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Atenas, Grécia

É começo de outono aqui na Europa. Deixei 13 graus em Amsterdã, e 31 me aguardavam em Atenas. Era chegada finalmente a hora de conhecer a Grécia.

Do avião já se vê o mar azul da Grécia. E não é que é azul mesmo? E bota azul nisso. Chega dói. Não me perguntem o porquê; deve ser alguma mistura da química da água com, talvez, o fato de que o céu aqui quase sempre está sem nuvens. Também há poucas algas, e isso interfere. Do avião também se veem muitas montanhas. Que Suíça que nada, é a Grécia o país mais montanhoso da Europa. Embora elas não sejam tão altas quanto os Alpes, aqui há montanhas por quase toda parte, inclusive nas ilhas.


Cheguei em Atenas já de tarde, e minha amiga Krystallenia (o quê, achou que na Grécia o povo se chamava Suéllen e Ricardo?) foi me buscar no aeroporto. Óculos de sol e um copo plástico (daqueles do Bob’s, com a tampa arredondada) de café gelado tomado no canudo — a combinação mais comum entre os gregos depois do pão com azeite de oliva.

Fomos à casa da família dela nos arredores de Atenas, um apartamento espaçoso com varanda, ar circulando, e sol — tudo o que você não tem em Amsterdã (onde eu moro, para os não-familiarizados). No prédio, incrivelmente todos os moradores são da família. Quatro andares, dois apartamentos por andar, e em cada um deles uma tia, um tio ou um primo. (Eu inclusive conheci — como eles dizem em grego — um “tzio” de Krystallenia ex-marujo, pinguço, com cara e jeito de personagem da Escolinha do Professor Raimundo, que chegava lá todo dia conversando fiado). Conheci também o irmão, Apóstolos (sim, esse é o nome do cara), e o pai, Seu Stavros. (A mãe estava fora, visitando familiares numa outra cidade.) Famílias gregas em geral são assim bem unidas, e fazem aquela fuzarca toda quando tem festa, com primo do primo, parente distante e o escambal. Quanto mais gente melhor. Pra quem não assistiu ao filme Casamento Grego (2002), eu recomendo, para ter uma dimensão.

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A vista da nossa varanda. As casas em Atenas são de arquitetura muito despretensiosa, o que mais há são prédios de 3 a 5 andares, todos brancos, e nesse estilo simples aí que você está vendo. Do alto, você vê um horizonte todo igual, de pequenos prédios brancos.
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A enorme lata de azeite de oliva da casa de Krystallenia. Isso é do tamanho de uma lata de tinta daquelas de 18 litros. (Sim, os gregos têm o maior consumo per capita de azeite de oliva no mundo.)
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Comidinha caseira grega deliciosa. Um pedaço ali de queijo feta, e legumes deliciosamente recheados com arroz temperado no azeite. Babei.

No dia que eu cheguei em Atenas, havia acabado de ter um protesto nas ruas contra as medidas de austeridade por causa da crise do euro. Estava aquele clima legal de que pode ter greve e paralisação geral dos transportes a qualquer momento. Mas apesar de a CNN ter mostrado gente nervosa rasgando bandeira da União Europeia nas ruas, eu não tive problemas.


Em Atenas, na verdade, você se sente como no Brasil. Os gregos são muito parecidos conosco, exceto que os rapazes quase todos usam barba (o que me deixou mais com cara de grego ainda). À noite, os bares ficam cheios, com mesinha do lado de fora, e as ruas movimentadas. Se tivessem me dado uma paulada e eu de repente acordasse lá, eu ia achar que estava no Brasil.

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As ruas do centro de Atenas à noite, com muito movimento e muita gente jovem.
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Mesas dos bares à noite. Não se engane: não são turistas, mas em sua maioria os próprios gregos.

Mas esqueça aquela imagem dionisíaca de que grego adora vinho. A nossa imagem da Grécia no Brasil está severamente desatualizada, ficou parada lá no tempo de Sócrates. Houve toda a Idade Média e, depois, 400 anos de dominação turca aqui na Grécia, quando suas culturas se misturaram. Grego pode até tomar vinho, mas a paixão mesmo é raki, um destilado de uva forte como o diacho (mais de 40% de álcool, parecendo cachaça), e que os gregos viram como se fosse água de côco. Eles também adoram ouzo, um aperitivo de aparência leitosa e gosto de erva-doce. (Eu pessoalmente achei horrível, mas eles adoram.)

Vale notar que álcool aqui não é sinônimo de bebedeira. Como os turcos, os gregos veem essas bebidas primordialmente como acompanhantes de refeição. São algo consumido sobretudo no almoço, socialmente, naquelas refeições duradouras em que você passa horas à mesa.

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Com meus amigos gregos almoçando em Atenas. Sofia, Apóstolos, e Krystallenia. Não contei quantos litros de raki foram consumidos.
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Ambientes muito agradáveis no centro histórico.

Os gregos usam uma palavra muito importante nestes tempos de intolerância, e que eu não conhecia: xenofilia. Aprendi aqui. É o oposto da tão-falada xenofobia, como você é capaz de deduzir. É acolher os estranhos de maneira amistosa (como nós no Brasil também sabemos fazer).

Foi legar conhecer o conceito. Escutei-o de Seu Nikolai, um animado vendedor de camisas no centro. (Me deu tapa na cara e tudo, daqueles de avô italiano em filme de máfia.) Estes tempos de crescente imigração e refugiados vindo à Grécia certamente está extenuando o ideal, mas ele segue vivo.

A diferença principal com o Brasil é que aqui, de repente, você vira para o lado e vê coisas assim, ruínas de 2.000 anos atrás bem ali ao lado.

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Esse é o Hefaistion, talvez o melhor preservado monumento da Grécia Antiga em Atenas. É um antigo Templo de Hefestos, o deus do fogo e dos vulcões.

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Perambulamos por toda aquela área de ruínas, que está bem no centro de Atenas, e que circunda a Acrópole — onde ficava o Partenon de Atena, e ainda o centro da capital grega.

Alguns gregos antigos diziam que você só pode governar uma cidade cuja extensão você é capaz de ver toda do alto de sua colina principal. Como outros povos da Antiguidade, os gregos buscavam o ponto mais elevado para ser o centro. No mundo helênico, isso era chamado de Akropolis, acrópole.

É do ano 432 a.C. o prédio mais notável da acrópole de Atenas, o Partenon, antigo templo à deusa Atena, patrona da cidade. Ele ainda está de pé e segue desde 1975 sendo reformado. Foi transformado em igreja da Virgem Maria depois que o mundo grego se converteu ao cristianismo, depois em mesquita (por volta de 1460) quando os turcos otomanos conquistaram esta região, e por fim em armazém de munições durante a guerra entre otomanos e venezianos no século XVIII.

Uma bala de canhão de Veneza acabou causando a destruição de parte da estrutura, e muito do que havia nos tempos áureo da Antiguidade não existem mais — como duas imagens da deusa Atena, uma em bronze de 10m de altura no exterior e outra, menor, em marfim e ouro que ficava no interior do templo, ambas levadas pelos gregos para Constantinopla e desaparecidas. Ainda assim, é uma visita épica.

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O Partenon lá no alto, ao longe sobre a acrópole.
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Entre as oliveiras no chão árido da Grécia.

Há muitas entradas para o Partenon, alguns caminhos mais curtos que outros. O que eu recomendo — que me foi recomendado pelos gregos — é visitar o Museu da Acrópole antes de subir à dita cuja. O museu contém várias relíquias e informações que podem ajudar a compreender melhor o que você vai ver lá em cima.

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Com o Teatro de Dionísio ao fundo, na Acrópole.
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O Partenon, lá no alto. (Usei a árvore para esconder os guindastes trabalhando na reconstrução, e que você inevitavelmente verá.)
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Vista de dentro por suas colunas.
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Vista de Atenas lá de cima.

E assim circulamos — vimos Syntagma, a praça principal onde há o prédio do parlamento (e os principais protestos) com troca cerimonial de guardas, à semelhança do que se vê em outras cidades da Europa, e ficamos de papo ali à no centro, ouvindo músicos tocarem buzuki (instrumento grego de cordas, tipo um bandolim) e agradecerem as palmas do público nos bares com epharistô bolí (muito obrigado), e vendo ruínas à luz da lua.    

No dia seguinte, iríamos a Delfos, as ruínas do antigo oráculo.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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