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Aventurando-se de carro pelo interior da Bielorrússia

Depois de bordejarmos por Minsk, nós alugamos um carro para conhecer o interior da Bielorrússia. Não, não foi esse carro aí da foto. 

Alugamos um carro importado (que é o que mais há aqui, mas nada muito especial, do nível de um carro comum de passeio no Brasil), e foi com mais um careca de olho azul, como o que havia vindo me cobrar pelo apartamento em que nos instalamos. Este falava algo de inglês, e era uma pessoa sincera. “As chances são altas de ser parado pela polícia rodoviária“, disse ele nos tranquilizando. “E aqui eles quase sempre querem uma propina“, completou um colega nosso bielorrusso. Maravilha.

Fomos eu, Alina, e dois bielorrussos de organizações ambientais daqui pegar a estrada. Visitaríamos o acampamento de verão de uma delas, mas acabamos visitando até sítio onde se planeja construir usina nuclear — com protestos da população que não são atendidos pelo governo.

O interior da Bielorrússia é uma mistura de plantações e florestas. Há ainda mais verde que na maioria dos países europeus, me parece. 

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Com minha amiga Alina, e a plantação de canola.
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No campo, fazendo o estilo daquelas propagandas comunistas soviéticas que mostravam o camponês feliz cantando.
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Num sinal na beira da estrada glorificando pão. (Imagina o pepino em que a gente ia se meter se nos pegam aqui galhofando com esses símbolos do regime…)
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A vista da zona rural, ainda não muito longe de Minsk. Aqui ou ali, uma estrela.

Tivemos sorte e a polícia não nos parou. Depois de algumas horas, chegaríamos ao acampamento cercado por bosques e um lago — um lugar bastante agradável. 

Conversamos, trocamos experiências com o grupo, e ficamos para almoçar. 

No menu do dia: sopa de grama (não estou brincando), arroz cozido no leite, e peixe. Achei surreal tomar sopa de grama. Não tinha absolutamente gosto de nada, e eles jogavam um creme de leite por cima pra tapear — como, aliás, fazem todos os ex-soviéticos desta região do mundo, pondo creme de leite em tudo. Como “cavalo dado não se olham os dentes”, agradecemos a sopa e tomamos toda.

É uma receita antiga e que estava se perdendo“, proclamou animado um professor convidado que estava lá com o grupo, e quem havia feito a sopa. Gente boa.

Não é à toa que está se perdendo”, comentou comigo depois a minha amiga romena.

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O simpático cachorro do lugar, intrigado com um dos rapazes na água. Era uma onda.
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Jovens bielorrussos ali.

Ironicamente, nós sairíamos dali exatamente com o sopeiro professor, o autor da sopa de grama, que conhecia alguém que ele quis nos apresentar. Alguém com quem fomos conversar sobre a situação ambiental (periclitante) na Bielorrússia, e as tentativas do governo de impor a usina nuclear goela abaixo dos moradores desta região.

Essa usina nuclear é uma questão sensível não apenas pelas preocupações habituais, mas também porque a Bielorrússia não tem nenhuma experiência anterior com usinas nucleares — e ela fica a poucos quilômetros da fronteira com a Lituânia, que é parte da União Europeia. Por ora, há apenas o sítio onde será construída, e que visitamos. [Em 2013 a usina efetivamente começou a ser construída, com planos de ser completada em 2018.

Gostei não apenas pela conversa, como também pela oportunidade de visitar uma casa do interior da Bielorrússia. Fomos recebidos com uma xícara de chá preto numa sala simples, o menino a brincar e o cachorro da casa por ali.

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As pessoas aqui não são miseráveis, mas são humildes.
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A casa que visitamos, onde sentamo-nos com o dono para conversar tomando uma xícara de chá preto (é o cafezinho daqui; na Rússia e na Bielorrússia o chá preto é muito mais comum, é a coisa que todo muito tem em casa; café aqui é coisa mais chique.)

Findado este dia após retornarmos sem problemas a Minsk, ainda iríamos a outras bandas da Bielorrússia, desta vez com o restante do nosso grupo. Fomos à cidade de Mahylov, no interior, e a uma outra organização realizando atividades de sensibilização ambiental, desta vez com crianças. Mais um contato com a realidade simples e humana que está por debaixo das bandeiras políticas e da ditadura aqui.

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Mahylov, cidade no interior da Bielorrússia.
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Prédios simples.
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Oficina de arte com as crianças.
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No meio da meninada.

As crianças, é claro, estavam fascinadas com a visita de estrangeiros. Lugar bem legal, onde trabalham diferentes formas de expressão artística misturada com meio ambiente (música, pintura, etc.). Como dança também é arte, acabei sambando. Numa bela tarde de quarta-feira, lá estava Mairon dançando dança folclórica bielorrussa com a meninada de 13 anos. Suei, me atrapalhei nos passos, mas me diverti pra valer.

Na outra extremidade etária, o que se vê muito por aqui são “vovós”, idosas (quase sempre viúvas) ainda labutando, na rua ou na beiras da estrada vendendo coisas simples como frutas, geleias ou bordados para obter alguma renda. (Frequentemente, os maridos morrem de complicações relacionadas ao alcoolismo e elas vivem ainda coisa de 20 anos assim, me contaram por aqui.) Bate uma solidariedade, uma vontade de ir lá dar um abraço. 

O mínimo que eu pude fazer foi, na volta para casa, comprar umas frutas para o caminho — neste caso daqui, framboesas e mirtilhos, aqui a preço de banana (ou até menos).

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Com minhas frutas. E as vovós ali atrás.

Íamos embora com lembranças perenes da simplicidade deste país.

Ainda esta noite, nós estaríamos no trem para Kiev, Ucrânia.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Aventurando-se de carro pelo interior da Bielorrússia

  1. muito bom saber de vc Mairon Giovani, postei suas duas matérias, com cuidado de citar a fonte. Estou falando de Minsk, e suas matérias ajudou bastante. Saiba que vc tem uma amiga aqui no Brasil,bjs fique com Deus.

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