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A Índia e as mulheres: Observações, alertas e dicas às turistas para viajar acompanhadas ou sozinhas

A Índia é uma gigante democracia que tem dos mais atuantes movimentos civis do mundo, mas ser mulher na Índia não deve ser fácil.

Já desde o início, se você for nascer de uma família pobre (num país onde há centenas de milhões de pobres), as chances não são baixas de ser abortada só por ser um feto do sexo feminino. Depois de nascer, as oportunidades de educação e emprego aqui são notoriamente menores se você for mulher. E durante toda a vida adulta, você encarará uma sociedade dominantemente masculina, com regras, normas e preferências moduladas para os homens, hierarquias que põem o homem acima, famílias altamente patriarcais, etc.

“Por anos tem sido SILÊNCIO = VIOLÊNCIA. Agora é VIOLÊNCIA = JUSTIÇA”, diz o cartaz da moça no emergente movimento por equidade de gêneros e fim das violências contra a mulher na Índia.

No entanto, não vamos fazer aqui uma análise das disparidades de gênero na Índia. O meu objetivo com este post é relatar as minhas observações como visitante estrangeiro, e levantar alguns alertas e dicas às turistas em potencial.


Observações: O que presenciei de gêneros na Índia

Homens e mulheres aqui na Índia parecem ser dois mundos separados, especialmente no norte do país. Hospedei-me com uma família indiana em Nova Délhi, e as mulheres da casa praticamente não falavam comigo. Na maioria das vezes, sequer retornavam o meu “bom dia”. À mesa, eu fazia as refeições apenas com os homens — a dona da casa, por sua vez, tratava com as visitantes femininas, saía com elas para fazer compras etc. Tudo sempre separado gênero com gênero.

Espaços separados. Em alguns metrôs, as mulheres precisam ter um vagão próprio impedido ao homens para poderem se ver livres de assédio.

Na Índia, um tanto como no mundo árabe, as mulheres estão quase sempre na cozinha e os homens na sala, conversando em separado. Tradicionalmente, a mulher só se serve depois que o homem acabou de comer. Passei por situações um tanto constrangedoras em que só depois que eu estava empanturrado é que eu ouvia a mulher dizer: “Então eu posso agora pegar pra mim?“. 

Numa festa de confraternização, eu certa vez fui acompanhar um casal idoso, pais de um amigo meu, e qual foi a minha surpresa ao perceber que logo seríamos separados entre uma roda de cadeiras dos homens e uma roda de cadeiras das mulheres. Saí com uns rapazes indianos e as suas respectivas namoradas em Nova Délhi, e deu no mesmo. Bastou descermos do carro, e já parecia haver uma separação de gêneros como que por magnetismo, com as moças ficando lá atrás, caminhando afastadas e conversando apenas entre si. Até as escolas — ainda hoje em dia, não é incomum ver colégios só de meninos e outros só de meninas na Índia.

Como visitante, sobretudo no norte da Índia, você verá que os espaços públicos são quase inteiramente dominados por homens.

No Rajastão, norte do país, uma coisa curiosa: passei por quatro hotéis e não vi sequer uma única funcionária. Camareiro, cozinheiro, balconista… TODOS homens. As mulheres certamente em casa. Chega até a ser curioso e inusual para nós da América Latina, ver tipo seis, sete rapazes na cozinha em meio aos pratos. Eu numa manhã perguntei, finalmente: “Por que é que só tem homem trabalhando nos hotéis?“. O rapaz deu uma risada amarela e desconversou.

Homens preparando naan (um delicioso pão achatado) no forno, numa confraternização escolar a que fui no Rajastão. As mulheres seguramente estão em casa com as crianças.

O mesmo vale para as lojas e o comércio. Tarefa tradicionalmente masculina. Você muito raramente vê uma atendente ou vendedora. O tratamento também é muito diferente: as mulheres sempre mais comedidas, um tanto como atendente de loja aí no Brasil. Muito diferentes dos homens vendedores, sempre espetaculosos, querem saber tudo sobre você etc. (sempre com segundas intenções, é claro, interessados no seu dinheiro).

O sul da Índia tem diferenças. Lá a coisa é mais light, você já encontra funcionárias nas lojas e hotéis, e elas conversam com você, embora a distância entre um gênero e o outro ainda exista.

Certa vez em Goa, eu fui a uma festa num passeio de barco e qual foi a minha surpresa ao ver que o mestre de cerimônias chamava moças e rapazes separadamente para dançar no palco. Quando ele, por fim, chamou “agora todo mundo“, só subiram homens. E isso não é sem razão.


Alertas às visitantes

A Índia merece ser visitada se for do seu interesse, mas requer atenção e cuidados diferentes daqueles que você precisaria ter num mochilão pela Europa ou mesmo pelo Sudeste Asiático ou na América Latina. Se por um lado não há nem de longe os riscos relacionados à criminalidade que encontramos no Brasil, por outro é preciso saber lidar com problemas de outra natureza.

Rapazes indianos querendo uma foto com a estrangeira em Cochim, Kerala, sul da Índia.

Se você for turista mulher na Índia, prepare-se para andar num ambiente com altos riscos de assédio. Esta é a principal preocupação.

Cansei de encontrar visitantes solo, viajando sozinhas pelo país, ou acompanhadas de outras mulheres, e foram raríssimas as vezes em que elas não tinham queixas a me relatar. Morando no Canadá, e depois na Holanda, eu já havia ouvido reclamações mil das minhas amigas europeias, norte-americanas e até japonesas sobre os rapazes indianos em festas etc. “Eles ficam se esfregando”, e coisas do tipo. Aqui na Índia, as estrangeiras viajando sozinhas estão sempre cheias de histórias pra contar.

Encontrei uma jovem holandesa, por exemplo, que me contou que já havia viajado por muitos lugares sozinha, inclusive na América Latina (onde os rapazes têm fama de “avançar”), mas que nunca tinha visto tanta tara quanto aqui na Índia. Me contou que outro dia estava no tuk-tuk e o motorista ficava, pra chamar a atenção dela e perguntar algo, dando tapinhas no joelho e nas pernas dela. De repente, tomou outro caminho, parou e perguntou: “Você quer fazer sexo?“. Ela ia já descendo do tuk-tuk, aí o cara reconsiderou “Não não não! Ok ok, desculpa“. Disse que na rua não paravam de mexer no cabelo dela, louro, e que até pegada no peito já levou.

Ouvi coisas parecidas de uma moça dos Estados Unidos (mulata, pra não pensarem que é só com loiras). Foi bulinada no trem por um cara que estava sentado do lado, com os braços cruzados, e com a mãozinha ali por debaixo do braço ia acariciando ela.

A impressão que eu tenho é que aqui a distância entre homens e mulheres deixa muitos caras meio bitolados e demais “na sede”. E, sem prática de interação, fica essa coisa quase canina. Somada a isso a imagem das ocidentais de mais liberais, pronto.

(“Ah, você está generalizando”, alguém poderia me dizer. Cada indivíduo é único, mas há algo chamado práticas sociais e que tendem a dominar os hábitos das pessoas de um lugar. Não estou falando de etnia, mas de cultura. E por mais que haja exceções, há os comportamentos mais comuns de encontrar e que, sim, caracterizam uma população.)


Dicas

Pode parecer estranho um homem dando dicas às visitantes femininas. Realmente, há coisas que só uma outra mulher poderá dizer em primeira-mão. Mas eu, por meu turno, convivi diariamente com homens indianos, conversando e lidando por meses com eles aqui na Índia (além de já ter morado com outros fora daqui), vendo e ouvindo coisas que eles escondem das mulheres. Então acredito que ambas as perspectivas lhes podem ser úteis.

Aqui vai a minha:

  • Se você se interessa pela cultura indiana, venha. Não deixe de conhecer a Índia por causa disso. Basta ter atenção e tomar os cuidados. (É como quando eu europeu quer ir visitar o Brasil; não acho que deva deixar de ir, mas precisa ter atenção com certas coisas que no seu país de origem não dão tanto problema.)

  • Seja consciente sobre a cultura onde você está entrando. Aqui não há flertes, nem sorrisos, nem afagos entre um gênero e outro, por causa da separação a que me referi acima. Eles já partem do estereótipo de que toda mulher ocidental é “fácil”, então cuidado pra não dar razão para eles crerem ainda mais nisso.

  • As roupas. As mulheres indianas normalmente cobrem os joelhos e os ombros, mas a barriguinha pode estar de fora. Não há regras especiais sobre como se vestir na Índia (ao contrário de lugares como o Irã, por exemplo, onde é obrigatório usar um véu). Não é preciso usar aquelas roupas indianas pra turista (todo mundo aqui chama aquilo de “roupa de turista”) se não quiser. Mas quanto mais pele exposta, mais olhares babões sobre você. Encontre o equilíbrio (pois faz calor) com que você estiver confortável.

  • A forma mais pragmática de ficar tranquila em relação a todos esses problemas é vir com uma companhia masculina (irmão, amigo, primo, quem for). Pode mentir na cara dura dizendo que é seu namorado, noivo ou marido (mas tenha em mente que o indiano olhará se você usa aliança.) Eles aqui são entrões, perguntam logo sobre a sua vida conjugal, e se você disser que é solteira, ele imediatamente começará a fantasiar com você. Os homens indianos, no entanto, o que têm de “saídos” com as mulheres, têm de covardes diante de outros homens.

  • Não acredite em amizade entre homem e mulher na Índia. Na Índia, amigos normalmente são pessoas do mesmo gênero. Já convivi por anos com homens indianos: eles em geral pensam em mulheres (especialmente as estrangeiras) basicamente como objetos de desejo. É como ocorria no Ocidente há um século atrás (e ocorre ainda hoje em alguns círculos). Frequentemente, há segundas intenções.

  • Cada um faz o que quer, mas eu, se fosse mulher, jamais ficaria hospedada em CouchSurfing na casa de homens indianos.

  • Não é raro que peçam para tirar fotos. Isso, depois de um tempo, pode se tornar cansativo. Uma fórmula fácil de que ouvi falar é dizer que você cobra por foto — eles ficarão meio hesitantes. Se for aceitar, eu optaria pelas fotos em grupo, antes que cada um queira uma foto individual com você (pra depois sair mostrando “Olha essa gostosa que eu conheci“). Sugiro rejeitar qualquer oferta de que lhe acompanhem. (Seja firme.)

  • Cuidado especialmente com motoristas de tuk-tuk ou de táxi querendo ficar amigos e ganhar liberdades. Aquilo não passa de um jogo movido pela esperança dele de lhe levar para a cama. Não vai demorar à mão boba começar a ir aonde não deve. Se você não quiser ter que lidar com um problema depois, corte o mal pela raiz e seja como as mulheres indianas eram comigo: curtas e secas, não davam ousadia nem abriam espaço. Em Roma, faça como as romanas.

  • Desloque-se de e para as estações preferencialmente durante o dia. E, se possível, arranje traslado com a sua acomodação. Isso evitará que você fique à mercê desses motoristas e outros em horários mais arriscados. Os homens indianos às vezes armam malandragens do tipo “Eu vou só passar ali no caminho“, ou “Tem um amigo meu que vem com a gente“. Sobretudo se você estiver sozinha no tuk-tuk, não aceite.

  • As mulheres e famílias indianas são suas amigas. Se precisar pedir informação na rua, melhor pedir a outra mulher (elas serão mais receptivas a você do que eram pra mim, por exemplo). Se precisar de assistência, veja uma das várias famílias indianas — no trem, num estabelecimento, onde for. Eles tenderão a ser muito solidários.

  • Se precisar, rode a baiana. Os indianos normalmente ficam constrangidíssimos se você trouxer a público que alguém está tentando algo indevido com você. Se você for constrangida de alguma forma, ameace — e, se preciso, bote a boca no trombone mesmo. (A depender da situação, é capaz de o cara ser linchado.) Se por um lado os homens indianos frequentemente são descarados, por outro há uma cultura social muito “família” onde certos comportamentos são condenados em público.

Esta é a minha modesta contribuição às viajantes em potencial à Índia, do ponto de vista de um homem que passou três meses circulando no país e já conviveu com uma pá de homens indianos. 

Tendo atenção para evitar dar margem a esses problemas de assédio, pode ser uma viagem fascinante — e com muito menos riscos de assalto que pela América Latina afora.

Se alguém ficou com alguma dúvida, ou quiser algum toque, é só pôr aí nos comentários.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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