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Kyoto, Japão (Parte 1): Jardins zen, o Caminho do Filósofo, e o Pavilhão de Prata (Ginkaku-ji),

Após chegar a Kyoto no trem-bala japonês, o shinkansen, visitar à noite o bairro das gueixas e fazer uma caminhada no dia seguinte pelo Monte Kurama com direito a banho nu nas termas, era hora de finalmente conhecer mais da cidade.

Kyoto é a cidade mais tradicional do Japão. Do ano 794 a 1868 ela foi a capital do país, a residência do imperador, até este ser transferido para Edo (rebatizada então de Tóquio, “capital do leste”) àquele ano com a Restauração Meiji. Kyoto é, portanto, tudo aquilo que há de mais tradicional no Japão, aquele Japão “medieval” dos samurais, dos templos, dos monges, da cerimônia do chá e de tanta coisa.

Hoje, Kyoto obviamente é uma cidade modernizada. Abriga 1.5 milhão de pessoas, um sistema de transporte moderno, prédios reluzentes, etc. (ver aqui). No entanto, como costuma ser sempre o caso no Japão, essa modernidade esconde áreas muito tradicionais ainda preservadas e que você pode encontrar. Em Kyoto, quase todas as antigas mansões de nobres foram convertidas em templos zen-budistas ou xintoístas, daqueles ambientes dos mais tranquilos do universo.

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Ruas de Kyoto, quando você começa a sair do centro. Kyoto fica num vale, e tanto um lado quanto o outro são repletos de verde — e é onde estão a maioria dos templos e jardins.

Era inverno, e o dia estava frio e nublado. Um chuvisco, daqueles de fim de filme japonês, ameaçava cair todo o tempo. Naquela manhã eu havia me levantado sem saber se o meu cachorro no Brasil estava vivo ou morto (ver aqui); vi no e-mail que ele estava bem, e a perspectiva agora era tranquilizar-se. Nada melhor que Kyoto pra isso.

Um amigo meu da Letônia, que também estava visitando o Japão, acabava de chegar à cidade e nós acertamos de visitá-la juntos. Saímos do albergue no meio da manhã, e passamos numa das onipresentes lojas de conveniência japonesas para estocarmos rolinhos de arroz para o almoço. Logo após, encontramos as que seriam nossas colegas de caminhada hoje, duas garotas do nosso albergue: Alexandra de la Mora, uma colombiana dos EUA que eu passei a chamar de Alexandra del Amor (mas que, com o tempo, passaria mesmo a ser chamada de “a maluca do pão verde”), e Maria José [favor ler o José com o som em espanhol], uma mexicana budista. 

Kyoto tem quase todas as suas atrações tradicionais agrupadas a oeste ou a leste da cidade. Kyoto fica num vale, e quase todas as suas áreas verdes, portanto, estão aos pés das colinas. Nós hoje visitaríamos o leste, onde ficam o Ginkaku-Ji (o “pavilhão de prata”), o Caminho do Filósofo, e e mais um número de templos e jardins menos famosos — mas nem por isso menos bonitos.

Prepare o dinheiro! Esses templos quase todos cobram entrada para cobrir os custos de manutenção. Fala-se muito das religiões ocidentais em matéria de dinheiro, mas eu nunca gastei tanto pra visitar templo quanto aqui em Kyoto.

Cruzamos os pátios do templo xintoísta Yasaka sob chuvisco japonês, e logo fomos visitar o templo budista Shoren-in, um dos mais bonitos que vi.

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Fachada de entrada do templo xintoísta Yasaka, em Kyoto.
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Sob chuvisco japonês no pátio do templo Yasaka. Ali uma lojinha vendendo amuletos, placas com preces, incenso, lembrancinhas do templo, etc. Sempre há.
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A trupe. À entrada do templo budista Shoren-in.
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No interior, um jardim zen.
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O ambiente tem ainda mais tranquilidade do que você consegue imaginar.
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Um laguinho com peixes.
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O pavilhão principal do templo, visto com o jardim.

Zen é, especificamente, uma corrente do Budismo surgida na China e muito popular no Japão. O Budismo, surgido nos Himalaias há 2500 anos, tem muitas escolas diferentes. No Tibete e no Sul e Sudeste da Ásia há por vezes uma ênfase mais social e coletiva; já aqui a ênfase está em auto-controle, introspecção e meditação. “Zen” é a palavra japonesa para o chinês Chán, que por sua vez adotou o conceito do sânscrito dhyana, que quer dizer um estado “absorto”, meditativo. 

A corrente surgiu na época da Dinastia Tang (618-907), na China, numa época em que o Japão “bebeu” imensamente da cultura chinesa. É também a época em que Kyoto se estabeleceu como capital.

Esse templo Shoren-in, nós descobrimos, é um dos mais tradicionais da cidade. Fundado no século XIII, seu abade (o sacerdote principal) sempre era alguém da nobreza ou mesmo da família do imperador — para ninguém achar que isso era exclusividade da Europa, com seus bispos e reis aparentados. Esse templo é da escola Tendai do budismo, que reconcilia seus ensinamentos com a religião shinto nativa do Japão (o animismo japonês) e sua estética, como a cerimônia do chá, etc. (Essa escola fundou templos no Monte Kurama e também no Monte Hiei, e eu já posso escutar os fãs de YuYu Hakushô agora fazerem aquela cara de “Aaaaah, foi daí que eles pegaram os noooomes”).

Fazia um frio danado, mas, como é sempre o caso no Oriente, é preciso retirar os sapatos para adentrar o interior dos templos.

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Tatami no interior do Shoren-in.
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Lá dentro. (Frio do diacho nos pés.)
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Interiores tradicionalmente decorados, com portas de correr.
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Arte japonesa.

Batia a hora do almoço. Nós atacamos os rolinhos de arroz, e o meu amigo da Letônia comprou um ovo na loja de conveniências para complementar. As meninas compraram outras coisas, e saímos na rua comendo em direção ao templo xintoísta Heian Jingu — este muito diferente do que acabávamos de ver.

O xintoísmo é o animismo japonês, ou seja, aquela crença tradicional nos espíritos das montanhas, dos rios, dos ancestrais, e todas as crenças místicas e espirituais aí associadas. É como o correspondente que temos com os indígenas nas Américas. No Japão isso nunca se desmanchou, convive bem com o budismo há mais de um milênio, e ainda hoje é a religião dominante do Japão (mais do que o próprio budismo).

Um dos elementos mais notáveis do xintoísmo é a presença dos torii, esses portais onde — dizem — as energias ruins são detidas, não conseguem atravessar. Esse abaixo foi o maior que eu vi em todo o Japão.

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Um grande torii, portal xintoísta. Este foi o maior que vi no Japão.
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O ovo embalado da loja de conveniências.
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O templo xintoísta Heian Jingu.

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Mais adiante, o meu amigo da Letônia no chamado Caminho do Filósofo.

Essa rota recebe esse nome devido a Nishida Kitaro, um filósofo e professor da Universidade de Kyoto. Ele, segundo dizem, caminhava à beira desse riacho todos os dias para pensar. São em torno de 30 minutos de caminhada por sob essas árvores e à margem dos muitos templos que estão ali. Aqui era inverno, mas muitas dessas árvores são cerejeiras, que enchem-se de flores na primavera.

Lá na outra ponta está o templo Higashiyama Jisho-ji, o “templo da misericórdia brilhante”, onde fica o famoso Pavilhão de Prata (Ginkaku-ji). 

Descontando-se que o Pavilhão de Prata na verdade nada tem de prata, é uma área bonita e com belos jardins. Foi fundado em 1480 como uma mansão de aposentadoria da família Ashikaga, mas o dono morreu antes que pudesse completar seu projeto de folhear o telhado a prata, numa tentativa de imitar o seu avô, que décadas antes havia construído — este com sucesso — o Pavilhão de Ouro (Kinkaku-ji), do outro lado de Kyoto. Com ou sem prata, o lugar é muito bonito. (O pavilhão em si é fechado; o que você visita são os jardins e os arredores.)

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A entrada do templo ali, ao final do Caminho do Filósofo.
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Areia cuidadosamente arranjada nos arredores do Pavilhão de Prata.
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Vista para o Ginkaku-ji, o pavilhão cujo telhado teria sido coberto de prata, mas com lindos arredores.

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No post seguinte, os especiais Jardins de Rocha, e a seguir o outro lado de Kyoto, com bosques de bambu e o Pavilhão Dourado.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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