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Em Aráhova, pelas estradas e vilarejos de montanha na Grécia

Qual a probabilidade de você estar no interior da Grécia, procurando o Oráculo de Delfos, e se deparar com adesivo de campanha eleitoral brasileira numa mercearia e alguém de Piripiri, do interior do Piauí?


Pois bem. Era uma bela manhã de sábado quando íamos eu e minha amiga grega Krystallenia de carro pela estrada, adentrando a Grécia. Café gelado no copo plástico dela (daqueles de milkshake do Bob’s), como manda a religião, e eu só apreciando a paisagem: terra seca e montanhosa, com plantações de oliveiras aqui e ali. O destino: as ruínas do antigo Oráculo de Delfos, que fez profecias a muitos na Antiguidade, de Nero a Sócrates, à beira do Monte Parnaso.

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Estrada para Delfos (ou Delfí, como dizem os gregos). A paisagem é quase toda árida e pedregosa.

São algumas horas de Atenas, que fica no litoral. A paisagem vai ficando cada vez mais montanhosa.

À beira da pista, várias igrejinhas em miniatura estilo caixa do correio, que os gregos colocam em memória a algum amigo ou familiar que tenha morrido ali naquele ponto da estrada (meio lúgubre, depois que você entende).

Paramos pra almoçar em Aráhova, uma cidade bem bonitinha em meio às montanhas. Foi lá que eu encontrei o inesperado.

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Vilazinha de Aráhova, em meio às montanhas da Grécia.
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Ruas sossegadas e com belas vistas para as montanhas.
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Enormes escadarias, como costuma ser quase sempre o caso na Grécia.
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Tranquilidade nas ruas.
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A vista de onde nós paramos para almoçar, no segundo andar de um restaurante ali.

Almoçar foi o propósito principal da nossa parada aqui. Comi um prato de hilópita (como os gregos aqui chamam macarrão-parafuso) com flor de abobrinha. A flor de abobrinha eles usam para embrulhar legumes, arroz, e às vezes carne moída; a flor não tem muito gosto, mas ajuda a fazer os embrulhinhos e toma o sabor do azeite. 


Foi passeando após do almoço para fazer a digestão que eu me deparei, de repente, com adesivos eleitorais de Lula, estrela do PT e essa coisa toda no vidro de uma mercearia. Pensei até que fosse a flor de abobrinha me dando barato.

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Em Aráhova, no interior da Grécia.

Entrei. Lá dentro, um tzio grego, desses já de cabelo branco com a camisa de botão aberta até a metade do peito, sentado com aquela cara de cansado da vida. Vejo mais coisa brasileira atrás do balcão, foto de Pelé e tal. Aponto pra mim mesmo e digo: “Brasil“, já que eu não falava grego e nem ele, provavelmente, inglês. Ele acorda logo, fala qualquer coisa em grego, pega o telefone, fala com alguém do outro lado da linha, e diz algo a Krystallenia.


— “Ele tá dizendo pra a gente subir pra ir tomar um café lá em cima.“, me reporta a minha amiga.

— “? Opa!


Como não dispenso uma oportunidade cultural de contato mais próximo nas viagens, já fui subindo. Conheci então a esposa do tzio lá de baixo, uma senhora brasileira de Piripiri, interior do Piauí.

— “A senhora é brasileira ou é grega e morou no Brasil um tempo?.“, perguntei eu já lá em cima, em casa.

— “O que é que você acha?“, me devolveu ela a pergunta, faceira. 

É claro que era brasileira. Morava já há 20 anos na Grécia, me disse, e tinha duas filhas greco-brasileiras. Conheci Ephistasía (vulgo “Êphi”), a mais nova, que falava melhor o português, e sentamos todos para papear com café passado no pano e leite Ninho. 

— “O café coado no pano é outra coisa“, declarou a senhora. “Eles aqui só tomam aquele café com o pó dentro. Não tem quem aguente.

A tia, na verdade, desceu o cacete nos gregos, embora o marido fosse grego (ele ficou lá embaixo na mercearia e não estava ouvindo, nem me pareceu que ele soubesse português). “Tudo preguiçoso. Você vai numa repartição e, meio-dia, o fulano fica olhando pra o relógio pra ver se ainda te atende. Daí só reabre 3h da tarde porque tem a siesta. E ficam reclamando. Lá no Brasil quando a coisa aperta a gente pelo menos se vira, dá um jeito; aqui eles ficam naquele marasmo.” As opiniões divergem, mas é uma visão comum da Grécia (e dos demais países mediterrâneos) também nos países do norte da Europa.


Perguntei da semelhança entre os gregos e brasileiros, do calor humano e tal. “É verdade, mas os homens aqui só pensam em dinheiro. Lá a gente se diverte com o que tem, vai prum forró, arrasta-pé… Aqui fica tudo preocupado com dinheiro, com o fim do mês, em ganhar mais.” Claro que não dá pra levar a opinião da tia como veredito final, mas serve como ponto de vista.

Passamos uma ótima hora ali, conversando e trocando impressões. Rumaríamos a Delfos cheios de muita energia positiva.

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Tomando café com os nossos calorosos anfitriões gregos e brasileiros em Aráhova.

 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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