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A Caverna do Apocalipse na Ilha de Patmos

“Eu, João, vosso irmão e companheiro nas tribulações, na realeza e na paciência em união com Jesus, estava na ilha de Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Num domingo, fui arrebatado em êxtase, e ouvi, por trás de mim, voz forte como de trombeta” (Apocalipse, 1: 9-10)

Não era domingo, mas já eram 22h quando eu me encontrei no ferry saído de Syros. Era daqueles grandes, que levam carros, e novamente eu não tinha lugar de dormir. Circulei pelos corredores, havia restaurantes e tal, vesti o casaco e me deitei num pranchado de madeira no interior do ferry usando a mochila como travesseiro. Não seria uma noite longa — às 3:15 da manhã o ferry estava marcado para chegar a Patmos, a histórica e bíblica ilha onde João, já velho, escreveu o afamado Livro do Apocalipse (que em grego quer dizer “revelação”).

Às 3:15 estávamos lá atracando. Não consegui dormir mais que duas ou três horas. Tudo iluminado, e com movimento, fica difícil. Sem falar no subconsciente sabendo que daqui a pouco você tem que acordar — ou, se não acordar, acabar indo parar em alguma outra ilha para onde o ferry segue viagem. Por sorte, um filho dos donos da pousada onde fiz reserva estava chegando nesse mesmo ferry, e ganhei carona. Às 3:45 já estávamos na pousada, e eu acomodado. A ilha é bem pequena, basicamente um porto, montanhas e algumas matas ao redor, além do Mosteiro de São João e uma vila ao redor, no alto.

Mas quem disse que consegui dormir? Às 4:45 eu ainda estava rolando na cama. Rolling in the deep, como diz Adele. Tentei de tudo: banho, etc. Nada. Foi aí que mudei de ideia. Resolvi tomar um café (havia uma chaleira no quarto) e sair para a caverna no escuro mesmo.

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Caminho de pedras na Ilha de Patmos, do porto ao Mosteiro de São João, numa das colinas, passando pela Caverna do Apocalipse.

Ainda estava tudo escuro quando deixei a pousada. Refiz o caminho até o porto, e de lá me orientei na direção do mosteiro. Eu sabia que ele ficava a poucos quilômetros dali, e sabia mais ou menos a direção geral. No mais, havia sinalização para quem soubesse procurar (às vezes era um spray pichado num poste, deixado por outro turista).

A caverna em si fica a 1,5km do porto, mas subindo. É na metade do caminho para o mosteiro. Já há muito tempo (desde o ano 1088) existe uma Capela de Sant’Anna construída à entrada da caverna, e hoje há também um colégio nas proximidades. Rodei e virei pra ver se achava alguma entrada, mas nada. Tudo fechado. Eu sabia que o mosteiro, mais acima, abriria às 7:30h, então resolvi seguir caminhando e deixar pra visitar a caverna na volta.

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Ainda escuro na madrugada, mas o sol começando a querer aparecer no horizonte da ilha de Patmos.
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As primeiras luzes da manhã no caminho até o Mosteiro de São João. Visão do vilarejo à beira do porto em Patmos.

O caminho já a luz dos primeiros raios de sol, e estava um pouco mais fácil caminhar. Para vocês terem uma ideia melhor do visual do caminho, esta foto foi tirada mais tarde, já em plena luz do dia.

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Caminho até o Mosteiro de São João na ilha de Patmos.

Quando cheguei lá àquele vilarejo de casas brancas ao redor do mosteiro, o dia já havia amanhecido. Percebam que é um mosteiro meio fortaleza, pois era usado também com esse fim, como quase todos os mosteiros da Grécia, pra o caso de qualquer invasão (normalmente, dos turcos).

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Entrada do Mosteiro de São João, pela manhã, ainda com a lua no céu.

Passei pelos labirintos de ruelas da vila até chegar à entrada do mosteiro. Como ainda estava fechado, zanzei um pouco mais pelo que parecia ser um cenário de jogo de Zelda ou Final Fantasy, e fui apreciar o amanhecer.

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Uma hora depois, retornei para a entrada do mosteiro, onde já havia fiéis. A esta hora, nem sombra de turista. No interior do mosteiro, pátios com ares muito simples, parecendo cenário de filme: os aposentos dos frades, cisterna, canteiros de flores aqui e ali. E a capela de São João, bastante escura, com os sacerdotes de barbas longas e vestes pretas lá dentro começando a ler em voz alta e bem gutural os versos em grego. E fazem como se fossem mantras, repetindo várias vezes, como é a tradição do cristianismo ortodoxo.

O interessante é, mesmo depois de tocar o sino, virem dois sacerdotes de preto e começarem a bater com um martelo, de forma cadenciada, numa longa barra de madeira com partes de metal na entrada do templo. Faz um ruído danado, e eles ficam nisso por uns 10 minutos. Ecoa por toda parte.

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Do pátio principal do mosteiro. Entrada para a escura capela de São João, e a barra de madeira onde os sacerdotes batem com o martelo.
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O interior do Mosteiro de São João.

Acompanhei um pouco a cerimônia para conhecer. Mas não fiquei até o final porque a repetição cansa um pouco, e o silêncio e a sobriedade do lugar te dão a impressão de que, se seu estômago roncar, vai todo mundo ouvir, e um daqueles sacerdotes barbudos olhar pra você por cima dos oclinhos que usam para ler a Bíblia.

E eu estava com fome. Nem só de pão vive o homem, mas um pãozinho às vezes faz falta. Além do mais, era um luminoso dia lá fora. Eu segui pela vila esperando encontrar algum lugar que já estivesse aberto e servindo café da manhã. Encontrei um casal de idosos numa vendinha que aparentava ser simples, mas que tinha um belo mirante no fundo.

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Mirante na ilha de Patmos.

Sentei, veio a velhinha sorrindo, e olhei o cardápio. É aquela hora em que você bate o olho nos preços (e eu sou do tipo que começa a ler o cardápio pela coluna da direita), vê o omelete a 7 euros, e olha de volta para a velhinha sorrindo. Aah vovó malaca. Mas não havia outra opção. Não só não havia nada mais aberto àquela hora, como eu também fiquei sem jeito para levantar da mesa ou dizer que ia dar uma volta. Foi o omelete mesmo, com suco de laranja de 4 euros. E a velhinha ainda me cobrou a cesta de pão, que na Grécia quase todo restaurante traz de graça. Mas foi um café da manhã agradável. Com uma vista dessas, é difícil não ser.

Com o estômago forrado, desci o caminho de volta até a caverna, que agora estava aberta. Entra-se pela Capela de Sant’Anna, e gregos não pagam (portanto, eu e minha barba não pagamos). No interior há uma lojinha (claro), alguns aposentos, e o caminho para a caverna, descendo umas escadas. No lugar não é permitido fotografar, mas se trata basicamente de uma gruta, ainda em rocha nua, onde há um pequeno altar, e destaque para o lugar onde João se abrigava, junto com o seu discípulo que lhe ajudava nos afazeres diários.

A história conta que João foi um dos poucos seguidores de Jesus que não foram martirizados (vejam a morte de Pedro e dos demais, com crucificação de cabeça pra baixo, etc.). Diz-se que ele foi viver com Maria, mãe de Jesus, em Éfeso, na atual costa da Turquia, a poucas horas dali, já que Jesus havia dito na cruz o famoso “Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí a tua mãe“. Acredita-se que Maria veio a falecer cerca de 10 anos depois da crucificação de Cristo, mas João seguiu pregando na região. Porém, por volta do ano 85, ou seja, muito depois, quando João — que era ainda adolescente na época de Cristo — já era idoso, o imperador Domiciano o baniu da região, na sua perseguição aos primeiros cristãos. João foi banido para a ilha de Patmos, e anos depois, por volta de 95, diz a tradição que houve a afamada revelação.

O que foi revelado está lá na Bíblia para quem quiser ler (levando-se em conta as possíveis alterações e perdas devido às traduções ao longo da História). Há controvérsias entre os teólogos sobre se esse João é o mesmo discípulo de Jesus e o mesmo que escreveu o quarto evangelho. Há quem diga que são três pessoas distintas, enquanto que a versão principal sustenta que é o mesmo João. De um jeito ou de outro, o lugar tem uma forte significação histórica, e a experiência é fascinante.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “A Caverna do Apocalipse na Ilha de Patmos

  1. Adoro seus relatos e os lugares q escolhe. Viajo junto. E mesmo já conhecedo alguns, como esses por exemplo, você traz novidades em uma deliciosa narrativa.

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