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Rumo à Bielorrússia, a última ditadura da Europa

Eu acho que poucos brasileiros sequer sabem que esse país existe. A Bielorrússia é um dos países mais fechados do mundo. Foi “sorte” eu ter conseguido vir aqui, embora não tenha sido nada fácil.

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Localização da Bielorrússia e sua capital, Minsk.

Como mostra o mapa ali ao lado, entre a Polônia e a Rússia no leste europeu está a Bielorrússia — às vezes escrito “Belarus”, mas que os bielorrussos leem biéla-rus, e não “Belárus” como às vezes fazem erradamente os ocidentais. Bela [biéla] em russo e bielorrusso (línguas bem parecidas) significa “branco”, então o nome do país quer dizer Rus branca, um nome medieval de séculos antes de haver a Rússia moderna. Portanto, a ocasional tradução como “Rússia Branca” é incorreta e irrita os bielorrussos. Eles detestam serem confundidos com os russos.

Os russos é que gostam de suprimir as identidades vizinhas para justificar seu domínio sobre elas, e que assim questionam a identidade própria dos bielorrussos, ucranianos, e outros. Englobaram todos sob seu controle na finada União Soviética, mas desde 1991 que esses povos readquiriram soberania — embora quase sempre sob ditadores iguais ou piores que os soviéticos.

A Bielorrússia é considerada “a última ditadura da Europa”. (Obviamente, ela não é parte da Uniao Europeia.) É governada desde 1994 por Alexander Lukashenko, um bielorrusso ex-funcionário soviético e que basicamente congelou o país naqueles tempos. Aqui é como se a União Soviética nunca tivesse acabado: o país é comunista e autocrático; a economia é quase toda controlada pelo Estado, e até a KGB (o famoso serviço secreto soviético) aqui ainda funciona. Nas praças se veem estrelas vermelhas soviéticas, às vezes até com direito a foice e martelo, igual nos tempos de Lênin e Stálin.

Mas antes de seguir adiante, deixem-me contar as peripécias de como eu cheguei até aqui. 

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Praça decorada com estrelas vermelhas e outros símbolos soviéticos em Minsk.

Desde o começo deste ano estou me voluntariando com uma ONG europeia, numa campanha sobre justiça ambiental. Claro que, na prática, não é possível obter tais autorizações pra esse tipo de trabalho “subversivo” na Bielorrússia. Você, inclusive, só consegue o visto de turista tendo uma carta-convite de alguém ou de alguma agência de lá. Por sorte, nós tínhamos esse alguém.


Só que as trapalhadas começaram antes mesmo de eu chegar. Minha anfitriã foi uma amiga de uma amiga, que atende pelo apelido de big bitch (não estou brincando) e que faz o favor de ter esse nome no e-mail.

Imaginem a minha cara chegando à Embaixada da Bielorrússia com esse e-mail no formulário. Sorriso amarelo? Nem pensar. Não com esses soviéticos. Pelo que eu entendi e ouvi falar, nessas culturas da Rússia e países vizinhos você chegar já sorridente é sinal de falsidade. Se em alguns lugares um sorriso lhe abre as portas, aqui ele pode lhe bater a porta na cara. Os russos e bielorrussos são sérios com estranhos, e normalmente esperam o mesmo de você. (Na verdade, esse povo olha pra você com uma cara de desconfiado e de poucos amigos — às vezes como se estivessem p#tos com a sua cara só de você estar olhando).

No fim das contas, recebi o visto sem problemas e não houve comentários sobre a big bitch (que eu nunca viria a conhecer, diga-se de passagem).

Chegara a hora de voar. Agora eu lhes pergunto: sabem como desembarcar três vezes no mesmo dia, no mesmo aeroporto, sem nunca ter voado? Eu sei. Perdi o voo. Naquele dia de manhã, antes de sair de casa, um corvo preto havia pousado no meu varal e me encarado (é verdade), e eu ignorei o sinal.

Havia um conserto repentino na estação de trem de onde eu iria ao aeroporto. Tive que tomar um ônibus, bem mais lento, e acabei já chegando ao aeroporto com atraso. De quebra, eu havia sido informado de que precisaria ter um seguro de saúde de viagem obrigatoriamente, ou teria de comprá-lo (mais caro) na fronteira ao entrar no país. Bobagem — perdi tempo (e o voo) e nunca me pediram nada disso. O cara que imprimiu a minha apólice do seguro de viagem imprimiu com a data errada, demorou pra consertar, e tudo conspirou para que eu perdesse o voo.

De certa forma, foi um alívio. Minha rota era simples: voar aqui de Amsterdã à Bulgária, de lá fazer uma conexão aérea até Kiev, na Ucrânia, desembarcar, e então tomar um trem noturno de 12 horas até Minsk, na Bielorrússia. Moleza.

Agora, já não sabia qual seria a minha rota. Outro voo para a Bulgária só no dia seguinte, então a ideia original ia por água abaixo. A BulgariaAir não tinha sequer funcionários mais no aeroporto naquele dia. Procurei então um voo direto a Minsk, que seria mais simples, mas que me custaria a bagatela de 421 euros. Não, eu não estava disposto a pagar tudo isso.

Foi aí que me veio a ideia: E se eu for de trem? Por sorte, há uma estação de trem bem ali no aeroporto de Amsterdã, embora a ideia fosse meio maluca. O preço, porém, era bem mais amistoso.

33 horas de viagem no trem. Depois de zanzar pelo aeroporto de Amsterdã feito uma bola de ping-pong tentando descobrir outra forma de chegar a Minsk e, depois, tentando reaver a minha bagagem (o que me levou a “desembarcar” pelo portão na saída das bagagens 3 vezes no mesmo dia), eu segui para Amsterdam Centraal, a estação de trens principal da cidade holandesa.

Lá meu trem sairia à noite, e faria uma só conexão (já na Bielorrússia, na cidade fronteiriça de Brest) antes de eu chegar a Minsk. Dali ele seguiria caminho até Moscou.

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O trem com destino final Moscou, e que me levaria até a Bielorrússia. Na estação central de Amsterdã.

O trem não era tão esculhambado quanto os da Índia ou da Indonésia, mas parecia saído direto da Guerra Fria. Era razoavelmente confortável — para os padrões dos anos 70. O mal era só que fumar era permitido, como nos tempos de outrora. E, colega, russo fuma e bebe. Se você acha que bebe bastante ou que conhece alguém que é beberrão, seus padrões vão mudar na hora que você ver um russo bebendo. Os próprios condutores já tinham aquela cara de que estão permanentemente sob vodka, com aquele olho de peixe morto igual aos do Zeca Pagodinho.

E caso você não esteja habituado à cultura de trens do leste europeu, é habitual eles reterem o seu passaporte durante toda a viagem e te devolverem apenas antes de você passar por alguma imigração. Não se assuste. Tentei ainda conversar algo com os coroas condutores russos, mas era inútil. Eles não pareciam completamente sóbrios, e não falaram uma palavra sequer de inglês. 

Chamei uma amiga romena pra me fazer companhia na estação e testemunhar a minha miséria. “É verdade ou você tá me zoando?“, havia perguntado ela ao telefone quando eu disse que havia perdido o voo e que estava agora na estação central. O nome original do famoso filme “O Massacre da Serra Elétrica” é Texas Chainsaw Massacre; aqui ela apelidou a minha desventura de Soviet Chainsaw Massacre.

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Ok, drama à parte, a viagem de trem foi longa mas cênica, e nada do outro mundo — isto é, se você estiver habituado a fazer longas viagens sozinho(a). Da Holanda cruzaríamos toda a Alemanha e toda a Polônia, rumando sempre a leste até deixar as fronteiras da Uniao Europeia e adentrar a Bielorrússia.

Dividi compartimento com um produtor de filmes holandês que estava indo a Moscou, e éramos vizinhos de um inglês que planejava de Moscou tomar o trem transiberiano até Pequim. O curioso foi quando, numa certa altura da viagem, eu perguntei ao holandês se havia dado muito trabalho a ele tirar dois vistos, o da Bielorrússia e o da Rússia.

— “Eu só tirei o russo. Eu não vou descer do trem na Bielorrússia, vou só passar direto, então não precisou.“, respondeu o holandês com muita tranquilidade. (Oi?)

— “Eu acho que precisa sim, viu.“, comentei eu tentando incutir um pouco de cautela na cabeça dele.

— “Nah. O que é que eles vão fazer, me colocar pra fora do trem?“, perguntou em tom desafiador.

Às vezes eu me surpreendo com a ingenuidade das pessoas. Deu vontade de responder “exatamente, seu sem noção, você tem alguma dúvida de que a polícia de fronteira da Bielorrússia vai fazer exatamente isso?”. Mas fui mais cordato.

— “Eu, se eu fosse você, já iria prevendo desembarcar na Polônia…“, disse eu meio sorrindo, tendo dificuldade em conter a parte de mim que estava se divertindo querendo ver ele pagar o excesso de confiança. 

— “Eu não vou ficar me preocupando com isso, não.“, disse ele olhando pela janela com aquele ar de quem não queria falar mais no assunto.

Isso foi ainda à noite. No dia seguinte, eu acordaria para encontrá-lo já de pé falando ao celular. A seguir me disse que havia falado com o seu agente, e desembarcaria em Varsóvia, a capital polonesa, para de lá seguir de avião para Moscou. Tomou juízo.

O trem foi ficando vazio conforme permaneciam no trem apenas os que iriam adentrar a Bielorrússia. Conversei um pouco com o inglês, e pus-me a brincar com um garotinho russo (ou bielorrusso, não sei) todo faceiro que estava lá com sua família (a mãe era um charme só).

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Apesar de demorado e cansativo, o trem me levou até o país aonde eu queria chegar. Paramos na cidade fronteiriça de Brest [briést], onde o trem se deteria por duas horas para a troca de carro de trilho, pois a largura dos trilhos na antiga União Soviética é diferente dos outros, a propósito, não só porque as indústrias eram diferentes como também para dificultar eventuais invasões trazendo tropas e materiais por trem.

Passamos por Terespol, a última cidade da Polônia e provavelmente a placa fronteiriça mais desolada de toda a Uniao Europeia. E entraram no trem, primeiro, os policiais poloneses; segundo, os policiais bielorrussos, que não criaram absolutamente problema nenhuma — uma policial charmosa deu até um sorriso pra mim —; e terceiro, os vendedores bielorrussos de tudo que é coisa, com ar de ambulantes pobres vindos da zona rural a vender frutas, biritas caseiras, e todo o tipo de coisa. 

Eu finalmente chegava à Bielorrússia.

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A placa desolada em Terespol, a última cidade polonesa antes da fronteira com a Bielorrússia.
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Chegando quase 24h depois, no cair da tarde, à cidade fronteiriça de Brest, a primeira da Bielorrússia.
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A cordata estação de Brest. Perceba, no entanto, que tudo aqui se escreve no alfabeto cirílico, o mesmo usado pelo russo, e do qual eu não entendia patavinas.
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A sinalização era assim. E aí, por onde ir?

Eu não seguiria adiante no mesmo trem. Eu tinha uma conexão noutro trem para ir daqui até a capital Minsk — um trem que havia partido há 4 horas atrás. Qual o tamanho da minha tolice em achar que com uma viagem de trem de um dia seria possível pegar uma conexão que sairia 20 minutos após a previsão de chegada? É claro que o meu trem atrasou, e chegou aqui com 4h de atraso. Como eu faria agora pra conseguir outro trem? Seria melhor sair da estação pela cidade, dormir aqui e viajar a Minsk na manhã seguinte?

Todas essas perguntas me passavam pela cabeça. Agora me imaginem nessa estação aí catando informação e tentando saber onde é que se achava passagem pra Minsk — e sem dinheiro local. Aqui é o rublo bielorrusso, e graças a Deus deu pra sacar no caixa automático (nisso eles viraram capitalistas). Um bêbado se aproximou falando comigo em (bielo)russo, possivelmente pra oferecer câmbio, e eu me afastei.

Tentei buscar um guichê, enquanto esta tranquila estação ainda estava aberta, para ver como faria. Entrei numa fila, esperei a minha vez, e a mulher do outro lado insistia em falar comigo em (bielo)russo; viu o meu bilhete e apontou, com ar impaciente, para outra direção, sem especificar onde (ou talvez o estivesse fazendo em russo/bielorrusso, e eu é que não estava entendendo). Ficou p*ta porque eu não entendia o que ela dizia, e atrás de mim as outras pessoas da fila já me olhando sem paciência.

Fui para outra fila onde, ainda bem, consegui trocar o bilhete original por um para o próximo trem a Minsk — que me entregaria à cidade no meio da noite. O dinheiro se provou providencial, pois precisei pagar uma diferença no preço. Foram várias horas no trem de Brest a Minsk, totalizando 33h desde que eu deixei Amsterdã. O interior do trem era até confortável, e a funcionária foi gentil. Não falava nada de inglês, mas fiz uma regra de três pra ela no papel para saber o horário em que chegaria a Minsk — e poder avisar a Lena. “Brest — hora X; Minsk — ???”. 3:35h da madrugada.

Por sorte, Lena, uma amiga nossa de lá, foi flexível o suficiente para não ter tempo ruim e ir me buscar na estação de Minsk em plena madrugada, quando a encontrei sozinha fumando o seu cigarro na plataforma.

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Do alto da passarela na estação de trens em Brest.
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Minha dormida no trem, até confortável.
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Minsk, de madrugada.

Continua em Minsk, a capital da Bielorrússia.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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