You are here
Home > Turquia > Maria no Alcorão e a casa onde viveu em Éfeso (atual Turquia)

Maria no Alcorão e a casa onde viveu em Éfeso (atual Turquia)

Aqui perto de Éfeso, na atual Turquia, viveram João e Maria. Não os da casa de doces, mas os da Bíblia: João, o apóstolo, e Maria, mãe de Jesus. Tudo indica que foi pra cá que ambos vieram após a crucificação de Jesus, quando este lhes disse o célebre: “Mulher, eis aí o teu filho; filho, eis aí a tua mãe“. Acredita-se que eles moraram muitos anos em Éfeso, e que aqui é que o evangelho de João foi escrito. Embora não haja consenso, a versão mais aceita diz que ela faleceu aqui 11 anos após a crucificação de Jesus.

Aegean 2-01
Imagem de Maria, mãe de Jesus, em Éfeso, na localidade onde ela teria vivido com João, o apóstolo.

A ida ao local da casa onde viveram Maria e João não é exatamente fácil. Fica numa colina, por onde hoje se chega de automóvel, a cerca de 15 minutos de Éfeso. Naquela época obviamente levava mais tempo, portanto era uma morada isolada, longe dos agitos da cidade. Hoje, se tornou um dos principais pontos de peregrinação de católicos e alguns outros cristãos. Mas, curiosamente, é também um local respeitado pelos islâmicos — que, pra quem não lembra, são a grande maioria na Turquia de hoje.

Maria é a única mulher a ser chamada pelo nome no Alcorão, que a cita 34 vezes em 12 capítulos. São mais citações que em todo o Novo Testamento.

O livro sagrado do Islã têm todo um capítulo com o nome de Maria, e trata de vários momentos de sua vida, desde a sua infância até a concepção de Jesus, que também é uma figura importante para os muçulmanos. Eles o têm como um messias, um profeta de Deus, embora não como Seu “único filho” nem como o próprio Deus, nem como sendo o último profeta (depois dele, ainda veio Maomé, nascido em 570 d.C.). Portanto, crer em Jesus e Maria faz parte do dogma islâmico — o que não significa ter de crer em todas as construções feitas depois pela igreja cristã, tais como a Santíssima Trindade, etc. Apesar disso, o Alcorão reafirma a imaculada conceição de Maria (ter sido mãe virgem) e seu status acima de todas as outras mulheres perante Deus. Eles a chamam de Maryam, mãe de Issa al-Massih (Jesus, o Messias).

Aegean 2-02
Para os que leem inglês, citações a Maria no Alcorão. (Aos que não entendem, não há exatamente informações novas, mas reafirmações da questão da virgindade, de ela ter sido honrada por Deus para vir a ser a mãe de Jesus, etc. Entretanto, vale lembrar que o Alcorão e, portanto, os muçulmanos veem Jesus como um profeta enviado por Deus, não como filho de Deus ou como o próprio Deus, ideias que surgiram na comunidade cristã vários séculos após a morte do Cristo.)

Maria e João teriam vivido aqui por volta dos anos 30 a 40 do século I d.C.. Paulo viria depois, por volta dos anos 52 a 54 desse mesmo século.

Aquela foi uma época de esplendor em Éfeso, quando o culto local a Artemis ainda era predominante e os cristãos eram ocasionalmente perseguidos. Inclusive, há vários registros bíblicos e apócrifos sobre disputas entre João ou Paulo e os mercadores que vendiam ícones de Artemis, ou ações deles contra o próprio templo, que era visto como profano.

Paulo deixou Éfeso e foi preso em Roma. Já João, depois de muito tempo, acredita-se que tenha sido exilado em Patmos, a ilha grega próxima de onde teria escrito o Livro do Apocalipse, já muito velho. E quanto à situação de Éfeso, a situação religiosa só mudaria em 313 d.C. com o Édito de Milão, através do qual o Imperador Constantino legalizou o cristianismo no império. Em seguida, a mesa virou a favor dos cristãos com o Édito de Tessalônica em 380 d.C., quando o Imperador Teodósio decretou a versão dos bispos de Roma e Alexandria como a religião de estado, banindo todas as outras (tanto outras religiões quanto outras interpretações cristãs da época, vistas como subversivas).


Hoje, a visita ao local da casa de Maria é movimentada mas tranquila. Chegamos ali numa sossegada tarde de sol, em que o calor já havia diminuído bastante. Há muitas árvores no lugar. Entre os visitantes se veem sobretudo franceses, italianos, espanhóis, croatas, portugueses e poloneses — as maiores nações católicas da Europa — além de alguns latino-americanos e, é claro, muitos não-católicos mas que vão por interesse cultural ou histórico no lugar.

Aegean 2-03
Fila para entrar na capela a Maria. A casa antiga já não existe mais.
Aegean 2-04
Sítio arqueológico onde se acredita ter sido a casa original onde Maria e João viveram após a morte de Jesus.
Aegean 2-05
Interior da capela no sítio da casa de Maria.

Ao lado da capela há também um muro onde as pessoas põem pedidos escritos em pedacinhos de papel, como no Muro das Lamentações de Jerusalém. Hoje não se vê nem mais a pedra do muro, de tanto pedido que tem ali.

Aegean 2-06
Pedidos deixados em pedacinhos de papel num muro no sítio da casa de Maria.

Também não faltam, é claro, as lojinhas vendendo mil e uma coisas referentes a Maria. Sempre há quem faça comércio de tudo, seja religião ou não.


A tarde já estava caindo. Mehmet, o guia, nos dizia “só vamos fazer mais uma paradinha” (certamente em alguma loja) e retornaríamos. Fosse a hora que fosse, eu estava determinado a não ver novamente a cara do malandro do Sezgins, o dono do hotel que tentou me enrolar pra ficar mais uma noite lá. Estava com minha mochila, e acharia a rodoviária e iria para qualquer lugar quando terminássemos este passeio e chegássemos de volta a Kusadasi.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

Deixe uma resposta

Top