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Tapeçarias turcas

Embora a fama no Brasil seja eminentemente dos tapetes persas (hoje Irã), na verdade foram os turcos os grandes responsáveis pela popularização da tapeçaria nos últimos séculos e pela sua difusão no Ocidente. Tapetes já existiam na Pérsia e na Babilônia antigas, mas somente a partir das Cruzadas (século XI) é que eles começaram a ser trazidos à Europa, e de lá às Américas. A própria Índia, ao contrário do que se pode pensar, não tinha tradição de tapetes até a invasão dos muçulmanos por lá a partir também do século XI. Em particular, esses motivos de padrões geométricos e flores — que hoje se encontram em qualquer tapete ordinário de qualquer casa — se devem essencialmente à restrição do Islã a se retratar formas humanas ou de outros animais na arte. Voilà, eis a razão para o tapete da sua sala ser como é.


Devo confessar que apesar da malandragem do nosso guia Mehmet nos levando a essas lojas caras para gastarmos dinheiro onde ele tem conchavo, desta visita eu gostei. Fomos levados a uma espécie de ateliê — que na verdade era uma casa simples, à beira da estrada, com umas varandinhas onde as mulheres trabalhavam fiando tapetes e os homens faziam pose tentando vendê-los aos preços mais altos que pudessem.


Esses produtores turcos usam essencialmente lã, algodão e/ou seda como materiais. O processo de confecção manual pode durar anos, e aí você entende o porquê de preços tão exorbitantes que às alcançam milhares de euros. Eu só lamento que a minha impressão seja a de que pouco dessa renda chega ou é controlada pelas mulheres, que são quem dão o duro mesmo.

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Artesã fiandeira. A arte exige mover, puxar, organizar e cortar com precisão os fios de várias cores, de modo a formar aqueles padrões ali embaixo.

Embora não seja comum ver mulheres usando o véu nas grandes cidades da Turquia,  aqui no interior a história é diferente, e quase todas usam. Na verdade, o véu já é há muitos anos banido pela Constituição da Turquia, estado laico e secular que se organizou em 1923 após a queda do monárquico Império Turco Otomano ao final da Primeira Guerra Mundial. Em outras palavras, proclamou-se a república e desde então o uso do véu ficou proibido em cargos públicos, entre advogadas, jornalistas, parlamentares, e professores universitárias. É o oposto do Irã, onde o uso do véu é obrigatório.


Essa é uma briga imensa na Turquia ainda hoje. O governo atual, pró-véu, tentou inclusive emendar a Constituição para permiti-lo, mas sem sucesso. Nos anos 90 as universitárias usando véu eram até proibidas de entrar ou de assistirem aula. Embora isso não exista mais e as estudantes possam usar o véu, continua um clima de tensão e uma discussão constante sobre isso na Turquia de hoje.


Mas voltemos aos tapetes…

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Mulher remove fios de seda daquele caldeirão, onde os casulos de bicho-da-seda (larvas de uma espécie de mariposa) são fervidos.

Depois de vermos um pouco de como os tapetes são feitos, fomos levados a uma grande sala de demonstração com dezenas de tapetes enrolados. O grande “tchan” dos tapetes na cultura turca é que estes eram originalmente nômades, e assim podiam armar barraca em qualquer lugar, desenrolar o tapete no chão, e ter ali um ambiente confortável. Na hora de viajar, bastava enrolá-lo de novo e levantar acampamento. Mais tarde, quando os turcos se assentaram nesta região, os tapetes permaneceram como peças de arte, decoração e luxo nos palácios otomanos.


Sentamos nas beiradas da sala e ganhamos um chazinho pra assistir à exposição dos tapetes. Os turcos têm um hábito forte de tomar chá preto (ou, para os turistas, chá de maçã) nuns copinhos bonitinhos mas nada práticos — de vidro fino, sem nenhum lugar pra segurar, e bom de queimar a mão com o chá quente. (Às vezes acho até que o chá foi de propósito, pra derrubarmos em algum tapete e ter que comprar).

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Nós sentados à beira da sala com o chazinho na mão assistindo à exibição de tapetes.
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O copinho de chá típico na Turquia. Vem quente como o cacete. Bom de derrubar que é uma beleza.

O chá de maçã estava gostoso, embora seja bem pouco típico. Eles vendem para os turistas como se fosse algo tão turco quanto a figura do sultão, mas não é. Aqui o chá tradicional mesmo é o preto, e bem forte e sem açúcar.


Mas a beleza mesmo estava nos tapetes. Cada um mais bonitos que eu outro, e você fica com aquele olhar guloso e aquela cara de “Esse ia ficar bom lá na sala… aquele ali no meu quarto…”.  O criado em silêncio ia atirando os tapetes no ar e desenrolando-os com maestria, inclusive virando-os de cima pra baixo como se fossem panquecas, mostrando como as duas faces diferentes podiam ser usadas. Enquanto isso, o outro, bem vestido, ia só caminhando pelos tapetes e gesticulando com aqueles movimentos e sorriso de apresentador de televisão, como se fosse funcionário do Silvio Santos ou alguma coisa assim.

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Criado e “apresentador” de tapetes, numa exibição perto de Éfeso.
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Lindos tapetes turcos de algodão, lã e/ou seda. Os de seda tendem a ser menores, devido ao custo.
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Belos tapetes turcos. Dava uma pena de pisar neles com os nossos sapatos…

Apesar de não ter comprado nada (fica pra quando eu ficar rico), valeu a visita. Os preços iam de algumas centenas até alguns milhares de euros. Depende essencialmente do material (seda sendo o mais caro) e do fato de serem feitos à mão. Eles, inclusive, nos ensinaram a meter os dedos e olhar a raiz dos fios do tapete pra ver se tem um nó, sinal de que foi feito à mão e não à máquina, pra quem ninguém compre gato por lebre. Em geral, os tapetes feitos à mão tem uma diversidade muito maior de padrões e de arte. E, diz a lenda, ficam cada vez mais bonitos com o tempo.

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As mulheres trabalhadoras por detrás dos belos tapetes feitos à mão vendidos na Turquia.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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