadíssimas estações rodoviárias de Délhi, ponderei se iria direto a Rishikesh ou se deixaria para a manhã seguinte e passava ainda uma noite na casa dos Bhalla — a treteira família indiana que havia me hospedado aqui em Délhi e onde eu ainda tinha muitos pertences.

A sanha foi tanta (ou talvez a antipatia por rever Seu Bhalla) que eu escolhi ir direto. Uma escolha que se revelaria insana e com consequências.

Na rodoviária, não estava claro quais guichês vendiam passagens para onde. O lugar parecia um grande estacionamento de vários andares, sem reboco, mal iluminado, e com cheio de cimento — aquele odor de obra não acabada, com restos de material de construção aqui e ali. Alguém me disse que os guichês apropriados só abririam às 17h, então aguardei algum tempo matando a fome num fast food próximo.

Kashmere Gate ISBT station, uma das estações rodoviárias de Nova Délhi.

Quando eu retornei, num pátio já havia ônibus vagabundos (latas velhas) com homens na porta gritando destinos. Haridwaaaaar! Rishikeeeeesh! É possível ir de trem à cidade de Haridwar e dali de ônibus a Rishikesh, mas há poucos horários, e eu não havia comprado nada antecipado. Então ônibus hoje seria a solução.

— “Rishikesh?”, perguntei eu confirmando ao aproximar-me de um ônibus no pátio da rodoviária.
— “Sim, sim“, respondeu o indiano de seus 35 anos e olho em buscar mais passageiros, já fazendo com a mão para que eu entrasse enquanto tomava fôlego para mais uma chamada.
— “Que horas você vai sair?“, perguntei-lhe, interrompendo sua respiração para o grito.
— “Agora.”, respondeu ele meio que já me despachando e fazendo espaço para que eu entrasse no ônibus com a minha mochila. Não havia bagageiro; o ônibus era como um ônibus urbano daqueles mais velhos que ainda circulam no Brasil, sem alcochoamento nos assentos. Minha mochila teria que ir debaixo do último assento no fim do corredor do ônibus, onde minhas pernas cabiam — e onde minha bunda sofreria horrores neste ônibus sem suspensão.

Depois de uns 40 minutos, tomamos a estrada. A previsão era de 7h de viagem a Haridwar e 9h a Rishikesh. Ou seja, chegaríamos 12:30 da noite à primeira e passados das 2h da manhã à segunda. Ok, eu já havia sobrevivido aos trens indianos.

Eu não sou tão leve, e mesmo assim eu descolava do assento quando o ônibus sacolejava nas maravilhosas estradas da Índia. Suspendia-me e eu aterrissava com força — até que tive que começar a me agarrar aos ferros quando havia perspectiva de subir. Mas esse seria o menor dos males: após algumas horas no que parecia ser uma super-duradoura viagem de ônibus por subúrbios onde pessoas pobres subiam e desciam, o ônibus foi ficando vazio e alguns rapazes bêbados que entraram inventaram de falar comigo — em hindi.

Gritavam. Um dos rapazes, completamente embriagado, chegou a dar um gritão — daqueles de bêbado — olhando pra mim. Os músculos já se retesavam, a me perguntar se teríamos que partir para o braço, mas ele sozinho capotou de lado num dos bancos duplos já vagos — e vomitou no chão. O seu vômito começava então a escorrer rumo à minha mochila. Surreal. Pesadélica viagem.

Tudo já estava há muitas horas escuro do lado de fora do ônibus. Eu consegui salvar minha mochila a tempo, e os rapazes bêbados não demorariam a descer. À meia-noite, só restávamos eu e mais poucas pessoas em todo o ônibus. Foi quando então o cobrador, o mesmo com quem eu havia conversado para entrar no ônibus algumas horas antes, me entregou algumas rúpias dizendo que tínhamos finalmente chegado a Haridwar.

— “E Rishikesh?“, perguntei eu sem saber “q q tava con teseno”
— “Não iremos. Só tem você querendo ir pra lá, então a gente vai parar a viagem por aqui. Amanhã de manhã tem ônibus aqui de Haridwar pra lá a partir das 5h da manhã“, me esclareceu ele com tranquilidade enquanto me devolvia o excedente de dinheiro que eu havia dado para a minha excedente viagem.

Não te creio. Fiquei estupefato, e estupefato desci. À meia-noite e meia, um tio de ciclo-riquixá prontamente me abordou à saída do ônibus: “Hotel, sir?“.

Pela primeira vez desde que havia chegado à Índia, eu disse “sim” a essas ofertas. Eu precisava de um hotel onde dormir, e o tio pedalando me levou a um bem chinfrim — e relativamente caro — no que parecia ser o centro aquietado de Haridwar à noite. Alguns homens, entre eles um de paletó e gravata que parecia ser o dono, conversavam ao redor do balcão com um olho no interlocutor e outro na televisão ligada. Quando me viram chegar, todos pararam. 

Todo o lugar fedia a tinta.

Sim, nós acabamos de renovar tudo“, disse-me confiante — com aquela confiança malandra típica dos indianos — o que parecia ser o gerente.

Mas se o senhor preferir, eu tenho outra propriedade aqui perto. Eu lhe faço pelo mesmo preço.“, disse ele. O preço em questão era de 15 euros, o dobro do que eu havia pago aqui na Índia por lugares melhores. Fui mesmo assim, pois o cheiro fresco de tinta estava insuportável.

No outro lugar, apresentaram-me o que seria o meu quarto, e eu já achava que aquela noite estava sendo longa demais. Cheguei até a encontrar barata morta na pia do banheiro, mas eu só queria dormir e a esta altura estava cansado de mudanças. 

Na manhã seguinte, circulei por Haridwar, onde alguns homens de gorro e moletom circulavam, às vezes conversando perto de algum fogo feito com o que estivesse disponível na beira da rua. Tomei café da manhã numa bodega que abria e, dali, peguei o ônibus que em uma hora me levaria — finalmente — a Rishikesh.


Rishikesh é uma agradável cidadezinha cercada entre colinas verdes e o Rio Ganges — aqui ainda limpo.
No sopé dos Himalaias, antes de estes estarem visíveis mas já com uma rugosidade no terreno, está Rishikesh. Estamos a pouco mais de 100Km das fronteiras com a China e o Nepal, no extremo norte da Índia. Aquela ponte liga um lado de Rishikesh ao outro.

Rishikesh se auto-denomina a capital mundial do yoga, e de fato deve ser mesmo. Por toda parte você vê anúncios de aulas de yoga (inclusive para já professores), tai chi, reiki, medicina alternativa… Pra quem gosta dessas coisas, Rishikesh é um prato cheio. Você fica doido querendo fazer tudo. O porém fica só por conta do comercialismo que existe por parte de uns. Não demora a você ver uns com jeito de pilantra em roupas de monge. Mas, sabendo escolher, você aproveita o lugar sem ser vítima das charlatanices.

Eu cheguei com a minha mochila evadindo chamados para hospedar-me, pois sabia que o negócio aqui era ficar em ashrams, ou centros religiosos mantidos por gurus ou praticantes de yoga. São acomodações simples, mas baratas e funcionais — e normalmente nos mesmos lugares que oferecem os cursos.

Parei num lugar para comer algo onde havia uma linda vista para o rio e para a cidade. (O banheiro, contudo, no andar de baixo, era tenebroso. O lugar era tão imundo que — perdoem-me o detalhe sórdido — eu tive que urinar da porta de entrada, ou a sujeira do banheiro era inenarrável.) Ao menos, a simpática funcionária aqui me recomendou um ashram do outro lado da ponte sobre o rio.

Na ponte pênsil logo após uma “padaria alemã” com o nome de “Buddha”, macacos brincavam — e que eles não me mordessem.

Do outro lado, localizei finalmente um ashram aceitável (onde eu pegaria uma gripe terrível).

A vista para o (limpo) Rio Ganges como ele passa aqui em Rishikesh, ainda muito antes de ele chegar a Varanasi, onde queimam os corpos.
Indianos na beira do rio, lavando a si ou aos seus pertences.
Uma vaca sagrada em meio às pessoas na margem.
A ponte que liga um lado da cidade a outro, por onde passavam mulheres e macacos.
“Buddha Café”, Padaria Alemã “Buddha”, tudo Buddha. Aqui a comercialização é bastante grande. “Buddha” talvez seja a segunda palavra mais comum aqui.
O centro de yoga onde me hospedei. Aqui em Rishikesh, você ouve e vê a palavra “yoga” mais que qualquer outra.

Eu aqui ficaria, neste lugar simples, sem wi-fi nem outros confortos eletrônicos, mas com uma bela vista para esse Ganges “jovem” todas as manhãs. 

Você talvez queira saber se, no fim das contas, eu fiz alguns desses cursos “alternativos”. Não porque não deu tempo — normalmente você precisa de pelo menos três dias para os mais curtos. Cursos de Tai Chi, por exemplo, podem levar semanas. E muita gente vem pra ficar em longo prazo em Rishikesh.

Apesar disso, eu não saí da cidade em branco: fui consultar um astrólogo védico, ou seja, da longa tradição hindu. Interessante. A maior parte dos planetas são os mesmos, mas há astros diferentes, que eles dizem ser invisíveis mas existir no plano energético. Afora isso, ele leu a minha mão. [Olhando em retrospecto, anos depois, ele acertaria traços importantes da minha personalidade, incluso coisas normalmente não mencionadas pelos signos ocidentais, mas errou nas previsões que fez com data específica — até agora.]

Na Índia, quase todo mundo leva a sério essas coisas de espiritualidade — ainda que às vezes sejam só “pra trazer sorte”. Eles aqui relacionam quase tudo com pedras, e indicam qual a melhor pra você durante esse período da sua vida, durante aquele, etc. É por isso que quase todo indiano, homem ou mulher, usa um ou mais anéis com pedra nos dedos.

O astrólogo chegou até a caminhar comigo até uma loja próxima onde vendiam pedras ao peso, com uma balança de precisão. Mas não, eu não comprei um anel. Afora ter achado caro (e geralmente não gostar desses conchavos comerciais da pretensa espiritualidade), achei que seria esquisito eu andar de anel no ocidente parecendo Don Corleone.

Fronte de um dos muitos prédios que mesclam arquitetura oriental e colonial ocidental aqui.
Centro de yoga com cores típicas da Ásia e torre em formato de pagode.
Macaco na ponte diante do pôr-do-sol, no céu esbranquiçado tão típico aqui na (poluída) Índia.

A cidade é agradável — eu arriscaria dizer até que uma séria concorrente a cidade mais agradável que eu visitei em toda a Índia —, mas é uma cidade bastante turística, repleta de lojas e cafés voltadas aos visitantes ocidentais, e isso não deixa de manchar um pouco a desejada espiritualidade do lugar.

Eu, que na minha inocência havia imaginado centros habitados por pessoas bondosas tipo a Monja Coen, fique estupefato ao ver que os tais gurus e professores de yoga eram às vezes sujeitos pretensiosos e antipáticos. Não quero generalizar, mas os funcionários do ashram onde fiquei só tinham a pinta de muito espiritualizados: quando entrou certa vez um mendigo, o pobre foi enxotado como um cachorro de rua. Tive uma certa desilusão com as pessoas, não vou negar. 

No segundo dia eu acabei pegando uma gripe chata, talvez pela poeira, talvez pela rápida passagem do sul tropical da Índia a este frio montanhoso dos seus 5ºC (sem calefação). Tomava, contudo, um iogurte delicioso toda manhã num local próximo, via as pessoas passarem, e me preparava para encerrar esta minha longa estadia no país.

Numa manhã, saltei na garupa de um moto de alguém que me levaria à parada do ônibus — e eu vi a hora de tombarmos todos conforme o meu mochilão, já pesado, inclinava para um lado e pra outro com a moto. A viagem de retorno a Délhi foi menos tenebrosa que a vinda, até por ser dessa vez durante o dia.

Sob a sombra escura da árvore, com a vista para o rio e Rishikesh lá atrás.
Certo dia, na padaria alemã na beira da ponte, um guru alemão (aquele barbudo) saboreava uma torta de maçã (que não era má, porque eu também havia pedido a mesma coisa) e respondia a colocações do homem indiano-americano da mesa vizinha que lhe perguntava coisa. Se me permitem uma opinião, eu achei que ficou um pouco naqueles lugares-comuns genéricos de livro de auto-ajuda, de desapegar-se dos estresses da vida, etc.
A cidade.

EPÍLOGO: Encerrando a minha viagem pela Índia

Retornei ao recanto dos Bhalla em Nova Délhi. Desta vez, Seu Bhalla estava sadio, e Dona Bhalla estava de volta na área. Mais prantha, mais chai, e preparar-se para partir. 

Depois de circular quase que pelo país inteiro, 3 meses depois, hora de voar de volta a Amsterdã. Lembranças não vão faltar — boas e ruins. Das agradáveis, ficam as delícias, os belos monumentos, algumas pessoas que conheci, os momentos de sucesso e distração.  Ah, e também as compras: eu cheguei com 15Kg na bagagem e estou arriscando passar do meu limite de 40Kg nessa partida. Até uma mala nova eu tive que comprar para fazer caber tudo.

Das experiências não-tão-agradáveis, os banheiros (aaaah, que falta faz um bom banheiro limpo e com vaso, papel higiênico e chuveiro), o fedor e a imundície das ruas, e a labuta constante de não ser passado pra trás aqui. A verdade é que a Índia é repleta de cultura e de lugares interessantes, mas é também uma viagem cansativa. Após 3 meses aqui, já deu. Ansiava por voltar à Holanda e sentir cheiros diferentes, gostos diferentes, e ouvir inglês sem sotaque indiano.

Fechei os negócios com Seu Bhalla e rumei — às 22h ao aeroporto ainda que meu voo fosse apenas às 5h da manhã seguinte. Dormi seis horas num daqueles quase-hotéis do Aeroporto Indira Gandhi em Délhi, e tomaria os céus antes de o sol raiar, deixando aquele magnífico e cansativo país pra trás.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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