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A Ilha de Creta (Parte 1): Chegando a Chania com o ferry noturno de Piraeus

Chegada era a hora de zarpar pelas famosas ilhas gregas. Passadas Atenas, o interior montanhoso da Grécia, e as ruínas do Oráculo de Delfos, a minha próxima parada era a Ilha de Creta. Talvez a mais famosa de todas as ilhas gregas — e de longe a maior delas. Fica lá bem no sul da Grécia, e é a terra mais ao sul em toda a Europa (mapa abaixo).

De Atenas a Creta é uma noite no navio. Acreditem: primeira vez que eu viajo de navio. Já estava na hora mesmo de incluir esse meio de transporte no meu currículo. Fui ao porto de Piraeus, que serve Atenas, com o pai de Krystallenia (Seu Stavros), que me deu uma carona.

No navio eu tinha de tudo: bar, boate, cassino, lounge, restaurante… tudo, exceto lugar de dormir. Tive a opção de pagar o dobro da passagem e ter direito a cabine coletiva, mas eu não quis. Depois de dormir em trem indiano e em chão de trem na Indonésia, tudo se torna relativo. De repente qualquer lugar minimamente limpo e seco serve, até o convés, ou debaixo da escada.


Só que debaixo da escada já estava lotado. É lugar nobre, pois dá pra se esconder das luzes, que nunca se apagam. (Nunca imaginou que um cruzeiro pelas ilhas gregas fosse ser essa baixaria assim, hein?). Experimentei o convés, mas o vento forte do mar atrapalha, então acabei achando um canto na lounge room abaixo, onde me deitei junto com muitos outros que estavam na classe econômica como eu.

[Caso alguém esteja se perguntando como comprar a passagem, qualquer uma das milhares de agências de viagens em Atenas as vendem pra você. Pra esses ferries enormes não costuma ser necessário comprar com antecedência — no dia anterior costuma bastar. No verão há mais gente, mas também mais serviços. Nunca precisei comprar online, onde o sistemas me parecem confusos. Ou seja, não se estresse com isso.]

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Noite de lua cheia no Porto de Piraeus, vista do alto do navio. (É possível chegar aí de metrô. O fim de linha é na cara do porto.)
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Meu titanic.
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A lounge onde acabei tirando uma soneca. É engraçado, porque você acharia que as pessoas ficariam aí se socializando, etc. Que nada, todo mundo se arranja logo pra dormir e arruma as bagagens em volta.
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Esse veio preparado.
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A localização da Ilha de Creta, bem lá no sul. (Veja pelo mapinha menor no canto que ela é a terra mais ao sul em toda a Europa.)

Não havia amanhecido ainda quando eu cheguei ao porto de Chania (pronuncia-se Rânia), na parte oeste da ilha de Creta. Tudo ainda escuro, peguei um ônibus do porto para o centro da cidade, como já tinham me avisado que eu deveria fazer.

Chegando lá as lojas ainda estavam ensaiando abrir; os primeiros funcionários colocando as cadeiras no lugar, e aquela brisinha matinal de um dia que prometia ser quente (percebam pelo mapa que eu estou quase na Líbia, no norte da África). Eram coisa de 7 da manhã, e me informei sobre como caminhar dali do centro até o velho porto, que é a cidade antiga e turística. Era hora de mexer as pernas, comer alguma coisa, e tirar umas fotos. Como a comida teria que esperar até os restaurantes da cidade antiga abrirem, resolvi andar pra conhecer o lugar.


Chania foi por mais de 450 anos um entreposto comercial de Veneza, controlado pela cidade italiana entre 1212 e 1669. Creta, na verdade, tem uma história meio à parte do restante da Grécia, e os cretenses (e não cretinos) são muito orgulhosos dessa identidade própria, traduzida em comidas, festas, e até sobrenomes diferentes — sempre terminados em –aki (Apanomeritaki, Papadogianaki, etc. Sim, os gregos costumam ter sobrenomes bem grandes. Em compensação é só um.). Enquanto que a Grécia ficou independente do Império Turco Otomano em 1822, Creta só se libertou 77 anos depois, em 1898, e por dez anos chegou a ser um país totalmente independente, até se anexar à Grécia em 1908. (O Chipre, ilha com população maioritariamente grega, segue independente até hoje.)

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Manhã na enseada do velho porto de Chania, com a lua cheia ainda visível.

Pelas ruelas da parte antiga se veem aqueles sobrados de outras eras, e só passam pedestres. Os restaurantes começavam a colocar as mesas do lado de fora. Finalmente achei um onde tomar um belo  café da manhã com coisas cretenses.

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Idosa nas ruas de Chania de manhã cedo.
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Os primeiros raios de sol do dia, nas ruelas antigas de Chania.
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Escadinhas formosas.
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Onde parei para tomar o café da manhã.
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Et voilà! A merecida mesa depois de uma noite no chão do bar do navio. Suco de laranja natural, maçã, omelete, café grego (que não é a mesma coisa do nosso, e que eu vou explicar depois), e um delicioso dakos. Dakos é um pão endurecido à consistência de torrada, mas regado no azeite de oliva, com tomates frescos macerados em cima, queijo feta, ervas e azeitona preta. Hmm!

Esse dakos, aí acima, pode ser encontrado em outras partes da Grécia, mas é típico de Creta. Como viria depois a dizer uma amiga minha aqui: “Tem na casa de todo cretense que se respeita.”

De barriga cheia, e com um cafezinho que sempre alegra o cidadão, fui ver as lojas que começavam a abrir. Sempre gosto de ver os cartões postais, pois eles indicam o que é que eu não devo deixar de ver no lugar (embora aqui em Chania fosse basicamente só o porto mesmo). De todo modo eu tinha ainda uma hora antes de pegar o próximo ônibus pra Rethymno, uma outra cidade próxima, onde a família de uma outra amiga estava me esperando.


Entrei rapidamente numa loja só pra pegar um postal mesmo, e pra ver uns souvenirs. Mas é nisso que vem um senhor idoso (que de certa forma me lembrava o Barbárvore, de O Senhor dos Anéis) me atender. O jeito de falar parecia o de um personagem daqueles de filme de fantasia infantil, tipo o velhinho que dá conselho ao personagem principal (só que o conselho desse daqui eu não recomendo seguir, não).


— “De onde você é?“, me perguntou o velho.

— “Brasil.”

— “Aaah! Pelé!“, animou-se.

*Sorriso amarelo*. Eu, já acostumado com os clichês, já sei soltar a lista dos ícones brasileiros conhecidos.

— “Kaká, Robinho, Ronaldo…“, disse eu sorrindo.

Mas o vô estava determinado.

— “Pelé!”

*Sorriso amarelo*

— “Espere aí que eu já volto.“, disse ele.


E nisso vai o velhinho lá atrás numa das salas dentro da loja. Eu tô pensando que ele me virá com algum souvenir de graça, mas que nada. Vem ele com um copinho de vidro daqueles de pinga, com uma água marrom dentro, animado.


— “Tome! É ótimo para a saúde! Raki com mel.”


Poutz. (Pra quem não viu o post em Atenas, raki é a cachaça de uva dos gregos). Isso não eram nem nove horas da manhã. Mas o velhinho estava tão animado que eu não pude recusar. Horrível (se bem que o mel pelo menos quebra o pouco o álcool a 40 graus do raki).

Fui-me embora antes que o velhinho quisesse me embebedar e eu errasse o ônibus. Dali, mais algumas fotos, e bati perna pra a rodoviária, já suando com o calor cretense parecido com o da Bahia. Seria apenas 1h de ônibus até Rethymno.

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O amanhecer na costa da Ilha de Creta, com a lua cheia ainda visível.
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Idoso pescando em Chania de manhã.
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E o nascer do sol no porto antigo de Chania para mais um dia.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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