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Na Aridez da Capadócia (Parte 2): São Jorge, o Museu Aberto de Goreme, e o Vale do Amor

O meu relógio marcava 5:29 da manhã quando o grito de “Allaaaaaahu akbar” soou do minarete ao lado do meu hotel. Quando eu digo “ao lado”, eu digo literalmente. E aquela voz de megafone. Eles não gravam; todo dia, 5 vezes, vem mesmo alguém chamar os muçulmanos — grande maioria aqui — à oração. Eu fui chamado mesmo sem ser. Os dizeres prosseguem por um ou dois minutos, exaltando Deus e clamando a todos que venham. É impressionante, mas me levantou meio que de supetão nesse horário.


Por outro lado, foi bom. Meu despertador tocaria às 5:30 de qualquer jeito. Às 6:00 o baloeiro deveria chegar, e o carinha do hotel me avisar. Sim, eu resisti mas afinal topei pagar os 450 reais para viajar uma hora num balão. Nunca mais me chamem de pão-duro.

O único mal foi que, bem, no fim das contas eu não voei de balão. Às 5:50, eu havia acabado de sair do banho, o carinha bate à minha porta com cara de sono pra me dizer que as saídas de balão haviam sido canceladas devido ao mau tempo. (Raios! Raios múltiplos! … mas uma semana depois, na Bulgária quando o meu cartão parou de funcionar, eu seria muito grato a esse mau tempo por me deixar ainda com algum dinheiro no bolso.)


Bom, era hora de reprogramar o dia. Além do passeio que eu fiz ontem (o chamado “tour verde”, para quem tiver pretensões de vir), há o “tour vermelho”, mas que cobre basicamente lugares próximos, onde você pode ir por conta própria se gostar de andar. É o meu caso, então preferi economizar meus 80 reais (preço aproximado de cada passeio). Mas primeiro, era preciso ir à agência dos baloeiros para pegar o meu dinheiro de volta.


Aproveitei pra tomar café e ver um pouco mais da cidade de Goreme, que é muito bonitinha e merece pelo menos algumas horas batendo perna.

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Café em Goreme.
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Pelas ruas de Goreme. São bem agradáveis e boas de passear.

Os preços também não são maus, caso você tenha interesse em compras. Tecidos e tapetes são o que mais há. 

E nisso tudo eu me perguntei se não veria mesmo absolutamente nada de São Jorge. Há pinturas sacras feitas por monges cristãos que habitavam as cavernas que visitei no post anterior, mas no geral, não, você não verá absolutamente mais nada sobre São Jorge aqui. 

A procura parece ser sobretudo por parte de brasileiros, já que no Brasil é feita uma associação forte entre São Jorge e a Capadócia, até pela música já clássica de Jorge Ben. Numa loja, ao saber que eu era brasileiro, um menininho correu lá dentro e buscou uma imagenzinha de São Jorge e me deu de presente, que guardo até hoje. Tem o nome do santo escrito em português, então você já vê para que público é.

Na historiografia, na verdade, não se sabe ao certo se São Jorge nasceu na Capadócia ou na Palestina, em Lida (ou Lod), hoje Israel, onde há desde o séc XIX uma Igreja de São Jorge que diz ter um sarcófago com os restos mortais dele. Jorge nasceu de pais gregos cristãos e entrou cedo para o exército romano, sendo decapitado aos portões de Nicomédia em 23 de abril de 303 quando Diocleciano, o imperador da época, quis banir o cristianismo do exército.



Para quem gosta de história e hagiografia: no ano 302 d.C., o imperador Diocleciano decretou um édito dizendo que todos os soldados cristãos deveriam ser presos e forçados a fazer um sacrifício aos deuses romanos e abandonar a fé cristã. Jorge se recusou, aborrecendo Diocleciano, que ao mesmo tempo não queria perder um dos seus bons capitães e nem um oficial de patente ainda maior, o pai de Jorge, Gerontius. Jorge, no entanto, declarou publicamente que recusava, e recusou até mesmo ofertas de dinheiro, terras e escravos dadas por Diocleciano para que ele aceitasse. Diante da obstinação de Jorge, Diocleciano ordenou que o torturassem. Diz a lenda que Jorge foi ressuscitado três vezes durante as torturas por laceração, de modo que não houve outro modo senão decapitá-lo. Já a lenda do dragão foi trazida pelos Cruzados, que a aprenderam entre a hoje Turquia e a Palestina, e a associação era do dragão com o mal. O cristianismo experimentava uma época de militarização, e os cristão se achegavam cada vez mais aos santos que haviam sido soldados. Já as ocasionais associações de São Jorge com a lua são sobretudo brasileiras, talvez pelas paisagens da Capadócia…).


O dia estava fechado, com um breve chuvisco e meio frio. O agenciador de baloeiros — que falava um pouquinho de português e me contou como havia sido assaltado duas vezes no Parque do Ibirapuera — sugeriu que eu comprasse na mão dele um passeio a um hamam, o tradicional banho turco.

O hamam é como um spa de banhos termais, num lugar fechado, em que mulheres e homens são separados e você é tratado meio que como um sultão: alguém vem ensaboar você, escovar seu corpo, fazer massagem etc. Te põem até óleo de rosas se você quiser. As mulheres normalmente ficam nuas, e os homens vestem um pano amarrado nas partes baixas (como lutador de sumô). Só que é segregado, então é homem com homem e mulher com mulher. Desculpem-me, mas a perspectiva de ter um turco peludo e barrigudo me ensaboando não é exatamente o que me atrai.

Perguntei de sacanagem ao cara se não teria jeito de ter uma turca fazendo a massagem, e ele me olhou com aquela cara de “Alow?! Cê tá louco?”. Eu só ri, e devolvi com a cara de “então não, obrigado”. Peguei o meu dinheiro do balão e fui embora.


Meu destino pela manhã era o Museu Aberto de Goreme (Goreme Open Air Museum), uma área com muitas grutas e mais pinturas rupestres a uma meia hora da cidade a pé. A caminhada parece que você está no nada, e não havia uma viv’alma, exceto por um grupo de cavalos que encontrei — para honrar o nome da Capadócia. Sério mesmo, parece que você está num outro planeta, tipo Tatooine ou algo assim. E pra aumentar ainda mais a minha impressão encontrei uma fazendinha de ETs.

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Cavalos na Capadócia (cujo nome significa “terra dos belos cavalos”). As únicas viv’almas que encontrei neste descampado.
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Casinha de ETs. Não me pergunte o significado disto.

A entrada do Museu Aberto não é difícil de achar, pois logo você avista os vários ônibus turísticos parados. Além disso, há um “corredor turco” de barracas e lojas pelo qual você passa para chegar à entrada.

A bem da verdade, vou confessar a vocês, esse corredor foi mais interessante que o museu em si. Como no Brasil (e diferente de muitos outros países), aqui você pode facilmente puxar papo com o(a) vendedor(a) mesmo que não compre nada. Foi útil pra me informar sobre o que há de bom na música turca (Orhan Gencebay, mais conhecido como Orhan Baba, ou “vovô Orhan”, #ficaadica), ouvir alguns CDs e trocar charme com as vendedoras.

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Corredor de lojas no caminho para a entrada do Museu Aberto de Goreme.

Já o Museu Aberto foi um pouco mais do mesmo: mais cavernas, rochas a se subir, e pinturas rupestres. É legal, mas começa a ficar repetitivo. A graça foi ver um senhor português irritado, durante uns 10 minutos fazendo a esposa bater direito a foto, e reclamando que ficava sempre torto (àquela maneira portuguesa, bufando e dizendo “Máix náo é pussívl“), e posando novamente, e de novo… haha.

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O senhor português tentando sair bonito na foto.
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O Museu Aberto de Goreme.
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Vista do alto, da entrada de uma caverna.

No passeio encontrei uma indiana e uma japonesa (naquela de “tira uma foto pra mim?“), e acabamos por retornar à cidade juntos. No caminho, tentamos pegar um suposto ônibus a um vale mais longe (calma, isso não era nenhuma maracutaia minha) seguindo informação do guia da japonesa, mas tudo o que obtivemos depois de algum tempo de espera foi um carro suspeito com dois turcos perguntando aonde nós íamos e oferecendo carona. A japonesa, inocente como parece ser típico, ficou animada e já ia entrando. A indiana e eu, muito mais espertos para o lado de malandragem, nos entreolhamos e mandamos os turcos seguirem. Ficaram até irritados com a nossa recusa, mas seguiram caminho. Na falta do ônibus, resolvemos ir almoçar.


Nosso prato foi um kebab (que nas ruas da Europa é uma carne de quinta, mas que aqui na Turquia é um preparado ao molho super saboroso, que pode ser com bife, frango, ou até vegetariano) feito na moringa de barro. À mesa o garçom quebra e serve. Uma maravilha. (Os turcos costumam dizer que o único kebab de verdade é com carne, mas esse que comi estava ótimo.)

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Kebab na moringa de barro, com os acompanhantes.
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O garçom serve após quebrar a moringa com cuidado.
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Kebab vegetariano delicioso. O espírito da cozinha turca, ao contrário da indiana repleta de especiarias, é usar essencialmente legumes bem saborosos, tomate e azeite.

Após a refeição, acabamos tomando rumos diferentes. A indiana iria encontrar uma amiga, a japonesa queria ver algo que eu já tinha visto, e sobrou pra mim ir sozinho ao Vale do Amor.

O Vale do Amor é um ponto muito famoso da Capadócia, embora mais distante. Dá coisa de 1h de caminhada de Goreme — isto é, se você souber direito o caminho. Se você não souber, como eu, leva 2h. Sei que eu me perdi bonitinho, mas depois de muito vagar sozinho por aquele descampado, consegui achar o caminho à beira de uma rodovia, depois subindo uns montes.

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O caminho para o Vale do Amor.
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Deixando a beira da rodovia para seguir agora pela estrada de chão.
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Subindo, a caminho do Vale do Amor.

No caminho, encontrei somente alguns poucos turistas voltando — pois já era final de tarde — e que me confirmaram que o caminho era por ali mesmo. Mas só até a rodovia. Depois, só encontrei um casal humilde, já de certa idade, que tinha estado vendendo suco de laranja numa barraca improvisada no meio do nada.


E o que tinha nesse tal do Vale do Amor, você deve estar a se perguntar. Nenhuma princesa encantada, nem fonte de água mágica prometendo sorte no amor a quem dela bebesse. Vou mostrar a foto e vocês tentam adivinhar o porquê do nome.

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O Vale do Amor.

“Vale do Amor” é devido ao formato peculiar dessas enormes rochas ao longo de todo o vale. Não preciso dizer com o que elas se parecem. (Pensou que fosse algo mais romântico, hein?).


Saindo daqui, fiz o caminho de volta a Goreme e esperei pelo meu novo ônibus, mais uma viagem noturna, desta vez com direção a Istambul. Mais 12 horas de Suha me aguardavam esta noite.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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