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Japão, um país de homens?

Anúncio de um maid café, tipo de lanchonete onde as garçonetes se vestem e se comportam como serviçais, por 80 reais.

O Japão é um país machista — não diferentemente do restante da Ásia, com algumas particularidades aqui e ali. Não é mera opinião; são o que os dados mostram. Dentre os países ricos, o Japão é de longe o mais desigual em questão de gênero. Em 2012 o relatório anual do Fórum Econômico Mundial o classificou na centésima posição em termos de paridade de oportunidades entre homens e mulheres, ao lado de países como Gâmbia e Tajiquistão.


Alguns questionam, dizendo que culturas são diferentes, e que muitas mulheres japonesas estão contentes em deixarem os homens à frente dos trabalhos e serem donas de casa. Talvez haja muita dona de casa feliz no Japão, mas o buraco é mais embaixo: se refere a oportunidades de emprego e na política, por exemplo, universos amplamente masculinos. Diz-se também que no Japão se espera que todos trabalhem até as 10 da noite, e que portanto não há condições para ambos trabalharem fora. Mas isso não explica a galinhagem quase que institucionalizada dos homens japoneses, que saem rotineiramente com “amantes”, a esposa sabe e fica tudo por isso mesmo porque “as coisas são assim mesmo e não há o que se fazer”.


Qualquer mulher ocidental que vá ao Japão pode achar tudo muito bonito e dizer “quero morar aqui!”, mas não se deve idealizar e esquecer este lado que às vezes só se nota quando se passa um tempo maior no país. Mas as visitantes  mais observadoras vão perceber, e os homens de olhar crítico também. Tóquio — e outras cidades japonesas — são cheias de apologias à cultura machista, algumas mais evidentes e outras menos.


Dentre as mais evidentes para o turista estão os maid cafés, da foto acima. Esses cafés estão por toda parte, especialmente nas áreas jovens das grandes cidades. A ideia é as garçonetes estarem vestidas de empregadas domésticas francesas do século XIX (daquelas de uniforme e tiara na cabeça), e te tratarem como tratariam um aristocrata, então vão chamá-lo de master enquanto te atendem. Basicamente, a ideia é fazer você sentir que elas são suas servas, mas com um toque meio pervertido em que elas se comportam como menininhas ingênuas, como as propagandas nas fotos sugerem. Portanto elas fazem coisas tipo se ajoelhar diante de você e desenhar um coração ou um ursinho com ketchup no seu omelete. Parte dos turistas vai e acha curioso e divertido, mas eu pessoalmente acho uma bizarrice sem tamanho, e ainda com ares de pedofilia.

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Mais um anúncio de maid café, com as garçonetes pagando de menininhas inocentes para atender às fantasias dos clientes.

Mas além dos maid cafés, há várias outras coisas mais veladas que só um nativo ou alguém familizariado com o local vai saber te mostrar. Por sorte, eu ainda tinha uma amiga em Tóquio a encontrar, e um distrito da cidade a explorar: Ginza, famoso distrito das lojas chiques de departamentos, das marcas famosas e dos hotéis e cafés de luxo. Minha amiga Reiko acontece de ser um pouco high society, então me convidou para visitar esta área de Tóquio. Eu havia acabado de chegar de Hiroshima numa longa mas razoavelmente confortável viagem de 12 horas de ônibus. Meu avião à Europa saía no dia seguinte, então era minha despedida desta estadia no Japão.

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Prédios reluzentes de Ginza num fim de tarde nublado.

O ambiente é mais moderno, a là América do Norte, do que as correspondentes europeias desse tipo de área, que lá tendem a ser mais “clássicas”, com prédios do século XIX e calçadões. Aqui o estilo é mais de prédios altos e metálicos. Passamos batidos pelas Pradas e Louis Vuittons da vida, já que não havia interesse da minha parte, e fomos nos distrair na loja de cinco andares showroom da Sony. Um espetáculo para qualquer um que gosta de eletrônicos — e até mesmo pra quem não gosta tanto assim. Nessa foto abaixo estamos nós experimentando uma TV 3D na loja.

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Experimentando televisão 3D na loja da Sony no distrito de Ginza, em Tóquio.

Saindo dali fomos tomar um café — mas não num daqueles das fotos. Aqui em Ginza a coisa não é coloridinha e bonitinha pra jovem daquele jeito, o ambiente é muito mais chique: cafés finos, com interiores de madeira e relógio do vovô na parede, frequentados por executivos e outros consumidores bons de bolso.  O-oh… perigo à vista. Quando abri o cardápio (e, como já disse, eu sou do tipo de olha o cardápio pela coluna do lado direito), tomei aquele susto com os preços e tive que disfarçar, mantendo a normalidade e um ar natural diante da xícara de café a 25 reais.


Reiko era só alegria. Pediu café com creme, bolo… Eu, como me recusei a pagar por um café tão caro, resolvi pegar só um pedaço de bolo — que não estava mau mas que não era nenhuma oitava maravilha do mundo que justificasse o preço. Ao sermos atendidos, descobri que as garçonetes aqui também usam uniforme e tiarinha, mas sem a abestalhação de desenhar ursinho com ketchup.

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Ao lado de uma garçonete uniformizada num café no distrito de Ginza, Tóquio.

Entre um papo e outro, Reiko me falou que aqui no Japão os negócios raramente são fechados dentro das empresas. Os executivos preferem ficar, digamos, mais à vontade, e se reúnem em barzinhos chiques de distritos como Ginza depois do expediente. Esses bares normalmente ficam dentro de prédios altos, e são bem reservados. Demos uma de gaiatos depois desse café e fomos dar uma espiada em alguns, sempre com aquele ar de barzinho de máfia.


Nesses locais, as personagens que não podem faltar são as hostesses (literalmente, “anfitriãs”), mulheres que trabalham fazendo companhia aos executivos nessas ocasiões, servindo bebida, acendendo cigarro, e oferecendo a coxa para o executivo passar a mão. Às vezes rola um “algo mais” depois, embora em princípio isso não faça parte do trabalho dela.


Enquanto isso, em plena semana, a esposa está em casa tomando conta dos filhos. Que maravilha de equidade de gêneros, hein?

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Prédio repleto de hostess clubs em Ginza, Tóquio.
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Hostess caminha arrumada pelas ruas de Ginza, ao trabalho.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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