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Taman Safari e outras saídas em Bogor, no interior da ilha de Java (Indonésia)

Enquanto não viajo para Sumatra, Bali e outros lugares mais exóticos da Indonésia, vou dando minhas voltas aqui em Bogor no tempo livre. Não há grandes templos ou ruínas históricas, como havia em abundância lá na Índia. Há templos em algumas regiões, já que antes de ser islâmica a Indonésia era em grande parte hindu, mas o turismo aqui na Indonésia me parece mais pra o lado de praia e de parques naturais. 


Em Bogor, a principal atração é um super jardim botânico, onde eu fui participar de um dia de comemoração ao Dia da Terra, fim de semana passado. Conheci um pessoal aqui que me convidou. Achei que ia me distrair e confirmei no maior entusiasmo, “Claro, vou estar lá!“, sem nem saber o que era. Aí depois recebo a mensagem: “Ótimo que você topou participar! Amanhã de manhã 7:30 no jardim botânico, faremos recolhimento do lixo“. Poutz. Ééé, tá pensando que trabalho ambiental é moleza?


Chegando lá havia uma centena de estudantes uniformizados, crianças e adolescentes, todos preparados pra o mutirão de cata de lixo. A meninada me viu, aí pronto, tem sempre o espalhafatoso que grita: “Ó O ESTRANGEIRO!!!” Aqui “estrangeiro” é a mesma palavra que eles usam pra “loiro”. Loiríssimo eu, né? É herança do passado, já que a Indonésia era colônia holandesa até 1945, então esses são os estrangeiros que eles mais conhecem.


O próximo passo é o jogo de tentar adivinhar de onde eu sou. Nunca acertam. Às vezes eu passo por indonésio, mas não é sempre que funciona. Normalmente, quando o fulano olha direito, percebe que eu não sou daqui.


— “Austrália!”

— “Holanda!” 

A meninada sempre chuta os países que conhecem mais. Aí começa a baixaria:


— “William!” (Tá certo, eu sou mesmo a cara do príncipe William)

— “Justin Bieber!” (…)


No final eu digo que sou do Brasil aí eles ficam com aquela cara de “Nossa, nunca tinha visto”. Pusemos a molecada pra catar o lixo.

O jardim botânico de Bogor, verdejante e cheio de vida tropical, mas talvez o lugar mais quente e úmido aonde eu já tenha ido.
A giganteza das árvores.
A garotada com a mão na massa num mutirão para retirar lixo do jardim botânico. Como estamos num país de maioria muçulmana, boa parte das moças (mas não todas) usam véu para cobrir os cabelos.

Jubi, a minha intérprete, moça muçulmana que depois eu descobriria ter 30 anos, estava sempre de véu e roupas longas que lhe cobriam os cotovelos e os joelhos. Para completar, meias transparentes — típicas na Ásia — que ela usava com sandália de dedo, e assim trafegava todos os dias na sua moto.

Eu me perguntava como ela suportava aqui no calor úmido da Indonésia. “A gente se acostuma“, me respondeu ela, tranquila, num dia em que lhe perguntei. Nunca vi o seu cabelo e, confesso, é uma das curiosidades não-satisfeitas que levo comigo na vida.

Certo dia, acertamos de sair no fim de semana para ela me mostrar algo mais da cidade. Eu até então só havia conhecido a feira livre e um shopping popular perto do trabalho (onde, era engraçado, à entrada havia um tio com detector de metais, como é comum em grandes espaços públicos por medo de terrorismo aqui na Ásia, mas que em mim ele passava desinteressadamente, como quem faz uma bênção rápida malfeita com algum ramo de erva.) Como eu disse no post anterior, todos os dias há trovoada com dilúvio —daquelas típicas chuvas equatoriais —, a rua fica um pânico molhado de lamaçais e trânsito todo fim de tarde, e eu às vezes me refugio um pouco olhando os coloridos têxteis indonésios esperando o pior do pós-chuva passar.

— “E aí, Jubi, iremos na sua moto?

— “Não…!“, disse ela como quem queria dizer “nem pensar”. Levaria um tempo até me explicar por que.

Comida de rico. Lojas de pães são algo sofisticado na Indonésia, como noutras partes da Ásia. (Pena que quase sempre seja aquele pão branco refinado sem gosto nenhum.)

No shopping, vi como se comporta a classe média da Indonésia. Aqui é engraçado, porque nesses “ambientes pra rico” quase tudo é sinalizado em inglês. É considerado chique. Além disso, eles eles acham sofisticado comer pão. Pobre come é arroz. Então há imensas lojas super populares onde você compra pão fatiado, roscas, donuts, e essa coisa toda que se acha em qualquer padaria ocidental. Aqui é o “Ó do borogodó”.


O cinema também me reservava algumas coisas interessantes. Super sofisticado, o pessoal todo fino, e os adolescentes de classe média rodando pra lá e pra cá, como no Brasil. Só que aqui, no fim de semana, eles vêm com um menu pra você — você já sentado lá na sala do filme. Pipoca é bobagem, aqui você pode pedir sanduíche, batata frita e até carne assada pra você enquanto assiste ao filme. E dizem que brasileiro é que é farofeiro.

Tínhamos ido Jubi e eu assistir a um filme coreano medielavesco, de artes marciais no tempo feudal, com legendas em indonésio. Entendi tudo. Na hora de começar o filme, depois das propagandas, de repente a tela trava. Aí no cantinho da tela sobe a janelinha do Avira, o antivirus grátis. Foi surreal.

Comida de pobre. O povão aqui come o que a rua oferece: tofu frito, banana frita, arroz frito, mingau salgado de arroz (bubur), e mais. As frituras são gostosas, o bubur nem tanto. Só não presta quando o vento bate errado e aquela fumaça preta de fritura e óleo queimado vem em direção a você…

Muito tempo depois, Jubi e eu iríamos também ao Taman Safari, talvez a mais famosa atração de Bogor. Por mais que eu tenha minhas reservas quanto a jardins zoológicos, por não gostar de ver animais (sobretudo os grandes) em cativeiro, os bem-feitos não deixam de ter sua função educativa e de criar sensibilização. Uma coisa é ter ouvido falar de orangutangos, ou os visto em fotos, e saber que eles estão ameaçados; outra coisa é conhecer orangutangos olhos-no-olhos e saber que eles estão ameaçados.

Aqui é uma orangutango filhote de 3 anos, de pais que foram mortos na selva. Aqui o problema não são os caçadores, mas os desmatadores. As selvas equatoriais da Indonésia, ambiente nativo dos orangutangos e de tantas outras espécies, dão lugar cada vez mais a plantações de eucalipto e palma de óleo (dendê) para vender papel e óleo comestível (à indústria alimentícia) no insaciável mercado global. A espécie é considerada “criticamente ameaçada”.
Elefantes, que também são nativos na Indonésia, em particular na ilha de Sumatra.
Ali, a quem nunca tinha visto um, é um dragão-de-komodo, os maiores lagartos do mundo. Komodo é uma ilha no leste da Indonésia, onde eles vivem. Chegam a medir mais de 2m, são carnívoros, e têm bactérias altamente infecciosas na sua saliva.
O Taman Safari é um lugar amplo. Você arranja um motorista, se não for com o próprio carro, e segue pelos caminhos. Já tinha visto chifres desses?
O rinoceronte da Sumatra é talvez a espécie mais ameaçada de todas aqui na Indonésia.

A Indonésia é assim, uma mistura vibrante de vida das diversas formas, tanto de natureza quanto de gente.

E, falando tanto em Sumatra, é para lá que eu irei agora por 10 dias a trabalho. Então mais histórias para partilhar com vocês.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Taman Safari e outras saídas em Bogor, no interior da ilha de Java (Indonésia)

  1. Prodigiosa, essa natureza. Na Amazonia as árvores são de grande porte tambem e sua copa escurece o sol, inclusive no Pará. Bela árvore e bela foto.
    Gosto dos Jardins Botânicos mas pouco também dos zoologicos, exceto quando cuidam bem dos animais e os protegem. Muitos deixam os animais à míngua e doentes. Neste caso merecem aplausos.
    Ótimo mutirão. assim aprendem a preservar limpo.
    Imagino o calor e a umidade. No Pará era terrível, Você acaba de tomar banho frio de caneco e não precisa se enxugar. Ja sai enxuto. Ótima experiencia.

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