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A triste sina de Hiroshima

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8:15 da manhã, 6 de agosto de 1945

As pessoas aguardavam a abertura dos bancos e das lojas. Não se pode dizer que era uma manhã “normal”, pois já há oito anos o Japão estava em “guerra total”. O risco de invasão era real, e a derrota já era certa. Mas se por um lado os líderes do Japão já tinham noção da circunstância e as lideranças ocidentais já até repartiam os espólios de guerra, as pessoas comuns — sempre as que arcam com os maiores custos — dificilmente imaginavam o que estava por vir.


Hiroshima entrou para a História como a primeira vítima de uma bomba atômica. Um Memorial à Paz foi construído em 1955, e até hoje o prefeito da cidade escreve uma carta de repúdio ao líder de cada país que realize um teste nuclear, seja ele a Coreia do Norte ou os Estados Unidos. O memorial segue aberto à visitação, e embora não seja a visita mais alegre que você irá fazer, é uma parada importante para quem visita o Japão (é como ir a Auschwitz). Foi pra lá que eu fui.

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Fotografia de Hiroshima em 1945 após a bomba.

Hoje a cidade é verde e tranquila. Se você não soubesse do ocorrido, dificilmente suspeitaria. Descendo na estação de trens, o que você vê é uma estrutura moderna — e em alguns locais até já dando sinais de precisar de uma renovação novamente — fruto do “milagre econômico” japonês entre os anos 60 e 80, era de vacas gordas.

Um bonde elétrico te leva da estação pela avenida principal da cidade (que hoje tem mais de 1 milhão de habitantes), cruzando o Rio Ota e os vários canais para o mar, e só o que lhe chamará a atenção como destoante na paisagem será um velho domo, arruinado, estranhamente não reformado. Os japoneses preferiram deixá-lo do jeito que estava na foto acima, como uma eterna lembrança do ocorrido.

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Hiroshima hoje. Parque do Memorial da Paz.

Nem passei pelo albergue que havia reservado: da estação fui direto ao memorial, com mochila e tudo. Pelo módico preço equivalente a 1 real você adentra o museu, nessa área verde da foto, o Parque do Memorial. A visita deve ser feita com muito estômago, pois é tão informativa quanto desalentadora. Começa com um vídeo épico, de trilha sonora tocante e filmagens da época de antes da bomba e do evento. E daí o museu te leva através da História, de fotos das vítimas, e de objetos que resistiram, como aquele relógio de bolso parado na hora da explosão.


Eu fiquei contente de ver que o Memorial é honesto quanto às responsabilidades japonesas naquele período. O Japão tem fama de omitir no ensino de História as atrocidades cometidas em seu expansionismo asiático, contra populações na Indonésia, no Vietnã, na Coreia, e sobretudo na China. Os líderes japoneses até hoje celebram como “herois” alguns criminosos de guerra da época. No entanto, o museu é honesto em retratar como os japoneses massacraram aqueles outros povos asiáticos, seguindo a política de expulsar os impérios europeus mas substituí-los — uma filosofia de “a Ásia para os asiáticos”, uma adaptação da Doutrina Monroe, em que os Estados Unidos diziam “a América para os americanos”. Uma pena que tivessem gostado também da ideologia do “grande porrete” (big stick) do Presidente Theodore Roosevelt, tio-avô de Franklin D. Roosevelt (presidente dos EUA na segunda guerra), e que consistia em intervir na política dos outros países do continente, na prática para satisfazer aos interesses nacionais daquele país.


Pra quem não sabe, a Segunda Guerra Mundial começou mais cedo na Ásia — em 1937 (e não em 1939) com a explosão dos conflitos imperiais japoneses na China. Daí foram milhões de mortos e uma história de massacres até 1945. Não cabe aqui recontar toda a trama da Segunda Guerra, mas o Memorial explica, por exemplo, o porquê do bombardeio atômico ao Japão e o porquê de Hiroshima ter sido escolhida.


Correspondências entre Albert Einstein e o Presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt mostram o cientista informando das possibilidades de se extrair energia de urânio e de se fazer bombas a partir dele antes que os alemães o fizessem, e entre Roosevelt e Churchill (o premiê britânico) considerando lançar a bomba sobre o Japão até sua rendição completa. Albert Einstein depois escreveria, meses antes de morrer, que essa carta a Roosevelt foi o grande erro da sua vida.

“O fogo se espalhou pela cidade, e depois uma chuva negra e oleosa caiu em Hiroshima trazendo ainda a fuligem e as partículas radioativas suspensas na atmosfera.”


As razões para o bombardeio, segundo o Memorial, foram três: (1) os EUA queriam mostrar seu poderio para a União Soviética (URSS); (2) queriam também forçá-la a declarar guerra ao Japão e tomar parte nos esforços de guerra (o que a URSS veio a fazer dois dias após a bomba, rompendo o pacto de neutralidade que havia assinado com o Japão, mas basicamente só para ganhar nos espólios da guerra). E, finalmente, (3) o Japão se recusou a se render e a aceitar os termos da Declaração de Potsdam, escrita pelos poderes aliados em julho de 1945, já após a rendição alemã. O povo japonês descobriu sobre o ultimato não por que o governo informou, mas devido a panfletos que a aeronáutica americana jogou, e transmissões de rádio (que os japoneses eram proibidos de ler e de ouvir, mas o fizeram mesmo assim). Aí o primeiro-ministro japonês foi aos meios de comunicação dizer que o Japão ignorava o ultimato. Má escolha.


Hiroshima foi escolhida porque já há algumas décadas era uma central militar importante para o exército japonês, e porque não possuía campos de prisioneiros aliados. Além disso, era uma área ampla e que permitiria medir bem os efeitos da bomba — por isso, a força aérea ficou proibida de bombardear Hiroshima nos dias que antecederam o ataque atômico, para que se pudesse medir a real potência deste.


A bomba foi lançada às 8:15 da manhã de 6 de agosto de 1945. Ao contrário do que se pensa, ela não explode no chão, mas no ar, neste caso a 600m de altura, e matou em torno de 80 mil pessoas instantaneamente (30% da população de Hiroshima na época). Outros 70,000 morreram depois, das queimaduras e dos outros efeitos da radiação. O fogo se espalhou pela cidade, e depois uma chuva negra e oleosa caiu em Hiroshima trazendo ainda a fuligem e as partículas radioativas suspensas na atmosfera.

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Fotografia da explosão. No Memorial da Paz.
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Velotrol de metal que restou.
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A sombra. Foi o que restou do cidadão que estava sentado nesse degrau.
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Vítima de queimaduras faciais.

Ainda assim o governo japonês não se rendeu. Não estavam dispostos a aceitar nenhuma intrusão nos seus domínios na Coreia ou em Taiwan. A resposta foi uma estratégica declaração de guerra da União Soviética, que queria tirar parte nos espólios depois e tratou logo de tomou a posse japonesa da Manchúria na China. Quando soube, o governo japonês declarou lei marcial, para que ninguém se atrevesse a admitir rendição. A obstinação custou caro.


Em 9 de agosto, portanto três dias depois, veio Nagasaki. Você veja como é o apego das elites ao poder: a demanda principal do governo japonês era que a rendição “não comprometesse as prerrogativas do imperador como soberano”. Dá vontade de meter a mão num indivíduo desse. Os EUA já discutiam um terceiro ataque para 19 de agosto, mais três em setembro, e outros três em outubro, até que o Japão se rendesse. Em 14 de agosto o imperador Hirohito veio à razão e realizou um pronunciamento de rádio à população anunciando a rendição. A rendição formalmente aconteceu dia 2 de setembro, e dezenas de milhares de tropas norte-americanas ocuparam o Japão. Desnecessário dizer que as posses ultramarinas japonesas foram perdidas: logo a Coreia, o Vietnã e a Indonésia se tornariam independentes novamente, e Taiwan e a Manchúria voltaram para a China.


Aí começou o outro problema: a censura americana às imagens e filmagens da flagelação humana causada pela bomba. Por décadas certos documentários foram mantidos “top secret”, ao contrário do que fizeram com as imagens dos campos de concentração nazista — como se a desgraça humana tivesse sido muito diferente. Felizmente, hoje já se reconhece a desumanidade do ataque, apesar de toda a motivação de guerra.

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Parque do Memorial hoje.
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Memorial às vítimas. Flores e uma chama, com o domo lá atrás.
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Criança olha para o domo atômico em Hiroshima.

Como eu disse, é desalentador. Depois de visitar o museu, ainda fiquei um tempo pela praça, e tirei as fotos acima. Muitas crianças correndo. A grande conquista é haver hoje uma mentalidade diferente, menos belicosa, e uma maior compreensão dos danos que a guerra pode causar.

Pra quem não sabe, até hoje o Japão é proibido de ter exército, marinha ou aeronáutica, por força da sua própria constituição, feita sob pressão americana no pós-guerra. Em virtude da Guerra da Coreia nos anos 50, o general Douglas MacArthur permitiu que uma força japonesa de auto-defesa fosse constituída, o que veio a se desenvolver num aparato avançado hoje em dia, mas ainda assim bastante limitado. Ainda hoje os EUA têm cerca de 40 mil militares em solo japonês, e 5 mil civis do seu departamento de defesa. Por ano, o Japão arca com em média 2 bilhões de dólares dos custos dessas bases americanas em seu solo. Os EUA, por sua vez, se comprometem a defender o Japão de qualquer hostilidade estrangeira.


Hoje em dia, em tempos de crise econômica, de uma China forte e de Coreia do Norte agressiva, há um movimento cada vez mais forte no Japão para se cessarem esses gastos, retirar o contingente americano, e se emendar a Constituição para que permita a constituição de Forças Armadas de verdade. Vamos esperar que as lições da História sejam perenes, e que a memória não seja curta demais para questões tão importantes.

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O domo atômico em Hiroshima.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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