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Um jantar em família japonesa em Osaka

Esse foi o almoço. A cara não foi proposital.

Era hora de fazer o que eu mais gosto quando estou viajando: conhecer uma casa de família, pra ir além das observações turísticas. Acabaria sendo uma experiência inesquecível não só pelo cardápio sui generis do jantar, mas também pelos presentes. Fomos eu e o meu amigo letão, já que essa amiga era nossa vizinha quando morávamos no Canadá. As japonesas, eu costumo dizer, se dividem entre dois extremos: as tímidas que escrevem com canetinha rosa e as danadas apimentadas que gostam de aprontar. A minha amiga está definitivamente no segundo grupo, e, conhecendo a família, você vê que não poderia ser diferente.


O trem de Kyoto para Osaka lhe dá a impressão de que você está no metrô. Não só pelo visual, mas também pelo preço barato — se comparado à bagatela que custam os trens-bala de longa distância. Afinal, de Kyoto a Osaka não dá mais que 40 minutos, e sai por não mais do que 8 reais. Chegamos já quase na hora do almoço, então pegamos qualquer comida pronta na enorme estação de trens e saímos para andar pela cidade.


Osaka é a segunda maior região metropolitana do Japão, com 19 milhões de pessoas, atrás apenas de Tóquio. É uma cidade bastante moderna, e como a foto ali acima sugere, é um prédio mais reluzente que o outro. É aqui que ficam as sedes de muitas empresas internacionalmente conhecidas, como Panasonic, Sanyo e Sharp.

Mas como nada daquilo é pra se visitar, fomos ao Museu de Cerâmicas Orientais, que haviam me recomendado. É mais interessante do que parece, pois não é só uma exibição — eles também falam das técnicas, como foram mudando ao longo do tempo na China, no Japão e na Coreia. Mas, por outro lado, é palha constatar que as coleções de porcelana (que, eu aprendi, é um tipo de cerâmica e não algo diferente) asiática no Castelo de Windsor na Inglaterra e em museus pela Europa são muito maiores — quase todas obtidas durante a época do imperialismo europeu na Ásia. Aaaaah, Europa…

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A gigante estação de trem em Osaka. O prédio deve ter uns 8 andares, e a coisa mais fácil do mundo é se desorientar aí dentro. Eu mesmo me custei a achar a saída principal.
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Belas ruas de Osaka, quietas neste final de semana.
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Prédios reluzentes em Osaka.
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E prédios com decorações curiosas também.
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Japonesas cantoras de rua no centro de Osaka.

Ainda tínhamos tempo até a janta. O letão tinha umas coisas pra fazer, então nós nos separamos e marcamos um ponto de encontro onde nossa amiga japonesa nos pegaria. Além de passear pelas ruas, eu ainda fiz duas coisas: visitei uma modesta loja de eletrônicos de seis andares e fui ainda mais alto, no Umeda Sky Building, de 40 andares, ver do alto a cidade e o pôr-do-sol.


As lojas de eletrônicos no Japão são um must-see, uma parada obrigatória mesmo para quem não quer comprar nada, só pra se ter uma ideia da dimensão da coisa no Japão. As lojas são imensas, com uma quantidade enorme de produtos, e muito dinâmicas, cheias de movimento, gente pra lá e pra cá, e atendentes anunciando promoções no megafone. Muito colorido. E no setor de jogos, aqueles telões enormes com gráficos de última geração fazendo você babar. (Pra constar: no Japão, os lançamentos de jogos, filmes e animês são feitos com incontáveis pôsters e anúncios pela cidade, como fazemos com eventos musicais no ocidente).

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Seção de games. Atendente lá atrás anuncia algo com o mega-fone amarelo.
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Um dos vários corredores na seção de mangás (quadrinhos, para os menos inteirados).
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Mais eletrônicos.

Mas eu não estava lá somente a passeio; eu queria também uma câmera, e fui na seção ver os modelos. Em geral são mais baratos que no Brasil, como você deve ter imaginado. Cada marca com seus atendentes próprios. Eu estava olhando umas da Canon quando um atendente me interpelou: “Desse modelo aqui pra baixo não vale a pena; é feito em Taiwan. Dessa daqui pra cima, aí sim, são feitas no Japão“. Eu acabei não levando nada, pois ainda queria pesquisar uns preços, mas serviu de ilustração pra esse preciosismo (talvez com certa base) que os japoneses têm, diferenciando seus produtos dos outros da Ásia — até mesmo os que são somente montados em outros países. (A mesma atitude eles têm com relação aos produtos coreanos, como Samsung, e, é óbvio, aos chineses).


A tarde já estava caindo, e dali eu fui ao Umeda Sky Building, um dos mais altos de Osaka, de onde é possível ver a cidade do alto. Há um observatório já pra isso, e passando por corredores completamente brancos, psicodélicos, com musiquinha de piano de criança tocando ao fundo, como num jogo de fantasia, você chega ao balcão com duas japonesas felizes e uma plaquinha anunciando a hora exata do pôr do sol, pra você não perder. No meu caso, 17:37. (Espero que você não tenha alguma dúvida de que o sol se pôs exatamente nesse horário).

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Umeda Sky Building visto de longe. 40 andares.
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Umeda Sky Building visto de perto, refletindo o céu.
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Vista da Baía de Osaka ao pôr-do-sol.
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Vista de Osaka, com as luzes começando a se acenderem.
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Vista de Osaka ao anoitecer, quando a cidade ganha vida.

(Para quem estiver achando que 40 andares é pouco, lembrem-se de que no Japão sempre tem terremoto. Não dá pra construir aqueles arranha-céus de Dubai de mais de 100 andares com segurança, então por prudência os japoneses não abusam tanto).


Era chegada a hora de zarpar. Retornei à estação e dali rumei para o nosso ponto de encontro, onde minha amiga e seu pai nos pegaram de carro, e fomos à casa da família. As casas japonesas tendem a ser bem limpas, e essa não foi exceção — além de ser muito aconchegante. Quando for, lembre-se de tirar os sapatos ao entrar e de deixá-los virados para a saída. Dentro, ou se fica descalço ou de meia ou com umas sandalinhas de pano.


Entre os presentes, além de mim, da minha amiga japonesa e do nosso amigo da Letônia, estavam o pai, a irmã, o cunhado, o sobrinho e o chefe. O chefe foi o primeiro a ficar embriagado. Sujeito simpático; risonho, bochechudo, de olhinho apertado e uns dentes fora do lugar. O pai tinha cara também de que gostava de uma “marvada”. Já o cunhado era mais comedido, e o sobrinho engatinhava pela sala enquanto minha amiga e a irmã agilizavam as comidas.


O cardápio foi especial: de entrada, canapés de ovo de codorna com pedaços de enguia e pepino; rolinhos de batata com salmão cru e azeitona; e sashimi de carne de cavalo, iguaria típica de Kyushu, ilha no sul do Japão de onde o chefe vem. Tudo isso regado a muito shochu (lê-se “shotchu“), um destilado de batata-doce também típico de lá.

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Canapés de ovos de codorna com enguia e pepino. Só comi um. Apesar de o molho da enguia estar gostoso, a ideia e a consistência são meio desconcertantes.
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Já esse estava bom: batata moída na fatia de pepino enrolada, com salmão cru e azeitonas pretas em cima.
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Este foi o mais tenebroso: sashimi de carne de cavalo, vulgo fatias finas carne de cavalo crua. Desse eu passei longe.

De repente tocou algo que eu não sabia se era a campainha ou o telefone, mas não era nenhum dos dois. “É Risa [Lisa para os japoneses, a irmã da minha amiga] chamando do banheiro pelo comunicador“, me diz a minha amiga, e você fica com aquela cara pasma sem dizer nada. Mal sabia eu que esse seria o mesmo comunicador que eu apertaria sem querer na manhã seguinte na minha tentativa de tomar banho. Mas desta vez serviu, e o marido foi ajudá-la com o bebê.


Era hora do prato principal: takoyaki, bolinhos de polvo. Esses consistem em bolinhos de massa com pedaços de polvo dentro, feito na hora em cima da mesa e comidos com molho teriyaki e algas moídas jogadas por cima.

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Pedaços de polvo cortados para o takoyaki.
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Takoyaki ficando pronto à mesa. Coloca-se a massa ainda pastosa nessas cavidades quentes e vai-se girando até formar bolas.
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Takoyaki pronto pra comer (embora minha amiga tenha me dito que eu coloquei alga demais).

Eu experimentei só um de polvo, e os outros foram de queijo. Na prática, o gosto é o mesmo, pois vem todo das algas e do molho. É divertido porque é interativo: você vai com todo mundo revirando as bolinhas na mesa em diversas “rodadas”, e dá pra sabotar o takoyaki dos outros, etc.


A esta altura o chefe já estava pra lá de Marrakech. Acho que já tinham rolado umas 5 doses de shochu (o álcool de batata-doce) ou mais, enquanto eu estava tranquilo tomando suco de uva verde e garantindo minhas observações. Provei o shochu, mas pro meu paladar todos os destilados têm o mesmo gosto ardente. O pai já havia se retirado pois faria algo na manhã seguinte, então ficamos lá rindo com o chefe e com a irmã.


Foi aí que chegou a minha personagem favorita: a mãe. Uma senhora de cabelo comprido, com ar de Regina Duarte só que japonesa, e simpatissíssima, que chegou logo perguntando da vida de todo mundo e falando, num inglês básico mas entendível, das doideiras que havia visto em foto de quando morávamos eu, a filha dela e o letão no Canadá. Ela perguntou também se estávamos solteiros, ao que dissemos “sim”, e ela abriu um envelope com a foto de uma jovem — e o chefe, mamado, já me acenando “não, não!” com as mãos sem que ela visse.


A foto era pouco maior que um “santinho”, desses de políticos na época de eleição, com a jovem sentada num gramado, com aquela pose de foto de capa de revista de bem-estar. Me disseram que, no verso, estavam descritas as qualidades da moça: idade, educação, trabalho, etc. Era filha de uma amiga da família, à procura de uma par. Basicamente o chefe me alertou que eu nem brincasse de estar interessado, porque era capaz de me contactarem mesmo. Ao que parece, quando o boca-a-boca não funciona e a moça continua solteira lá pelos 30 anos, a família às vezes passa a fazer esse marketing mais pesado. (Já imaginou isso no Brasil?)


Ainda ficamos de papo um tempo, até alguém dar uma carona ao chefe, que não tinha condições de dirigir.

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Aquele papo gostoso após o jantar. Ali à direita é o chefe.
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Reencontrando os amigos.

No dia seguinte, acordei antes da maioria (como de costume) e fui à procura de um banho, onde acabei apertando o comunicador ao tentar ligar a água quente. Não sei qual a relação, mas a água esquentou. Também apareceu alguém batendo na porta, falando em japonês, ao que eu respondi que estava tudo bem num belo e sonoro inglês. Parou. Nunca descobri quem foi. Só sei que tomei meu banho e aparecemos para o café da manhã: chá verde, sopa de cogumelos com ervas, omelete e arroz branco. Pra complementar, distribuímos os brigadeiros de chá verde que haviam sobrado, o que foi um sucesso.


De quebra, antes de sairmos, a mãe da minha amiga, que depois de muito fazer na vida se tornou monja, ainda nos deu um curso relâmpago de zazen, meditação budista em postura de joelhos ou de lótus. Figuraça. Dali meu próximo destino seria, digamos, mais austero: Hiroshima. O trem me aguardava mais uma vez.

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O meu café da manhã japonês no dia seguinte. Desnecessário dizer que não há nada de café propriamente dito.
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Família experimentando nossos brigadeiros de chá verde, que fizemos no dia anterior. Aprovados.
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Meditação zazen com a mãe da minha amiga após o café, para começar o dia.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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