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Na Aridez da Capadócia (Parte 1): Vales, catacumbas, e moradas nas rochas

A viagem de Pamukkale à Capadócia foram, literalmente, oito horas de Suha. Suha é o nome da empresa de ônibus, e surrado é como você se sente depois de chegar.

O ônibus tem quase tudo: ar condicionado, televisão individual às costas da poltrona da frente, e até serviço de bordo com biscoito e cafezinho servido por uma “rodo-tia” (uma versão rodoviária e coroa da aeromoça). Só não tem banheiro. Vantagem de não sentir aquele fedor a bordo. Contudo, o ônibus faz paradas a todo momento naquelas lanchonetes de beira de estrada, parecidas com as do Brasil (só que aqui na Turquia o banheiro é pago, mas também é um tanto mais limpo). Sua noite é interrompida a todo momento com o sobe e desce das pessoas.

Cheguei logo de manhãzinha, vendo o nascer do sol da janela do ônibus. Meu destino era a cidadezinha de Goreme, centro do turismo na Capadócia. A região é ampla (como a Chapada Diamantina na Bahia), e basicamente você depende de pacotes turísticos diários que te levam às formações rochosas, às catacumbas, etc.

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A cidadezinha de Goreme ao amanhecer, cercada e em meio às rochas polidas pelo vento típicas da Capadócia.

Passei nas agências de turismo antes mesmo de seguir para o meu hotel, um lugar simples estilo pai-e-filho-tomando-conta. O pai era um estressado anti-social, e o filho um sujeito taciturno de olhos vermelhos em plena manhã, quando me recebeu. Se era conjuntivite ou fumo eu não sei. Só sei que ele, é claro, tentou me vender logo os passeios — mais caro do que eu havia já encontrado no centro. Recusei, e disse que iria ainda conhecer a cidade primeiro. (Mentira, eu estava já prestes a embarcar num tour.)

O dia estava bonito, e eu estava animado pra já ver o que de melhor a Capadócia teria a oferecer. Retornei à agência mais barata (já que os passeios são idênticos, independente de onde você o compre) e perguntei se ainda dava tempo. Dava sim: um sairia às 8:30h da manhã, e era só tempo de tomar um café veloz e sair. Saí pelo centro à procura de algum restaurante aberto para comer algo antes de ir. Um restaurante estava ainda pra abrir, com as cadeiras viradas por cima das mesas, mas deu pra bater um omelete e um prato delicioso de iogurte com mel.

Pouco tempo depois chegou o nosso microônibus.

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A pornografia do meu iogurte com mel.

A Capadócia recebeu o seu nome dos antigos persas: Katpatuka, ou “terra dos belos cavalos”. (Hoje poderia-se chamar também “a terra dos belos enrolões”, mas nesse quesito ela não é muito diferente das outras áreas turísticas da Turquia.) O diferencial da Capadócia está mesmo nas catacumbas históricas e nas belas paisagens, das mais impressionantes da Turquia.

O nosso guia era um sujeito tímido e simpático que se apresentou como Éfe. Já o passeio se revelaria uma mistura de colinas e subterrâneo, com uma caminhada por um impressionante vale verde no meio da paisagem árida (o Vale de Ihlara), e muitas das chamadas “chaminés de fadas” nas rochas (vocês verão).

Comecemos pelo começo, pelas paisagens típicas na superfície. 

A região é semi-árida e tem em média 1000m de altura, toda formada por depósitos rochosos de atividade vulcânica de milhões de anos. As rochas foram se quebrando e se erodindo com a ação da água ao longo do tempo, e as mais duras permaneceram em formatos diversos. Há uma grande quantidade de rochas relativamente macias na região, então desde a antiguidade se cavaram moradas, refúgios e túneis nas colinas e no subterrâneo.

A minha impressão é de que Capadócia se parece com uma “terra de ninguém”, com vastas superfícies desertas e sem cara de presença humana. Você se sente em algum filme de fantasia, de lenda, e se tiver a imaginação fértil vai começar a visualizar como poderiam viver gigantes ou anões naquelas colinas, ou que a qualquer momento vai se deparar com alguma criatura sombria saindo daquelas cavernas.

[Se você quiser sentir ainda mais profundamente a sensação de “deserto humano”, assista ao filme turco Winter Sleep, que se passa cá no interior da Anatólia, num inverno em paisagens desoladas como estas. O filme foi vencedor da palma de ouro do Festival de Cannes em 2014.]

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A paisagem árida e curiosa da Capadócia.
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Amplas vistas.
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O Vale de Ihlara, um incrível cânion verde em meio à aridez.

A partir do século IV d.C. começou a haver a presença de monges cristãos aqui na Capadócia, que construíram igrejas rupestres e se instalaram em grande número neste Vale de Ihlara. Muitas das pinturas dessa época e dos séculos seguintes continuam incrivelmente bem preservadas (mas não se pode tirar foto).

E, é claro, o vale em si é lindo. É de impressionar que haja água fresca e tanto verde, com aves, em meio a esta região tão árida. Na prática, o vale é como um oásis. São 100m de fundura e uns 14km de extensão. Descemos ele todo a pé, e caminhamos por uma meia hora até onde seria o nosso local de almoço. Há um pequeno rio percorrendo o vale, e o ar é bem mais fresco que lá em cima. Em meio à vegetação e à água você vê patos e até ovelhas, e nos paredões dezenas de entradas para cavernas.

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Lá abaixo, no Vale de Ihlara.
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O nosso local de almoço no vale: mesas ao rio e patos circulando (provavelmente sem noção do risco de serem afanados pelo cozinheiro).

 

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As cavernas feitas pelos monges antigos aqui no vale.
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E olha quem eu encontrei por lá. O ator Felipe Folgosi, também passeando.

Após o almoço, faríamos mais uma caminhada no vale para fazer a digestão. Subir de novo é que foi o martírio. (Uma senhora amazonense meio pesada que estava conosco foi quem sofreu, coitada). Ainda tínhamos pela frente as cavernas que parecem um formigueiro gigante e o Vale dos Pombos. No caminho, a amazonense e seu marido estavam me persuadindo a fazer o passeio de balão, dizendo o quanto era legal, etc e tal., mas eu estava relutante. Não me conformava que 1 hora de passeio de balão custasse — eu aprecei — o equivalente a quase 450 reais por pessoa. Só se eu achasse alguma mina de ouro aqui nessas cavernas.


As cavernas me lembraram Os Trapalhões na Terra dos Monstros. Eles dizem que aqui foram filmadas algumas cenas de Tatooine do Guerra nas Estrelas (com o “povo da areia”), mas não é verdade, essas foram filmadas na Tunísia. Mas que lembra, lembra.

Já o Vale dos Pombos rende uma caminhada, mas somente o observamos do alto, pois não havia mais tempo. (O meu dia de sair andando à deriva por conta própria seria amanhã). E, quem sabe, no fim das contas eu fizesse o tal passeio de balão…

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Vista para as muitas “chaminés das fadas” na Capadócia.
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Um formigueiro gigante, praticamente.
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Lá do alto. (Juízo, pois não há proteção alguma. Bobeou, caiu.)
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Visitantes nas masmorras.
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As casinholas das fadas.

Por fim, vamos ao muito que há no subterrâneo da Capadócia, e que é inclusive ainda mais antigo que aquilo feito pelos monges cristãos. 

Antes mesmo da presença dos gregos clássicos por aqui, nesta região viviam os Hititas, povo desta região antigamente chamada de Ásia Menor e que chegou até a guerrear com o Egito Antigo no segundo milênio a.C. (Sobrevive ainda no Museu de Arqueologia de Istambul uma cópia do Tratado de Paz entre egípcios e hititas, de 1259 a.C..)

Os hititas foram o primeiro povo conhecido a fazer extensas redes de catacumbas aqui que sobrevivem até hoje. Havia sistemas de comunicação entre os vários andares das cavernas, áreas de guardar alimentos, e se estima que aqui podiam se esconder durante meses se necessário. Descemos até o terceiro andar subterrâneo, mas disseram que nestas cavernas há cinco.

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Lá no subterrâneo escavado pelos hititas.
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Um dos vários túneis miúdos das catacumbas. É preciso andar todo encurvado ou feito pato, com as pernas dobradas. Essa iluminação toda é só por causa do flash da câmera…
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… na realidade é assim. E em algumas partes você literalmente não vê a luz no fim do túnel, e tem que caminhar só na fé de que tem saída.
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Sentado com o Vale dos Pombos ao fundo. É tão surreal que parece montagem, mas não é. É a Capadócia.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Na Aridez da Capadócia (Parte 1): Vales, catacumbas, e moradas nas rochas

  1. Fantástico!! Toda a Região da Capadócia tem lugares de tirar o fôlego!! Voar de balão foi incrível!! Pamukale também tem sua beleza única!!

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