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Indo ao templo no Japão: Xintoísmo e Budismo em Tóquio

Ir ao templo aqui no Japão é um programa muito mais corriqueiro que ir ao templo (à igreja) no Brasil. Excetuando-se alguma ocasião especial como os festivais, é algo bem casual: passear nos jardins, lavar as mãos na água sagrada, talvez acender um incenso, fazer uma prece diante do altar, e tirar um papelzinho da sorte. Parece uma espiritualidade pessoal de dia-dia (como no caso dos Celtas ou dos índios das Américas), mais do que uma religião instituída e organizada no caso das igrejas cristãs, do judaísmo ou do islã.


Eu sempre fui fã do animismo japonês, e não podia ficar sem fazer uma visita. Pra dar uma base, “animismo”  vem do grego anima (“alma”, daí palavras como animais ou animado), e descreve a visão de que todos os seres vivos — e às vezes os não-vivos, tais como os rios ou as montanhas — têm uma alma, ou uma energia espiritual. Essa visão é a base dos mangás e animês japoneses, com seus personagens que manipulam essa energia que os japoneses chamam de ki (que recebe outros nomes em outras culturas, e que é também a base de coisas bem reais como a acupuntura chinesa e o yoga indiano).


No Japão, essas crenças recebem o nome de Xintoísmo (ShintoShin, espíritos, e to, estudo ou filosofia). São tradições espirituais tão antigas quanto o próprio Japão e que tem várias deidades, como o espírito das chuvas, da montanha tal, etc. Não há uma figura central. No século VI chegou da China o budismo, e começou a mistura.

O budismo é originalmente indiano, mas da China ele veio já modificado e com elementos Zen, que é uma escola de Budismo surgida lá e que enfatiza a meditação. Hoje em dia, há um belo sincretismo entre Xintoísmo e Budismo aqui no Japão, e a maior parte das pessoas frequenta templos de ambos. Por exemplo, casamentos costumam seguir rituais xintoístas, já os funerais são cremações budistas.

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À direita o templo budista Senso-Ji, no bairro de Asakusa, em Tóquio. Mais um fundo um pagode, como se chamam aqueles prédios tradicionais asiáticos de andares repetidos.
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Estátua de Buda com flores nos jardins próximos ao Senso-ji em Asakusa, no inverno.

Aqui em Tóquio eu estou hospedado no bairro de Asakusa, provavelmente o que melhor conserva um aspecto tradicional na cidade — com ruelas, idosos andando de bicicleta, casas no nível térreo, e templos. O Senso-Ji é o maior templo budista da cidade e nada menos que o templo mais visitado de todo o mundo (incluindo-se aí todas as religiões). São 30 milhões de visitantes todos os anos, mais que o Vaticano ou que qualquer outro lugar. [Para um comparativo mundial, ver Na Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, México]. Foi justo no Senso-Ji que eu resolvi conferir essa religiosidade japonesa pela primeira vez.


A ida ao templo no Japão geralmente começa com o atravessar por um portal onde diz-se que termina o espaço ordinário dos homens e começa o espaço sagrado. Diz-que que passando por debaixo do portal você se purifica. São mais comuns nos templos xintoístas, mas os budistas às vezes também têm.

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O Kaminari-mon, ou portão do trovão, na entrada para o Templo Senso-Ji. (Percebam também as faixas de pedestres na diagonal, comuns aqui no Japão).

Os templos aqui no Japão são quase sempre rodeados de jardins, com pedras, água e plantas. Além disso, em templos budistas há às vezes um pagode, que é aquele prédio comprido. (Não, não tem absolutamente nada a ver com o estilo musical brasileiro, cujo nome originalmente se referia às festas dos escravos nas senzalas).

Nos templos japoneses, sejam budistas ou xintoístas, sempre há uma fonte de água sagrada com umas panelinhas de cabo comprido para você usar. Não digo água “benta” porque, até onde eu sei, ninguém benze. Ela é sagrada por estar no templo, às vezes num altar ou com orações gravadas na pedra ou na madeira. Às vezes as pessoas bebem, mas a princípio me pareceu ser só para molhar as mãos.

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As pessoas lavam as mãos na fonte sagrada. A imagem me parece ser de alguma deidade budista, com os dragões. (A propósito, se estiver estranhando eu falar de deidades no budismo, saiba que aqui no Japão o budismo é cheio de deidades, como o guardião dos trovões, o guardião dos ventos, entre outros).

Nos templos frequentemente há também incenso — e a mim, pessoalmente, é um incenso mais agradável que o da Índia, onde as pessoas são mais pobres e muitas vezes o incenso é barato e enjoativo. Normalmente há apenas varetinhas queimando, mas no Senso-Ji há um verdadeiro “caldeirão de fumaça”, com dezenas de varetas e as pessoas tentando abanar a fumaça para si e se esfregar com ela. 

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Incenso no Templo Senso-Ji. As pessoas puxando a fumaça pra si, esfregando-se com ela, e orando. (Obs: a máscara que a mulher está usando não tem a ver com o incenso. É que os asiáticos têm medo de contágio e frequentemente usam máscara em lugares públicos).

Outra atividade muito comum é o omikuji, ou tirar a sorte. Há vários tipos, mas o mais comum aqui é depositar uma moeda e tirar uma vareta de uma caixinha, como eu estou fazendo aí na foto abaixo. Na varetinha vem um número, e aí é só abrir a gavetinha correspondente.


Notem, no entanto, que apesar de os japoneses usarem normalmente os números arábicos, neste caso são os números japoneses, que são esses tracinhos aí. (Me senti um analfabeto completo procurando pela minha gavetinha, comparando o traçado pra ver se era o mesmo.)

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Eu tirando omikuji pra ver a minha sorte.

Bem, não sei se é a vida ou se é sacanagem dos sacerdotes do templo — ou se são os sacerdotes tentando retratar a vida — mas quase sempre sai “má sorte”, pelo que me disseram. Aí o que se deve fazer, segundo a tradição, é amarrar o papelzinho numa árvore (supostamente passando a sua má sorte para a pobre árvore) ou em algum lugar do templo, onde “os deuses tomam conta”. A minha, no entanto, nem foi a “boa sorte”, mas a “melhor sorte”, que dizem ser bastante rara e que me rendeu uma rodinha de japoneses espiando boquiabertos o meu papelzinho, hehe.


Por fim, há umas plaquetinhas de madeira que as pessoas compram e onde podem escrever desejos e pendurar no templo.

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Plaquetinhas com desejos no Templo Senso-Ji. Embaixo, os papeizinhos de má sorte amarrados.
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Plaquetinha de algum(a) brasileiro(a) que passou recentemente pelo Japão.

O altar principal do templo normalmente não pode ser fotografado, mas é simples e bonito. Nos templos budistas, há sempre uma imagem do Buda em meditação, arranjos de flores, alguns penduricalhos dourados no teto, velas, incenso, e às vezes algumas oferendas de frutas. Já nos tempos xintoístas há, em vez da imagem de Buda, alguma imagem da deidade específica daquele templo ou orações escritas em papel ou madeira.


Como em toda e qualquer religião no mundo capitalista de hoje, há lojinhas de produtos a serem comprados. Os principais são os omamori, ou amuletos da sorte. Os mais comuns que vi são para passar em prova, ter segurança no tráfego, saúde, dinheiro, amor, entre outros. São pequenos, do tamanho de um chaveiro, normalmente uma bolsinha de pano ou algo de metal que você pode guardar ou amarrar em algum lugar. Os japoneses adoram. Às vezes, há alguns específicos para o seu signo zodiacal chinês. Há sempre muita coisa com motivos o animal zodiacal chinês que rege o ano também. 


E, é claro, como este é um templo grande e turístico, há as barraquinhas de comida e de souvenirs em geral que abundam por toda parte. Parece quermesse. É uma animação só, e partir do meio-dia junta uma multidão.

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No corredor de lojinhas que leva até o templo.
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Quitutes sendo preparados e vendidos nos arredores do templo. Um verdadeiro festival.
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Gente amontoando para comprar bolinhos de arroz fritos com diferentes recheios, como massa de chá verde, gergelim ou feijão adoçado.

Mais sobre as comidas do Japão depois. Por ora, deixo vocês com fotos do Senso-Ji, o maior templo de Tóquio, à noite, sem aquela azáfama de pessoas.

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Templo Senso-Ji à noite, quieto.
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Lojinhas já fechadas.
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O pagode iluminado.
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Algumas pessoas ainda visitando. As portas estão fechadas, mas naquela caixa vermelha as pessoas jogam moedas e dali fazem preces.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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