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Visitando as ruínas do Oráculo de Delfos na Grécia

Saímos no começo de tarde de Aráhova para ir, finalmente, a Delfos. Hoje, são ruínas nas montanhas do que foi o magnífico oráculo — famoso por todo o mundo grego antigo, e cuja lista de consulentes inclui nomes modestos como os de Sócrates, Nero, Cícero, e Alexandre o Grande. Hoje parece ser um lugar ainda mais isolado que era antes, onde praticamente só se chega de carro.

Durante aproximadamente 1000 anos (ca. 700 a.C. – 389 d.C.) houve aqui um templo do deus Apolo, com uma chama que nunca se deixava apagar. A pítia, uma sacerdotisa na função de oráculo, falava sobre a vida e o futuro dos que aqui vinham de todo o mundo greco-romano.

Havia todo o preparo de iniciação para essas sacerdotisas. Falecendo uma pítia, selecionava-se outra dentre as aspirantes, exigindo-se delas que tivessem “vida sóbria” e “bom caráter”.

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Quadro Sacerdotisa de Delphi (1894), do pintor inglês John Collier,

O quadro ao lado dá uma ideia da sacerdotisa, embora os vapores saindo do chão sejam algo disputado entre os estudiosos. Alguns sugerem indícios de que podia haver gases subterrâneos induzindo um transe. Outros contestam, dizendo que não há evidências arqueológicas disso no chão, e citando fontes bibliográficas da Antiguidade que sugerem que não havia transe algum, e que a sacerdotisa falava lúcida.

As primeiras menções ao Oráculo são do século VIII antes de Cristo. Entre as muitas previsões, vão aqui algumas bem notáveis.


Em 440 a.C., Sócrates tinha seus 30 anos e foi lá. Ele não tinha nenhuma fama de filósofo ainda. Em Delfos é que ele aprendeu a máxima “Conhece-te a ti mesmo“, que ficava escrita na entrada do templo (junto com “Nada em excesso“). A pítia disse a Sócrates que no mundo não havia ninguém mais sábio que ele, ao que ele teria respondido dizendo que “então todos são ignorantes“, e que a única diferença é que ele pelo menos estava ciente da própria ignorância.


Já no século seguinte, Filipe II da Macedônia, o pai de Alexandre o Grande, também iria visitar o Oráculo. Ouviu que aquele que montasse o seu corcel negro (um enorme cavalo negro que Filipe II tinha e que ninguém, nem ele mesmo, montava) conquistaria o mundo. Não deu outra: só Alexandre conseguiu montar o enorme cavalo, que recebeu o nome de Bucéfalo (Bous + cephalos = “cabeça de boi”, pelo tamanho), e que ele levou consigo por sua campanha na Ásia. Bucéfalo é um dos animais mais bem documentados da Antiguidade, e há até uma tumba onde ele teria sido enterrado, no atual Paquistão.


Há uma engraçada de Nero, que, já imperador de Roma, foi ao Oráculo no ano 67 d.C. e foi expulso de lá pela pítia. “Tua presença aqui ultraja o deus que viestes procurar. Vai embora, matricida! O número 73 marcará a hora da tua queda!“. Nero, de fato, havia matado a mãe alguns anos antes. Sentindo-se ofendido, mandou queimar a sacertodisa viva. Achou que ia reinar muito, até os 73 anos de idade, mas interpretou errado: morreu no ano seguinte assassinado por Galba, que tinha 73 anos, e que tomou-lhe o trono.

O nome “Pitágoras”, por exemplo, vem de Pítia + Ágoras (“fala”), pois diz-se que a sacerdotisa anunciou à mãe dele que o seu filho seria um homem de grande sabedoria e benefício à humanidade.

A Cícero, credita-se que ela tenha dito “Faça da sua própria natureza, e não dos conselhos dos outros, a guia da sua vida“, muito antes de ele se tornar conhecido pela sua oratória.

E o oráculo perdurou até o ano 389 d.C., quando Teodósio ordenou o fechamento de todos os templos não-cristãos no império. (Para quem lê inglês, há um artigo da Wikipedia chamado “List of Oracular Statements“, com uma lista comprida de profecias e colocações da oráculo.) 

Tudo começava com a vinda a esta montanhosa região à sombra do Monte Parnaso, onde segundo a mitologia viviam o deus Apolo e as musas. Restaram apenas ruínas do antigo templo do oráculo, mas a vista continua exuberante e ainda é possível sentir a região. Talvez dos melhores lugares do mundo para refletir ou meditar. Afinal, a palavra “profeta”, que vem do grego, significa exatamente isso: “alguém que fala por outro.” Hoje se diria que a oráculo era uma médium. Quem sabe esses “outros” por quem ela falava ainda continuam por aqui.

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A vista lá do alto. O lugar ainda hoje continua bem isolado.
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Colunas remanescentes do que era o antigo Templo de Apolo, onde ficava o oráculo.
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Com outro dos vários prédios que havia no recinto, este o melhor preservado.
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Você há de imaginar as antigas apresentações nesse anfiteatro com um pano de fundo como esse. Eis Delfos.

Eu rumaria, a seguir, à Ilha de Creta.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Visitando as ruínas do Oráculo de Delfos na Grécia

  1. Eu acho q as fumaças do quadro da sacerdotisa são a interpretação do autor…Eu não conheço mas este quadro deve ser do renascimento…Correto? Ou de qualquer outra época distante da Grécia antiga…Suponho….

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