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Kyoto, Japão (Parte 4): O Fushimi Inari Taisha, dos “mil portais”, o templo do filme Memórias de uma Gueixa

Kyoto tem centenas de templos, entre budistas e xintoístas. É cada um mais lindo que o outro, muitos deles inclusive inscritos na UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade — e não é sem razão. No entanto, depois de um ou dois dias visitando templo atrás de templo, você inevitavelmente terá vontade de ver algo diferente. Leve isso em conta quando você planejar a sua visita à cidade. Faça como fizer, entretanto, ao meu ver o templo que você não pode deixar de ver é o Fushimi Inari Taisha, conhecido como o “templo dos mil portais“, onde foram gravadas cenas do filme Memórias de uma Gueixa (2005). Foi o meu templo favorito em Kyoto. 

O Fushimi Inari foi fundado em 711, e conta com inúmeros pequenos altares (e alguns pavilhões grandes) dispostos por toda uma colina. O seu nome é dado pelos milhares de portais torii, esses típicos do xintoísmo, como é chamado a religião animista nativa do Japão. (“Animismo”, do grego anima, é o nome geral dado a religiões que crêem que há alma em tudo, nos rios, nas montanhas, na floresta, etc.)

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Um grande portal torii à entrada do Fushimi Inari. Diz a lenda que ele bloqueia a passagem das energias negativas.

Inari era, originalmente, o deus do arroz. Vocês podem imaginar a importância disso no Japão. Além da óbvia relevância alimentícia, na economia agrária do Japão feudal o arroz era também poder econômico. Hoje, o deus Inari portanto passou a representar negócios de modo geral. Milhares de empresários japoneses vêm cá todos os anos fazer contribuições à manutenção do templo e pedir proteção ou favores espirituais. 

As raposas (kitsune), por sua vez, sempre foram consideradas as mensageiras do deus Inari no Japão, e continuam representadas aqui. São frequentemente retratadas com uma chave na boca, pois são também vistas como as guardiãs (do celeiro, imagino).

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O pavilhão principal do Fushimi Inari. Este templo enquanto instituição data do ano 711, mas a estrutura desse pavilhão central é mais recente, de 1499. Percebam as raposas guardiãs à entrada.
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Detalhe de uma das estátuas de raposa, esta com a chave na boca.
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Os japoneses fazendo orações no templo.
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Na tradição xintoísta, você inicia a oração chamando a atenção dos espíritos do templo. Pra isso aqueles guizos dourados ali pendurados. (Quando não há nada que faça barulho, o hábito é bater duas palmas firmes.)
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E, como em todo templo aonde vão mais japoneses que turistas ocidentais, há sempre a barraquinha onde ler a sorte, pagar pra ver o mapa astral, etc. Os japoneses são profundamente esotéricos — e supersticiosos, alguns diriam.

Mas o mais interessante do templo é mesmo a sua sequência quase interminável de portais todos juntos, recobrindo as trilhas que sobem a colina. É impressionante. (É por esses corredores que se vê a protagonista do filme Memórias de uma Gueixa correndo.)

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Pelos corredores de mil portais do Fushimi Inari. Na realidade, há milhares desses portais aqui.
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Se você estiver a se perguntar, esses portais são feitos de madeira.
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Visão de dentro de um dos corredores (em algumas partes há um que vai e outro que vem, pra não ter congestionamento.).
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E assim vamos subindo a colina. Você levará horas para circular por tudo.

A sensação é interessante, e quanto mais longe você vai, menos pessoas há. Como a colina é recoberta de floresta, dizem que há raposas de verdade e mais fauna, mas é difícil de ver.


Não cobri cada metro quadrado das trilhas, mas circulei o bastante para curtir a caminhada por entre os portais e ver alguns dos altares mais simples que ficam mais ao alto, em meio à mata. A sensação em alguns pontos é a de estar num templo no meio da floresta, o que eu pessoalmente acho bem interessante. Não fiz a trilha inteira porque eu ainda neste dia iria a Nara, outra cidade histórica próxima e que merece ser visitada.


EPÍLOGO

Nara é só uma viagem de 40 minutos, e esta seria a minha última noite em Kyoto. Depois eu iria embora para Osaka, e os meus amigos do albergue estavam dispostos a me fazer de mestre cuca. No dia anterior havíamos tomado sorvete de limão feito por um deles, e me convocaram: “Você gostou do sorvete, agora é a sua vez“, disse-me a minha matuta amiga colombiana. Eu faço aquele sorriso sem graça de quem está com preguiça de ir pra a cozinha. “Eu lembro que você fazia aquelas bolinhas de chocolate, que eram muito boas. Você bem que podia fazer“, interpelou um amigo da Letônia, que havia morado comigo um ano no Canadá e já tinha experimentado dos meus brigadeiros. Pronto, o cerco estava se fechando.

Eu ainda tentei me esquivar em vão, dizendo que eu não sabia onde eles tinham comprado leite condensado, e que ia ser difícil achar chocolate em pó, que não é assim tão comum no Japão. Foi aí que eu tomei o xeque-mate e que o letão veio com a ideia principal: “E se a gente usar pó de chá verde em vez de chocolate?? A gente compra os ingredientes e você faz“. Pronto, não tinha mais pra onde correr. Tive ao menos a decência de repartir os custos e arcar com a compra do pó de chá verde, mas o destino estava traçado e a gororoba que estava por vir.

(Continua em Nara, a primeira capital e o maior Buda do Japão. Mas se você quiser ir direto ao experimento gastronômico, vá aqui.)

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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