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As Ruínas de Éfeso e o Templo de Artemis, na Turquia

Éfeso foi uma importante cidade do mundo greco-romano antigo, com presença relevante na Grécia Clássica, na Roma Antiga, e no começo do cristianismo, com as pregações e epístolas de Paulo (que morou aqui por uns tempos). São, hoje, das ruínas melhor conservadas dessa época, e além disso há um trabalho ativo dos turcos para restaurar o que foi perdido. Ao contrário dos gregos, que hoje tem a política de conservar as ruínas no estado em que se encontrarem, os turcos têm a política de refazê-las, usando mármore e outros materiais para que se vejam melhor as construções por inteiro. As duas correntes têm seus defensores e críticos. (De que lado está você?).


Éfeso fica na costa oeste do que é hoje a Turquia. Na época, é claro, não havia turcos por aqui (eles só viriam, do centro da Ásia, por volta do ano 1000 d.C.). A região fazia parte da civilização helênica expandida, que ia muito além das fronteiras da atual Grécia para incluir o sul da Itália, o sul da França e da Espanha, e também partes do norte da África e aqui da Ásia. Este pedaço, em particular, os gregos chamavam de Ásia Menor, ou de Anatólia, nome usado ainda hoje (do grego Anatolé, “nascer do sol” ou “levante”, devido à sua posição ao leste).

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Costa turca do Mar Egeu com Kusadasi, a cidade onde desembarquei.
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Éfeso na costa da hoje Turquia. Toda essa região corresponde ao que os gregos antigos chamavam de Anatólia.

Embora a presença humana em Éfeso date de 6000 a.C., os gregos antigos só vieram a colonizar a região por volta do ano 1000 a.C., e ali já encontraram um velho santuário de uma deusa da fertilidade, creditado às lendárias amazonas. Em seu hábito de assimilar as outras culturas e de interpretá-las fazendo referência às ideias e mitos gregos (método chamado de interpretatio graeca), eles definiram esse templo como Artemísion, e a deusa como sendo Artemis. Mas vale observar que esta não tem nada a ver com a Artemis/Diana mais conhecida, deusa da caça e da lua, irmã gêmea de Apolo, etc. Até porque a Artemis da caça é virgem, e esta aqui de Éfeso é, bem, deusa da fertilidade.

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Artemis de Éfeso. Percebam a coroa em estilo antigo mesopotâmico e o zodíaco em seu peito. Já esses objetos arredondados alguns dizem serem peitos, e outros dizem que são testículos de touro, ambos símbolos de fertilidade na antiguidade greco-romana.

Éfeso cresceu ao longo do último milênio antes de Cristo, mas trocou de mãos várias vezes devido às guerras entre os primeiros gregos e outros povos daquela região da Ásia, como cimérios e persas. Nesse período o templo foi várias vezes destruído (e reconstruído), incluindo, curiosamente, um incêndio no dia do nascimento de Alexandre, o Grande, em 356 a.C.. Plutarco, o historiador romano, depois escreveu que Artemis estava ocupada demais supervisionando o nascimento de Alexandre para se preocupar em salvar o templo.


Já Heróstrato, o causador do incêndio, foi executado e mais. “E mais? Como assim?“. É que na época as punições podiam ser piores do que hoje. Heróstrato foi condenado à execução e ao que os romanos depois chamaram de damnatio memoriae, o que significa que ficava proibido fazer qualquer registro ou menção oral ou escrita a ele, sob pena de execução, para que a sua existência fosse completamente esquecida na História. Não funcionou tão bem assim, afinal ainda se sabe que ele existiu, mas é verdade que se sabe muito pouco sobre ele.


A reconstrução tornou o templo ainda maior, com 137m de comprimento, 69m de largura, e colunas de 18m de altura, mais a arcada superior. Alexandre até sugeriu pagar pela obra, mas os efesianos educadamente recusaram e arcaram eles mesmos com os custos. Todo em mármore, o templo veio a se tornar uma das 7 Maravilhas do Mundo Antigo — e, segundo o poeta grego Antípatro de Sídon, do século II a.C., a mais bela das sete. Escreveu ele:

“Eu já pus os olhos na muralha da majestosa Babilônia que é como uma estrada para carruagens, e na estátua de Zeus à margem do [Rio] Alfeu, e nos jardins suspensos, e no colosso do sol, e no grande trabalho das altas pirâmides, e na vasta tumba de Mausolo; mas quando eu vi a casa de Artemis que subia às nuvens, aquelas outras maravilhas perderam o brilho, e eu disse, ‘Oh, afora o Olimpo,  o sol nunca viu algo tão grandioso’” – Antípatro, Antologia Grega IX 58.

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Representação de como teria sido o majestoso Templo de Artemis em Éfeso na antiguidade. Hoje, quase nada restou.

O templo perdurou por séculos, e tanto ele quanto a cidade ampliaram seu esplendor após a conquista romana — que herdou e em larga medida manteve os costumes culturais e religiosos dos gregos.

Éfeso cresceu ainda mais, chegando a se tornar a segunda cidade mais importante do império, com cerca de 500 mil habitantes, ficando atrás apenas da própria Roma. Havia um teatro (odeon) com capacidade para 25 mil pessoas para espetáculos de drama e combates de gladiadores, uma grande biblioteca, muitas casas e mercados, banhos públicos, e até mesmo latrinas de uso comum. (Por que você acha que se fala tanto de epidemias na Idade Média e não tanto na Idade Antiga?? Entre outras causas a higiene, meu caro Watson.)

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Vista para o anfiteatro de Éfeso hoje.
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Ruínas da Biblioteca de Celso, com capacidade para 12 mil pergaminhos, erigida em 135 d.C. pelo filho do senador romano Tiberius Julius Celsus Polemaeanus, em homenagem ao seu pai. O senador foi enterrado debaixo da biblioteca.
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Latrinas públicas em Éfeso. Um sistema de escoamento com água levava embora os dejetos.

Mas as coisas começaram a se agitar no decorrer da época romana. Começaram alguns atritos religiosos com a ideia dos imperadores romanos de serem adorados como deuses, e tanto Domiciano (81-96 d.C.) quanto Adriano (117-138 d.C.) tinham templos aqui. É também nessa época que começam a se formar as primeiras comunidades cristãs em Éfeso, organizadas em especial por João, o apóstolo, e Paulo, que moraram aqui por uns anos. O culto a Artemis era visto como idolatria profana, e ela era retratada como um demônio — leitura essa que pode ainda ser encontrada na Bíblia.


Mas foram as guerras e os problemas políticos do império romano que levaram Éfeso à ruína. Em 263 d.C., ela e o Templo de Artemis foram arrasados num ataque dos Godos (povo germânico que deu origem ao nome Gótico). Constantino (306-337 d.C.), o primeiro imperador romano a abraçar o cristianismo, não parece ter se preocupado em reconstruir o Templo de Artemis, mas reconstruiu a cidade. Ela viria a gozar novamente de alguns séculos de prosperidade, e era menos importante apenas que Constantinopla na região.

Daí, vejam só, um problema ambiental levou a cidade a ser abandonada. Houve um assoreamento gradual do porto de Éfeso, na desembocadura de um rio. De repente, não havia mais condições de navegar — e portanto de fazer comércio — no Mar Egeu, e a cidade foi sendo gradualmente abandonada. Hoje, a costa fica a 5km de distância.

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Ruínas de Éfeso. Hoje um árido vale sem qualquer contato com rio ou mar.

Quase 2 mil anos depois, lá estava eu visitando aquela terra seca e pegregosa, cheia de colinas áridas. Era metade da manhã e o calor já estava de torrar o juízo, parecendo que eu estava visitando o sertão da Bahia. Éramos uns 20 chegando numa van acompanhados por Mehmet, o nosso guia, um sujeito mala sem alça, chato e metido a engraçado que passaria o dia conosco.

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Mehmet, o nosso guia em Éfeso.

A visita a Éfeso devia ser interessantíssima se estivessem só você e as ruínas, podendo ali encarar sozinho e em silêncio as estátuas milenares e sentir o peso da História. Mas na realidade você é acompanhado por hordas de centenas de turistas com óculos escuros, chapéu, garrafinhas de água mineral e guarda-sol. Destacam-se aí os grupos de asiáticos, que são quem mais tem dinheiro hoje pra sair viajando o mundo, e os puritanos norte-americanos, que vem a Éfeso basicamente porque Paulo esteve aqui. Quando eu estava lá havia um gravando um vídeo de si próprio em cima da ruína dizendo o quanto se sentia abençoado de estar ali, “seguindo os passos do apóstolo”.


Mas, mesmo assim, a visita vale a pena pelas vistas e pela história. Seguiamos com Mehmet, caminhando pelas ruínas e ouvindo as explicações sobre a cidade antiga. Apesar de ele ser chato, não era um mau guia. Passamos ali umas boas duas horas e meia, até o meio dia. Dali iríamos almoçar (esses pacotes hiper-comuns na Turquia sempre incluem um almoço num restaurante coligado à agência) e ver o que restou do Templo de Artemis, que fica ligeiramente afastado das ruínas.

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O povaréu em Éfeso.

No entanto — esteja avisado — esses pacotes na Turquia sempre incluem paradas estratégicas em lojas caras que pagam para a agência levar turistas lá. Não há como escapar. Mehmet, muito orgulhosamente e com aquela cara de vendedor enrolão parecendo os do comércio de Feira de Santana, nos falava da qualidade dos produtos de couro desta região. Nos levou, em seguida, para uma “excelente loja com os melhores produtos de couro de bode, exportados para todo o mundo”.


Chegamos na tal loja de beira de estrada e fomos levados a uma ante-sala onde um entusiasmado turco jovem com uma cara de modelo de capa da Vogue e camisa branca desabotoada até o peito nos recebeu. Antes de sermos levados aos produtos, fomos conduzidos a uma sala com uma mini-passarela onde tivemos que assistir “modelos” com o charme de qualquer atendente de loja mediano desfilarem os casacos de couro de bode ao som de “Gusttavo Lima e você” (tchê tchêrêrê-tchê-tchê, tchêrêrê-tchê-tchê…).


Uma experiência inesquecível. Em seguida, o turco inicial (capa da Vogue) disse que, como gostou da gente, nos faria um desconto especial: tudo pela metade do preço. Além disso, aquele preço que estava em euros seria para nós — e somente, especialmente para nós — em dólares americanos, que são mais baratos. Mas nada disso fez diferença. Os preços eram módicos, de 500 dólares o casaco (depois de feitos todos os abatimentos generosos que o turco nos ofereceu, pois o preço regular era 1000 euros).


Como sempre, teve pelo menos uma tia que comprou e saiu muito satisfeita. Dali seguimos para visitar as ruínas do Templo de Artemis, mas ao contrário de Éfeso, não restou quase nada do Artemísion a não ser por algumas pedras e uma coluna. Muito foi, na verdade, retirado depois da destruição em 263 d.C., e se diz que pedras daqui foram usadas até mesmo na construção da Hagia Sophia, a magnífica basílica de Constantinopla, hoje Istambul.

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O que restou do belo Templo de Artemis descrito pelo poeta grego antigo.

Mas ainda tinha passeio pela frente. Íamos visitar o local onde teria sido a casa de Maria, mãe de Jesus. E, sem dúvida, ainda haveria mais pelo menos uma parada em loja. Mehmet seguia cantando Let it Be se achando o Agnaldo Rayol na frente da van, e eu olhava pra o relógio querendo saber se esse passeio ia terminar às 3 da tarde mesmo, como o Sezgins do hotel havia prometido. Eu já via que não. Minha mochila estava ali com tudo meu, e eu queria ver onde é que eu ia dormir hoje à noite.

Deixo vocês por ora com mais algumas fotos de Éfeso. (Continua em Maria No Alcorão E A Casa Onde Viveu Em Éfeso.)

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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