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Desembarcando em Kusadasi, Turquia: Muvuca e malandragem

A Turquia se tornou um dos destinos favoritos dos brasileiros. Na verdade, os ocidentais em peso parecem ter finalmente “descoberto” Istambul, a Capadócia. e o restante da Turquia. Vide não só a novela recente da Globo (Salve Jorge), como também a quantidade crescente de filmes americanos com cenas no país, a exemplo do James Bond recente, Skyfall (2011).

Eu digo que, para o turista, a Turquia é uma “versão light” da Índia. Se você vier da Grécia como eu fiz, mesmo a Grécia já sendo um país, digamos, bem animado e descolado, na Turquia você percebe que a coisa sobe um grau, e a muvuca aumenta. Há muito mais gente (75 milhões de turcos comparados a 10 milhões de gregos), a malandragem é maior, e há muito mais pobreza.

Quando eu desembarquei cá já era de tardinha, vendo o sol se pôr do barco que me trouxe da ilha grega de Samos até o porto turco de Kusadasi, na costa do mar Egeu.

(PS: O nome da cidade na verdade tem um cedilha no primeiro S, que o faz ter o som de sh em turco. Soa como Kushadássi.)

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Deixando para trás a Grécia.
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E chegando a Kusadasi, na Turquia. Olha o arzão de subdesenvolvimento.

Chegamos eu e a minha mochila ao controle de imigração no porto, e passamos sem dificuldade. Há (claro) uma espécie de shopping de estética tradicional (imitando um bazar antigo, com paredes de pedra) logo após os policiais, já que aqui aportam muitos cruzeiros e vêm turistas que desembarcam apenas para fazer compras ou dar um bordejo. A cidade em si parece ser de médio porte, com o porto um tanto mais chique que o resto.

Eu havia feito uma reserva num hotel simples, mas ele não parecia muito fácil de achar. Tudo o que eu tinha era o nome da rua, o número, e uma ideia geral da localização, e achei que isso fosse ser o suficiente. (Tolinho.)

Não havia sinal da minha rua por parte alguma, e ninguém sabia informar. Me mandavam para um lado e para o outro, como às vezes costuma acontecer no Brasil. O pior é que ia anoitecendo, e eu com a mochila nas costas. Eu ia pedindo informação a quem podia, basicamente falando o nome do hotel, da rua, e fazendo aquela cara de indagação. Cheguei inclusive a “largar mão” e entrar num outro hotel simples qualquer, já que na reserva eu não havia fornecido os dados do meu cartão, mas ninguém se prestou a me atender, e eu — ainda hesitante — dei meia volta e fui embora. 

Depois de muito circular, numa ruela escura — por onde eu dificilmente andaria se fosse no Brasil — eu achei o hotel. Lá dentro estava Sezgins, o dono, um baixinho astuto, daqueles coroas morenos de 45 anos que usam camisa polo apertada, cabelinho arrumado, e que se acham o Paolo Maldini. Se revelaria uma das figuras mais malandras.

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A bela localização do meu hotel.

Não levou 5 minutos, e Sezgins começou a tentar me vender pacote para visitar Éfeso, as ruínas gregas antigas, que ficam bem perto daqui. É claro que eu queria ir, mas a “sabidoria” dele com aquela história de “Tem poucos lugares, se você quiser ir tem que me dizer logo“, querendo me vender o peixe dele, era irritante.

Apesar disso, aceitei. O pacote de 1 dia incluiria uma ida à casa de Maria (sim, ela mesma, a Maria mãe de Jesus, que se acredita ter morado nesta região depois do calvário), e eu já sabia que ir lá por conta própria era difícil, já que fica numa área afastada, e um táxi seria caro e eu não teria com quem dividir.

Fiz a vontade do Sezgins, deixei minha mochila no meu quarto no hotel dele (bem furreca, diga-se de passagem), e saí para comer alguma coisa e dar uma volta. Afinal, eu queria passar não mais que uma noite aqui, e depois de visitar Éfeso já seguir viagem pelo interior do país, rumo à Capadócia.


(Se alguém estiver estranhando a existência de ruínas gregas na atual Turquia, lembrem-se de que tudo isto aqui era território dos gregos antigos. Depois foi do Império Bizantino — nada mais que uma continuação daquela cultura grega romanizada e convertida ao cristianismo —, e foi só lá pelo século XI depois de Cristo que os turcos aparecem por aqui, migrando da Ásia central, daí deflagrando as Cruzadas cristãs para retomada do território, etc.).

Comecei a andar e fui vendo os vários bazares, primeiro aqueles bem arrumadinhos pra turista, no porto, e depois os bazares mais “povão”, parecidos com o comércio popular do centro de qualquer metrópole brasileira — só que aqui eles seguem abertos nas primeiras horas da noite.

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Calçadão em Kusadasi com lojas orientadas principalmente para os turistas.

Circulei aproveitando-me do meu disfarce de turco. (Afinal, com a minha cara, ninguém aqui diz que eu sou estrangeiro — o que é uma vantagem ótima pra evitar a chateação dos lojistas chamando você a toda hora pra ver isso ou aquilo, como acontece com os pobres alourados que vem aqui. Toda a minha solidariedade a vocês que são mais branquinhos.)

Comprei umas roupas de algodão excelentes e baratas, depois de barganhar (aqui, como na Índia, quase nada tem preço fixo, depende de quanto o vendedor quer te cobrar), e caminhei para conhecer a área. Vi desde os calçadões repletos de lojas até as ruas de trás, bem quietas, cheias de gatos revirando lixo. Os muçulmanos têm certas restrições aos cachorros — na Indonésia eu aprendi que eles consideram a saliva do cachorro algo “impuro”, e que muitos creem que onde tem cachorro os anjos do Senhor não vêm (agora durma com um barulho desses e diga que passou a noite bem).

Sentei em algum lugar para comer, no que foi o equivalente turco aos trailers que vendem sanduíche nas cidades brasileiras. Aqui são é o doner o rei das comidas de rua, um tipo de pão chato aberto no meio com algo dentro. Além dele, os populares kebabs, que tradicionalmente são carnes ou outros preparos em molhos condimentados, mas que na versão fast-food foi resumido a pedaços de carne de terceira prensada suando gordura. (Ouvi dizer que, no Brasil, deram a isso a curiosa alcunha de “churrasco paulista”.)

Fiquei com a versão de falafel, que são aqueles bolinhos de grão-de-bico fritos com tempero e que você acha em qualquer restaurante turco ou árabe. De quebra, vieram vagens cruas, que eles aqui pelo visto comem como tira-gosto.

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O lugar onde comi, na rua.

Dei uma volta após o “jantar” e avistei muitos bares com música ao vivo e ar de cabaré, mas eu não estava a fim de entrar sozinho em cabaré. Jamais esquecerei a cena que vi rapidamente pela porta de um, de uns homens europeus já bêbados às 10 da noite, sem camisa e fazendo trenzinho da alegria pelo bar ao som de música latina.

Eu bem tinha vontade de ver algo com música e dança típicas da Turquia, mas esses cabarés daqui nada tem de típico. São um bando de bares pega-turista  com dançarinas enfeitadas e uma música dançante qualquer pra fazer europeu achar que está conhecendo a Turquia. Achei mais fácil ouvi-los tocar kuduro que música tradicional turca.

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As inúmeras propagandas de cabaré nas ruas de Kusadasi. Cada um menos autêntico que o outro.

No dia seguinte, eu mal havia desfeito a minha mochila. Eu estava preparado para ir a Éfeso, à casa de Maria, e para zarpar para outra cidade ao retornar. Na internet eu havia visto indícios de que o último ônibus pra onde eu queria ir (Pamukkale) sairia às 4h da tarde, e o Sezgins havia me jurado que o passeio a Éfeso acabava e retornava a Kusadasi às 3h. “Fique tranquilo que quando você chegar eu olho os ônibus pra você. Se não der, você fica aqui mais uma noite, e viaja na manhã seguinte com tranquilidade“, complementou ele. Você também ficou com aquela ponta de suspeita de que o baixinho queria me passar a perna?


A seguir, a ida a Éfeso.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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