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Vivendo na Indonésia: Sorrisos, arroz e terremotos

O povo indonésio é um povo sorridente. Risada fácil. Quase sempre amigáveis. Mais “dados” e mais abertos que os indianos, que eram quase sempre resguardados e ciosos de seus interesses (em grande parte das vezes, o teu dinheiro). Aqui na Indonésia eles dão risada por tudo. Mesmo as mulheres muçulmanas, que a gente tende a imaginar fechadas e conservadoras, aqui são bem risonhas e boas de papo. E falam com você sem problema. De vista, eu diria que metade usa o véu, a outra metade (espetaculosas!) deixam suas madeixas negras balançando ao vento.

Ainda não tenho tido muito tempo pra turismo, mas já entrei bem no dia-dia aqui da Indonésia.

Meu dia começa básico, às 6:20 tomando um banho de cuia e me arrumando pra ir tomar café ali na casa da mulher do Pantchasma. Eles moram aqui do lado, uma casinha simples com as galinhas ciscando perto do mamoeiro. Pra o café da manhã, esqueça o hábito ocidental de começar o dia com coisas leves, torradinha com bolo etc. — esqueça. Aqui café da manhã é um prato de comida. E prato de comida aqui, é claro, leva arroz, daquele grudadinho, branco, que você bota com a colher no prato e ele custa a desgrudar da colher.

No mais tem bastante coisa, normalmente uns outros oito pratos diferentes, alguns com legumes, outros com tofu ou tempeh, outros com galinha ou peixe, e quase todos apimentados. Bife é raro de ver, e carne de porco praticamente não tem, já que mais de 80% da população é muçulmana. Come à vontade. Pra beber, água ou chá preto. Menos de 3 reais ao todo, 12.000 rúpias indonésias. A moeda é outra mas o nome é praticamente o mesmo da da Índia (pelo menos em português; no original são rupees pra a moeda indiana e rupiahs pra a da Indonésia). Sendo assim, eu aqui na Indonésia virei milionário.

Hora de pegar o transporte. Bogor (a cidade onde estou) não tem ônibus, então tudo é na base das angkot, essas vans verdes aí das fotos.

A minha rua. (Se você acha que no Brasil há muitas motos, é porque ainda não veio aqui ao Sudeste Asiático.)
A avenida onde moro é boa, mas o panorama urbano mais habitual aqui é esse, assim.
As angkot vão por toda parte. No caminho para o trabalho, cruzávamos toda manhã esta feirinha.

Dentro da angkot não é como nas vans do Brasil. Aqui tem uma portinhola lateral, e dentro cabem umas 8 pessoas sentadas em “círculo”. Eu não sou muito alto, mas aqui eu preciso me encurvar todo pra entrar. Embora haja linhas numeradas que fazem percursos diferentes na cidade, não tem ponto, então basicamente você pede a parada onde quiser. Também dá pra entrar onde quiser. A portinhola vai aberta, pra garantir que você sinta aquele magavilhoso cheirume do mercado.

Esquema de assentos numa angkot. (Ah, às vezes o motorista acende um cigarro.)

Mas o mais divertido é quando entram músicos-pedintes. Só nesta semana tiveram três: uma dupla com tamborim e cavaquinho, um par de crianças com caixas de fósforo, e um fulano que — Deus benza — achava que era cantor e mais parecia que estava estrangulando o gato.  

Chegando ao escritório (estou com uma mesa num prédio do governo aqui, já que desta vez estou trabalhando junto com uma equipe daqui), hora de seguir com a labuta. Esta semana já entrevistei um bom bocado, incluindo a Dra Ai e o Prof. Bambang (adoro os nomes indonésios).

Títulos à parte, aqui todo mundo é ““. Pá é tipo “Seu” aí no Brasil, o pronome de tratamento, só que aqui é usado mais frequentemente. Então é Pá Fulano, Pá Beltrano…  (Outro dia ouvi uma estagiária se referindo a mim como Pá Mairon…).

O significado é Pai. Aqui você é tratado de acordo com a geração a que pertence. Não tenho conhecido muitos idosos, mas pelo que me informaram você “evolui” e passa a ser chamado de “Vô fulano”, etc. Mulheres solteiras são Bá, já as mulheres casadas são Bu (abreviação de… hahaha, vocês se lembram do post passado).

Eu divido a sala com Pá Harry (é, de vez em quando eles têm esses nomes ingleses), um tio tranquilão. O toque de celular dele, pra dizer que chegou mensagem, é uma voz feminina toda sexy (daquelas asiáticas, finas, parecendo de anime) dizendo “Hello baby“.

A vista do prédio onde trabalho.

Como faz calor, os indonésios começam a trabalhar cedo. Às 7:30 já estão todos no trabalho. Certa feita, alguém que eu queria entrevistar me falou que estaria disponível numa manhã, e eu quis agendar uma entrevista para as 11h. Jubi — minha tradutora e assistente local, que tem a sua sala em outro andar — disse que não, que o fizesse antes pois 11h já não era mais “de manhã”, era já horário de almoço. Na Indonésia, faça como os indonésios.

No almoço, arroz e eu voltamos a nos encontrar. Na maior parte das vezes eu como de um almoço simples que um rapaz vem entregar aos funcionários. Mas também tem a opção de um restaurante básico vizinho do prédio, onde dá pra pedir suco também. Tem boas frutas tropicais aqui. Outro dia, por exemplo, tomei suco de belimbing (carambola).

Almoço dos funcionários no instituto em que estou de visitante. Normalmente os acompanhamentos acabam antes do arroz, aí sobram aquelas duas ou três colheradas de puro arroz branco no final. Que magavilha. Mas o almoço é bonzinho. Esse outro aí na folha de bananeira é tofu (chamado aqui de tahu) feito com legumes, e acompanha os saquinhos com temperos e com pimenta.

Naquele dia, eu volto pra a minha sala no quarto andar, depois da pausa do almoço, e de repente começo a ficar tonto.”Oxente. Vish, será que tinha alguma coisa naquele suco de belimbing?“.

Pá Harry abre aquele sorriso sossegado e diz: Terremoto. A sensação é esquisita, parece que você tomou umas. Só que, neste caso, não é coisa da sua cabeça, é porque as coisas estão se mexendo mesmo. Foi um terremoto leve, e durou uns 15 segundos. Mas a sensação de ouvir o prédio velho rangendo é um tanto desconfortável. Vai pro currículo de viagem.

Bom, e enquanto não viajo, vou dando um jeito de me enturmar por aqui e fazer alguma coisa em Bogor. Depois conto do que andei fazendo no final de semana e mostro as fotos que tirar. Terminada a digestão do arroz que comi também na janta, hora de ir dormir. Um bom dia pra vocês aí no ocidente.

Depois da chuva religiosamente às duas da tarde, e que dura até as quatro, abre aquele sol poente no horizonte equatorial daqui.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Vivendo na Indonésia: Sorrisos, arroz e terremotos

  1. Interessante. Parece mesmo o SE asiático. Vietnam, Cambodja e cia. A pobreza ve-se que domina a região, E com chuva e calor, então, é de imaginar a situação calamitosa. E esse sistema de transporte que faz o miserê dos paises como estes ai do SE asiático e dos da latinoamerica completam o horror do quadro social.
    Adorei os nomes e as alcunhas hahha acho que seria chamada de Bu hahah. Gostei tambem do timbre dos cantores, do transporte e do ambiente com cigarro. Uma beleza.
    Uaaauu… que experiencia ai com o terremoto…avemaria.
    Para salvar a pátria nada como um belo por de sol, apos a borrasca.

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