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Indo ao Monte Kurama e ao banho nu nas fontes termais

(Fico a me perguntar se alguém vai abaixar correndo a barra de rolagem pra ver se tem alguma foto de mim sem roupa. Não, não tem, sinto o desapontamento ;-)).

Kyoto fica num vale, e é cercada por colinas verdes. A foto não me deixa mentir. Essas construções de arquitetura japonesa em meio à natureza são algo ímpar. Passam uma paz imensa. Na primavera é mais movimentado, porque milhões de deslocam para vir ver as cerejeiras em flor; mas no inverno é mais tranquilo, então a paz é maior. Você tem várias vezes o lugar só para si. Na verdade, eu acabei vindo visitar o Monte Kurama ainda antes de explorar Kyoto propriamente dita. A razão não foi exatamente a das mais agradáveis.


Os fãs de animê dentre vocês certamente sabem de Kurama o personagem do YuYu Hakushô. Provavelmente poucos sabiam que há, na verdade, um monte sagrado com esse nome no Japão. O que menos ainda sabem é que eu tenho um cachorro com esse nome, “batizado” devido ao personagem e este, por sua vez, devido ao monte. Já é um cachorro de 11 anos, saúde fraca, e que estava bem mal — diríamos até que mais pra lá do que pra cá. Doença de pele, e havia suspeita de que fosse calazar. Pra quem não sabe, calazar no Brasil requer por lei o sacrifício do animal, para evitar a contaminação de humanos. Não é nada legal saber que o seu cachorro está nessa situação. Eu estava tentando evitar pensar no assunto, já que eu estava longe, e o pensamento só ia me entristecer. Mas não tinha como escapar: pra todo lugar que eu olhava havia referências ao monte Kurama — que eu sabia que existia mas nem fazia ideia de que ficava ali. No centro de informação turística, logo ao chegar a Kyoto, perguntei se havia na região algum onsen  (aquelas fontes termais tipicamente japonesas onde as pessoas tomam banho nu; eu não podia passar pelo Japão sem essa experiência). A senhora do balcão me deu um sorriso animado. Levantou até o dedinho com aquela cara de “Ah! Peraí, eu tenho um ótimo”. Abaixou-se e pegou um panfleto detrás do balcão: Kurama onsen, e disse que era o melhor da região. Parecia perseguição.


Desisti de lutar contra e de tentar não pensar. Resolvi fazer exatamente o contrário: decidi que subiria o monte quase que como uma peregrinação, pensando em nada mais que a saúde dele, e parando em cada um dos templos que existissem no caminho. Era uma terça-feira dessas bem cinzentas, e às 8 horas da manhã ele iria fazer o exame derradeiro — no horário do Brasil. Eu, com 12 horas de diferença, tinha o dia todo na frente, e resolvi passá-lo dessa maneira.


Quando ainda era cedo eu peguei o trem que leva de Kyoto até Kurama. Há um percurso bom de caminhada pelo monte que vai desde o vilarejo de Kurama até o vilarejo de Kibune, também nas proximidades. No inverno é mais legal fazê-lo vice-versa, ou seja, descer do trem em Kibune e de lá caminhar até Kurama, subindo o monte, visitando o templo, e terminando tudo com o onsen (as fontes termais). Decidi que esse seria o meu trajeto.


Descendo do trem perto de Kibune, não há dificuldades. Como podem ver abaixo, há um painel com instruções detalhadas.

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Painel explicativo pra quem desce do trem perto de Kibune.

Bom, não havia pistas, mas por sorte eu havia me informado antes de vir e tinha uma noção geral das direções que deveria seguir. Descendo do trem, há uma breve caminhada de 20 a 30 minutos por uma estrada parecida com aqueles cenários por onde você via o carro do Jaspion ou do Jiraya passando. Só que agora eu podia parar e atentar para a natureza ao redor.

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Estrada da estação de trem até Kibune, nas proximidades do Monte Kurama.
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Chegando a Kibune. Tranquilas casinhas com água corrente por perto.

A água correndo dá uma tranquilidade imensa. Fui chegando a Kibune, e a vila em si não tem muita coisa. Pra dizer a verdade, não tem praticamente nada, a não ser um templo bonito que as pessoas vêm visitar.

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Escadas para um templo xintoísta em Kibune.
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Pavilhão de templo xintoísta a um deus da água. Aquelas duas cordas penduradas ali na entrada estão presentes em quase todo templo xintoísta. Você sacode, e perto do teto há algo que faz barulho, tipo um guizo grande. Ali é pra chamar a atenção dos espíritos antes de você fazer a sua prece. Quando não há aquelas cordas, a pessoa bate duas palmas firmes e, com as mãos já juntas, ora.

Naquele folheto ali que eu tenho em mãos há uns detalhes desse templo — para aqueles que gostam de saber das histórias. Esse templo foi fundado há mais de 1.600 anos, embora eles não saibam precisar exatamente quando. É dedicado ao Okami-no-kami, uma deidade das águas, mas não o deus da água propriamente dito — este seria o Mizuhanome-no-kami. Okami-no-kami, a deidade desse templo, é o provedor de águas, na forma de chuva ou neve, e portanto cultuado pela população já há muitos séculos seculorum. Desse culto é que veio a ideia (muito boa por sinal) de se conservarem as fontes naturais de água.


O povo do templo passa um sabão na atitude moderna dos japoneses que degrada as árvores e as florestas ao invés de conservá-las, diz que é uma vergonha e que é hora de resgatar esse “espírito japonês” de conservação que estava aqui presente antes.

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Falando em água, as meninas aqui tiraram um papelzinho da sorte. Nesse você tem que colocá-lo na água e as letras aparecem conforme o papel se umedece.
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E pra não acharem que o templo é retrógrado, olha só: YouTube e Facebook.

Deixado o templo, você sobe o monte num caminho mais ou menos assim:

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Trilha pelo Monte Kurama.

Dizem que por essas trilhas muitas comitivas do imperador (já que Kyoto está aqui tão perto) e muitos samurais já passaram. Foi aqui que treinou um dos samurais mais famosos do Japão, Benkei, que dizem ter tido 2m de altura (mais provavelmente os outros é que eram baixinhos e exageraram) e que derrotou 999 samurais numa ponte. Como você pode deduzir, ele foi vencido no milésimo combate; mas não morreu, passou a lutar ao lado daquele que o derrotou (quantas vezes a gente não vê isso nas histórias de mangá e animê?).


A caminhada seguia cada vez mais para cima e cada vez mais para dentro da floresta. Poucas pessoas passavam por mim, e às vezes eu passava por uns portões desertos como esse da segunda foto abaixo.

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O seguimento da trilha monte acima.
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Pelo caminho.

Depois de umas 3 horas de caminhada, e passados muitos altares quietos, você chega finalmente do outro lado, no Templo Kurama, um templo budista fundado no ano 770.

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Frente do pavilhão principal do Templo Kurama. (Notem que não tem a corda com o guizo pra você balançar e fazer barulho. É um dos indicadores para você distinguir os templos budistas dos xintoístas).

Até uma corrente própria ter sido formada há algumas décadas atrás (a Kurama-Kokyo), esse templo pertencia à corrente Tendai do budismo, um segmento da grande corrente Mahayana. Para quem eu estiver falando grego, ou que achar que budismo é só ficar sentado meditando, ou que não é religião, recomendo consultar esses termos na internet se quiser saber melhor. Em poucas palavras, o Tendai reconcilia as práticas budistas com as crenças nas deidades xintoísticas e com a estética japonesa. Os budistas Tendai simplesmente dizem que esses deus da água, deus do fogo, deus de não-sei-o-quê são seres superiores que vieram trazer ensinos à humanidade. Além disso, aceitam os vários elementos da estética japonesa (ex. a cerimônia do chá, as artes) como expressões dessa realidade superior, em lugar de desprezá-las como se fossem distrações inúteis.


Foi aí a minha oração principal. O ambiente é muito agradável. Você deixa os sapatos do lado de fora, e dentro há incensos queimando, e há uma área com tatami onde você pode se sentar ou, mais comumente, ajoelhar-se repousado sobre as pernas (como que sentado sobre os calcanhares). Desse momento em diante eu sabia que meu cachorro iria ficar bom.


Relaxei. Estava com fome. E queria tomar banho. Desci aos poucos as escadarias do templo, até chegar à base — perto já da pequena estação de trem — onde havia as termas e um hotel. Cheguei à recepção do hotel e procurei me informar sobre qual era o esquema pra se banhar (no onsen, é claro). Descobri os preços, mas não estava aguentando a fome.


— “Melhor primeiro tomar o banho e comer depois, não?“, me disse a japonesa com aquela cara de japonesa.

— “Em teoria, é. Mas eu estou com fome. Quero comer logo.“, respondi sorrindo e sincero.


Ela também não insistiu, e me conduziu ao restaurante do hotel, em stilo de ryokan. Ryokan são aquelas construções tradicionais japonesas, com tatami no chão, porta de correr, paredes de madeira, e mesinhas baixinhas onde você come sentado no chão. Muito bonitinho, mas, meu filho, como doem as costas… se você não estiver habituado, acho que a postura requer uso de uma série de músculos que você nunca usou. Affe. Saí do almoço quebrado, e doido pelo onsen mesmo.

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Escadarias descendo do Templo Kurama.
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Par de estátuas protetoras, comuns à entrada de templos budistas. Um animal sempre tem a boca aberta (como que fazendo o som “A” e outro a boca fechada, fazendo “hm”). Uma japonesa me explicou que são o primeiro e o último som, portanto o início e o fim, como que para indicar que entre um e o outro está tudo, toda a criação. Pra quem achava que a história de Alfa e Ômega só existia no ocidente…

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Toalhinha refrescante, que os japoneses costumeiramente te dão antes da refeição num restaurante. É para limpar as mãos, não o rosto. Por outro lado, aqui eles nunca te dão guardanapo.
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Meu almoço. Vamos lá: arroz branco grudadinho, cebola frita, tempero verde e gengibre aqui embaixo, molho de soja, tofu temperado ali no meio (com mais uns temperos por cima), e no fogareiro principal uma sopa de cogumelos da montanha com ervas da região e tofu.
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Entrada da pequena estação de trem em Kurama.

Mas antes de pegar o trem eu tinha um compromisso com a cultura e com a minha higiene. Fui para o banho nu (mas ainda de roupa). Por sorte o almoço foi leve.

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Let’s keep public morality!!!

Na foto não saiu tudo, mas o regulamento diz que você não pode sob circunstância alguma entrar de roupa. Nem traje de banho nem nada. Antes que os pervertidos se animem, é normalmente dividido homem e mulher. (Dizem que nas mistas só rola coroa tarada). Há uns armários onde deixar seus pertences, e você vai pra a água só com uma pulseirinha de borracha com a chave do seu armário. Mas não pode entrar nas termas ainda: primeiro é preciso tomar banho e se lavar. (Tá pensando que isso aqui é o Piscinão de Ramos?). Na lateral há uns banquinhos com chuveiro, sabão e xampu, e eles solicitam que você tome o banho sentado.

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Área de se lavar junto às termas.
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Não podia mas eu consegui tirar uma foto numa hora em que não havia ninguém. Há onsen de vários tamanhos no Japão; essa é uma pequena, mas o calor da água é natural, e as colinas ao redor dão uma sensação magnífica.

Quando cheguei (e tirei essa foto) não tinha ninguém. A água é pelando. Estava frio do lado de fora (coisa de 10 graus), mas dentro da água você fica rapidamente pegando fogo, mesmo que isso soe paradoxal. A sensação de estar nadando pelado na água quente, respirando um arzinho frio, e sentindo a natureza ao redor é única. Depois dessa comecei a cogitar ir em praia de nudismo.


Por uns 10 a 15 minutos eu tive as termas só pra mim, depois foi chegando gente. É interessante essas coisas de homem: você percebe que ninguém nem se olha no olho, nem dá boa tarde nem o escambal. Você tipo finge que os outros nem estão ali. E depois de um tempo você desencana, e deixa de parecer algo “anormal”, estar ali pelado em meio aos outros. Afinal, isso são hábitos.


A água quente depois de um tempo, pra mim, começa a ficar desconfortável. Acho que se você for do tipo que gosta de sauna, vai gostar muito e ficar lá horas. Mas se for calorento, não vai aguentar nem 20 minutos. Pra mim 25-30 minutos foram o suficiente. Você sai da água e fica ali pelado, sentindo o arzinho frio de inverno, e ainda leva tempo até você começar a sentir realmente o frio.


Me vesti de novo, agora bem mais limpo, e segui até a estação para pegar o trem de volta a Kyoto. Chegando lá já era quase noite. O povo no Brasil devia estar ainda acordando. Lembro que nesse dia eu fui dormir cedo. Acordei no dia seguinte sabendo que abriria os e-mails e que lá estaria o “vivo” ou “morto”. Sendo negativo, eu não sabia exatamente como a coisa ia se desenrolar na prática, mas nessas horas a cabeça da gente é muito criativa e trata se imaginar as piores cenas possíveis. Não desejo essa sensação pra ninguém.


Abri os e-mails com a maior tranquilidade que pude ter, e felizmente lá estava o resultado que eu queria ver: vivo. Calazar negativo. Trocamos de veterinário e ele ficou bom. Graças a o que, eu não sei.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Indo ao Monte Kurama e ao banho nu nas fontes termais

  1. Muito bom o artigo. Adorei ter essas informações, mesmo porque, estou me preparando para uma expedição ao Japão para sentir toda essa energia no berço do Reki, essa técnica maravilhosa que tenho a honra de ajudar a divulgar. Gratidão, Mairon, por seu relato. 🙏

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