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Andanças pelo interior da Turquia: Rumo ao vilarejo de Pamukkale

Ao pôr do sol, eu estava sozinho caminhando por uma beira de estrada turca sem saber nem em que cidade iria dormir. Crianças, não façam isso em casa.

Terminado o intenso dia em que visitamos Éfeso e as ruínas do Artemísion, a casa de Maria, com direito a paradas interessantes numa loja de couros e numa fábrica artesanal de tapetes turcos, o guia Mehmet nos deixou 5 horas da tarde de volta na cidade. De volta a Kusadasi, onde a minha aventura turca começou. Recusei-me a retornar ao hotel de Sezgins, o enrolão, e de dar a ele o gostinho de pedir pra ficar lá mais uma noite e deixar pra viajar no dia seguinte, como ele havia espertamente sugerido. Em vez disso, saí com a mochila ao anoitecer à procura da rodoviária, determinado a pegar qualquer ônibus que me levasse a algum lugar.


A bem da verdade, eu queria era ir a Pamukkale, uma cidadezinha no caminho para a Capadócia. Eu já havia localizado um hotel razoável lá e mandado um e-mail de manhã solicitando a reserva. (Sezgins, obviamente, havia dito “Ah, não se preocupe, se vocês se atrasarem no passeio hoje eu ligo cancelando a reserva pra você e você fica aqui no meu hotel mais uma noite, e viaja confortavelmente amanhã“. Quase mandei ele tomar no c*.).


A rodoviária de Kusadasi não é tão bem localizada, nem fica em nenhum centrinho bonitinho. Afastando-se da área turística à beira do mar (por onde eu cheguei), a cidade transforma-se numa paisagem urbana bacafú semelhante às pontas de estrada nos arredores de Feira de Santana, ou da região metropolitana de São Paulo, com as pistas, aquele chão meio de terra dos lados, e uma ou outra casa comercial vendendo peças pra carro, etc. Caminhei uma meia hora por esse cenário, perguntando por “otogar” a quem eu encontrava. Uma das minhas primeiras palavras em turco. E pra quem não percebeu, essa é uma corruptela do francês “autogare” (rodoviária). Não sei porque, mas a língua turca é cheia delas (Outra é “jandarma”,  corruptela de “gens d’armes”, uma polícia).


Quando cheguei lá já era de noite. Havia escurecido cedo. Com a minha pinta de mochileiro, logo os funcionários de companhia ficaram me gritando “Vai pra onde? Vai pra onde?”, em inglês. Por sorte, já havia um ônibus saindo em poucos minutos e que passaria em Pamukkale. Me apressei pra comprar a passagem no guichê e entrei. Não houve problemas. Só esqueci de perguntar que horas chegava…


Dentro, um rapaz que me ajudou como intérprete numa conversa rápida com a funcionária da viação, que me disse que chegaríamos umas 23:30h. Maravilha, chegar quase meia-noite numa cidadezinha do interior que você nunca viu, pra procurar hotel com uma mochila nas costas, num país onde você não fala a língua e que nem é tão seguro assim. Ê ideia boa. Mas, com sorte, ainda daria tempo de chegar e dormir no hotelzinho — isto é, se eles não cancelassem a minha reserva.

Eu tinha o número do hotel, mas se chamasse do meu telefone com chip holandês os créditos evaporariam num instante, e ainda tinha muita viagem pela frente. Então interpelei o rapaz: “Quando custa pra você fazer uma ligação pra Pamukkale? E eu lhe pago. Sai mais barato do que se eu ligar do meu.” No começo o rapaz ficou sem entender, mas logo sacou. Pegou o número, ligou, e de quebra ainda falou por mim ao cara do hotel, que quando falou comigo basicamente disse “Tá ok, já entendi, estaremos esperando“.


No fim das contas, o cara não me cobrou absolutamente nada. Quantas vezes a gente deixa de interagir com as pessoas e de resolver as coisas por conta de uma timidez boba, ou orgulho de não querer pedir ajuda.

Quem tem boca vai a Roma, e a Pamukkale também.


Chegamos lá já era perto de meia-noite. Não havia rodoviária; eles te deixam numa rua qualquer, deserta, e só havia uma casinha ou outra iluminadas. Parecia quase zona rural. Alguns poucos homens em carros parados ou à frente das casas ofereciam táxi e hotel, que eu recusei. Eis a minha vizinhança, na manhã seguinte. Imagine isso de noite.

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O naipe de Pamukkale, no interior da Turquia. Parecia que eu estava chegando em Sertãozinho ou alguma cidade do interior do Brasil, dessas de estrada de chão, em que a gente chega com o carro e ve menino semi-nu correndo de um lado pro outro, aquele córrego cheiroso ali no canto, galinha ciscando ali do lado… aquele cenário todo.

O raiar de um novo dia me pôs de pé. O hotel era simples mas agradável, assim como o café.

Pena apenas que o café não tivesse de fato café. Enchi a xícara com um chá preto forte como o diacho, que eu botei achando que era café. Havia também um chá de maçã enrolação feito com um pozinho, mas que não estava tão mau.

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Varanda do hotel na manhã seguinte.
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Descendo para o café da manhã; os donos já lá embaixo.
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Típico café da manhã turco, com queijo salgado, legumes cortados, fruta, pão e chá. Aquele charutinho ali tinha geleia dentro; também é típico.

Pela manhã, finalmente, saí para fazer o que me trouxe a Pamukkale: ver as termas calcárias, ao lado das ruínas da antiga cidade romana de Hierápolis. Pamukkale em turco quer dizer castelo de algodão, e você vai entender o porquê desse nome. Mas primeiro, perdoem-me a vagareza, mas eu precisava de um café. Aquele gosto de chá preto na minha boca precisava ser retirado de alguma forma.

No caminho às termas, parei pra pedir informação e tomar uma xícara de café num estabelecimento simples, desses tipo “pai & filho”, com algumas mesas do lado de fora.

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Decoração simples e bonitinha do interior da Turquia, em Pamukkale.

O pai, querendo puxar conversa, veio arranhar umas palavras em inglês comigo. Pra dar chance a ele, comentei como há em todas as cédulas da lira (moeda turca) a figura de Ataturk, o pai da república turca, um reformador que liderou a formação do novo estado turco em 1923 após o colapso do Império Turco Otomano ao fim da Primeira Guerra Mundial. (Ataturk é um ídolo para o povo aqui.)

O senhor reagiu com aquela expressão de “É claro!”. “No Ataturk, no money“, disse-me como quem explica que se não fosse por ele, não haveria a Turquia moderna. Dali eu puxei pra falar da guerra na Síria, e das revoluções nos países árabes. “Esses árabes…“, respondeu ele fazendo cara feia e mexendo a mão no ar como quem dá uma palmada na bunda de alguém. (A quem não sabe, árabes e turcos não se gostam muito, ainda menos no nível político, muito pela dominação do Império Turco Otomano aqui nesta parte do globo e sobre a maioria dos países árabes desta vizinhança entre os idos de 1500 e de 1900.)

Eu descobriria depois que o centro do vilarejo de Pamukkale é até bonitinho, mais urbanizado do que eu imaginava.

No próximo post, eu narro a visita às colinas brancas de Pamukkale propriamente ditas e às ruínas de Hierápolis, os pontos principais aqui.

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Centro de Pamukkale.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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