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Indo a uma final de sumô em Tóquio

O sumô é a arte marcial mais tradicional do Japão. Mais que o judô, o karatê, ou mesmo a luta de espadas. É um espetáculo um tanto especial de assistir, e eu não imaginaria que a minha sorte seria de ter a final de sumô do ano justo no dia seguinte à minha chegada ao Japão. Um domingão bem japonês me aguardava — e ele começaria cedo.

Quando eu voltei ao meu albergue em Tóquio, no dia da minha chegada, achei que teria uma loooooonga noite de sono, para tirar todo o atraso. Ledo engano. Uma nova atendente, Kana, me apontou na parede o pôster da final de sumô no dia seguinte, e disse que eu tinha de ir pois seria o último dia da temporada. O problema é que as entradas já estavam esgotadas, então era preciso fazer fila às 5h da manhã na bilheteria para ter alguma chance de pegar ingresso da cota que eles vendem no dia. “Você já está com seu sono esculhambado mesmo, dá pra acordar“, me consolou ela. Valeu, Kana.


Naquela noite de sábado chegou também um velho amigo meu da Letônia, com quem eu havia marcado de viajar aqui pelo Japão. Coitado, dormiu menos ainda.

O pior foi que Kana estava certa: eu achei que iria dormir a noite toda (pelo menos até o alarme tocar às 4:30). Que nada, às 2:45 eu já estava acordado sem conseguir dormir mais. Enrolei na cama, depois acordei o meu amigo, e fomos juntos com uma garota do Colorado (EUA) pegar o primeiro metrô às 5h da manhã.

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As máquinas de venda de passagem de metrô no Japão (com o nome apropriado de “Pasmo”) são um belo exercício mental para fazer você despertar.
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Nós na madrugada de domingo em Ryogoku, o bairro de Tóquio onde fica a arena de sumô. Já encontramos vários japoneses lá encostados fazendo fila.

Era inverno e o friozinho não estava perdoando, ainda mais sem se movimentar, parado na fila.

Depois de nos batermos um pouco no caminho, achamos a bilheteria e já havia 10 pessoas no lugar, acampados, um até com um macbook. Por sorte, os japoneses têm um negocinho muito prático: um sachê barato que você sacode e uma reação química faz ele esquentar, e você pode enfiar nas calças, botar dentro do sapato (como eu fiz), onde quiser.

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Sachê térmico japonês. Você o agita e ele esquenta. Dá pra enfiar dentro do sapato, das calças, segurar nas mãos, fazer o que quiser.

Não, não foram os japoneses que nos deram de generosidade. A garota do Colorado já estava aqui há algumas semanas e conhecia esses sachês, então comprou uns pra a gente na loja de conveniências. Os japoneses normalmente são na deles, e não abriram a boca pra falar com a gente hora nenhuma.


Depois de duas horas e meia na fila, às 8 da manhã, finalmente rufaram os tambores anunciando a abertura das bilheterias. Uns policiais e funcionários faziam a ordem com o megafone — de um jeito meio pastelão engraçado, que no Brasil provocaria risos.

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Policial japonês com um megafone organizando a fila, à abertura das bilheterias da arena de sumô no domingo de manhã em Tóquio. (Já esse senhor na capa plástica deve ter saído de casa com medo de chuva.)
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Nossos ingressos!
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A luta de sumô é coisa de respeito. Leia a última das regras. (“Não é permitida a entrada de gângsters”)
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O comprimento da fila quando compramos os ingressos. Essas bandeiras coloridas são as dos competidores. (Embora seja a final, há várias lutas.)

Fomos comer, demos uma volta, e de tarde retornamos para o torneio.

Eu percebi que o sumô aqui no Japão é aquele programão de domingo tipo o futebol no Brasil ou as touradas na Espanha. Ou seja, é muito mais do que “apenas” o evento: é também a socialização, a folia na arena, as filas pra comer alguma coisa nas lanchonetes do lugar, etc. Aqui no caso do sumô, esse processo todo leva horas.

O sumô é a arte marcial mais antiga e tradicional do Japão. Segundo informação que nos foi passada aqui no evento, ele surgiu no século VI como parte dos festivais tradicionais de vilarejos para honrar os deuses. A religião dominante no Japão ainda hoje é o xintoísmo, que nada mais é que o animismo nativo japonês. (Animismo é o nome que se dá às religiões, como as indígenas, que trabalham com espíritos da natureza, e que basicamente veem alma — anima — em tudo que há. Shinto, “o caminho dos deuses”, é como os japoneses chamam a sua tradição espiritualista.)

O ringue da luta de sumô é até hoje feito de terra e considerado um espaço sagrado, com arranjos religiosos e rituais: não é qualquer um que pode pisar. (Basicamente, a luta se dá num terreiro.) Os lutadores, antes de combater, jogam sal ao chão como forma de purificação. Aquelas pisadas pesadas, características das lutas de sumô, também são parte do ritual pra afastar os maus espíritos.

Além disso, é claro, há todo o código sobre como o lutador deve arranjar seu cabelo e a roupa de acordo com a hierarquia, etc. Ser lutador de sumô, na verdade, é uma escolha de vida, pois passa a ser obrigatório viver de acordo com as normas tradicionais estabelecidas pela Associação de Sumô do Japão. Por exemplo, é obrigatório vestir-se à moda tradicional japonesa, como esses jovens lutadores na foto abaixo, que encontramos na rua.

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Jovens lutadores de sumô que encontramos na rua. As normas tradicionais aplicam-se aos diversos aspectos de suas vidas, dentro ou fora da arena. Por exemplo, eles devem vestir-se à moda tradicional japonesa, como estão aí.
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A grande arena de finais de sumô em Tóquio.
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Dois competidores prestes a se enfrentar no terreno sagrado. Ali de preto, vestido de forma um tanto notável, é o árbitro da luta.

Na luta, vence quem puser o outro para fora do círculo ou fizer o oponente tocar o chão com alguma parte do corpo que não seja os pés. O combate em si é rápido (costuma durar menos de um minuto), mas os lutadores ficam um tempo grande encarando-se, jogando sal no chão, e virando-se para a torcida.

Ah, a torcida…! Ela aqui é um show à parte. Se você acha os japoneses quietos, saibam que eles “soltam a franga” nestes esportes. Gritam, se exaltam, pulam, choram e tiram foto. 

Bem do nosso lado havia uma moça japonesa toda discreta, com cara inocente e boazinha de professora primária (franzina, de óculos), e dava cada grito que era capaz de o gordo lá embaixo se assustar. Era uma cadência de grito-foto-foto-grito-foto-grito, e quando um favorito dela venceu foi um chororô danado. Haaaja coração.


De quebra, havia por perto também um negão divertidíssimo, aparentemente americano casado com uma japonesa, e que tentava gritar mais do que os outros. “Takanoyamaaa, seu vizinho está aqui!!”, soltava ele em inglês entre um grito e outro em japonês. Quem disse que ir ao sumô não é divertido?

Fiz dois vídeos abaixo (perdoem a qualidade limitada) para quem quiser conferir como são de fato as lutas. Percebam o tanto de ritual e preparação que há (inclusive o jogar de sal) em comparação à rapidez da luta em si. No primeiro vídeo a cerimônia que todos fazem, e no segundo vídeo um confronto.

Notaram os gritos do povo ao fundo?

Não me perguntem quem, afinal, ganhou o torneio. São tantos combates que é difícil de acompanhar. O que eu sei é que há o número 1 do ranking, que recebe a alcunha de yokozuna — além de um polpudo salário de mais de 30 mil dólares por mês. São verdadeiras celebridades no Japão. 

Para ser sincero, não seria a minha praia vir assistir ao sumô regularmente, mas como experiência valeu a pena. No post seguinte, a curiosa experiência dos banheiros japoneses, e depois umas idas aos templos daqui, com mais de Tóquio.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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