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Istambul, Turquia (Parte 1): Hagia Sophia, a Cisterna da Basílica, e a Mesquita Azul

Istambul é uma cidade estupenda. São 15 milhões de habitantes — a maior cidade da Europa, e a única metrópole no mundo a estar dividida entre dois continentes. Parte está na Europa e parte na Ásia, com o Estreito do Bósforo no meio. Não é a capital (esta seria Ankara, uma cidade administrativa e menor), mas é claramente a mais importante cidade da Turquia, e aquela que você não pode deixar de ver.

A riqueza de antiguidades surpreende até mesmo os bons conhecedores de História (quer apostar?). De quebra, a gastronomia é a maravilhosa, assim como a vida noturna. Dito isso (que me faz parecer um guia desses de bolso, só que aqui dito com sinceridade e não como jogada de marketing), é uma cidade enorme e, como as metrópoles brasileiras, cheia de trânsito e fuzuê. Não espere tranquilidade em Istambul, pois a cidade não pára. Se você acha que São Paulo, Nova York ou Tóquio são muito movimentadas à noite, venha pra cá.

Cheguei cá após 12 horas de Suha desde a Capadócia. Havíamos parado em várias beiras de estrada, já que Suha, a minha companhia de ônibus favorita e cujo nome é sugestivo, não tem banheiro.  O sol ainda nascia quando entramos em Istambul pelo lado asiático, mas só duas horas depois é que chegamos à rodoviária final (há várias) no lado europeu, onde eu iria ficar. Quase tudo que é turístico está no lado europeu, mas como eu dificilmente me restrinjo a isso, consegui uma amiga de uma amiga minha que é da cidade e me levaria ao lado asiático também.

Como ela estava ocupada pela manhã, acabei trocando mensagens com a amiga da amiga da minha amiga (adoro isso, viva a sociabilidade). Recebi umas instruções breves de como comprar um cartão de transporte público e fui me bater na maquininha. Com a ajuda do guarda, consegui comprar um passe. Aqui é muito turístico, então não é difícil achar alguém que fale inglês. Além do mais, eu estava na Praça Taksim, o centro do centro de Istambul (onde se concentraram os protestos agora em junho de 2013).

Pegando o ônibus, e instruído sobre onde descer, cheguei às portas da Universidade Bogazici, a mais conceituada da Turquia. Ainda eram umas 8:30 a 9:00 da manhã, mas os estudantes (turcos e estrangeiros) já estavam por toda parte, tanto no campus quanto nos vários cafés ao lado.

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Uma rua normal no centro de Istambul, pra dar uma ideia do naipe cotidiano da cidade.
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Ruas ao redor do campus. Nada de luxo, mas arrumadinhas. Nível mediano, como o Brasil.
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Bela vista a partir do campus da Universidade Bogazici. Do outro lado do estreito está a Ásia.

Como vocês podem notar, o campus é alto. E subir isso com mochilão nas costas não é engraçado. A temperatura, por sorte, estava amena (seus 20 graus), mas com algum exercício e depois de uma noite no ônibus, era hora de comer. Por ora, não mergulhei ainda nas guloseimas locais; acabei tomando algo genérico (alguma massa com queijo e um capuccino) no Simit Sarayi, uma das mais populares redes de cafés da cidade. Lá eu encontrei a amiga da amiga da minha amiga, que me levou até o apartamento onde morava com a amiga da minha amiga, e onde eu ficaria albergado estes dias. (Eu às vezes lamento que no Brasil poucos de nós tenham essa abertura pra acolher estranhos; culpa da desconfiança típica das sociedades desiguais).

Eu só viria a conhecer a amiga da minha amiga de noite. (Pra deixar claro, “minha amiga” mora na Alemanha, então não aparece nessa história). Portanto, deixei as coisas no apartamento e tinha o dia todo livre. Peguei o ônibus de volta à Praça Taksim e de lá um metrô e em seguida um bonde elétrico para Sultanahmet, o distrito onde se concentram as atrações principais. E, sim, se você notou, o transporte público aqui é muito superior ao das metrópoles brasileiras. (Prefeitos e governadores, se vocês estiverem lendo isso, põem uns bondes elétricos e metrôs decentes pra a gente?).

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Rua no centro de Istambul vista de dentro de um ônibus.
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Rua com trilho de bonde elétrico no distrito de Sultanahmet, em Istambul.
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Homens muçulmanos orando sobre os tapetes na calçada.
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Rua principal em Sultanahmet, um ambiente muito agradável e cheio de coisas.

Minha primeira visita não foi à Hagia Sophia, mas à Cisterna da Basílica, conhecida pra quem assistiu Moscou contra 007 (From Russia with Love) ou leu Inferno, o livro mais recente de Dan Brown. É um dos muitos reservatórios construídos aqui caso a cidade fosse cercada e os aquedutos atacados. São várias colunadas subterrâneas numa vasta cisterna, e preservadas desde o século VI. Foram construídas pelo Imperador Constantino no século IV e depois reformadas por Justiniano em 532 d.C..

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Colunadas subterrâneas na cisterna da basílica. Dá pra ver o reflexo das luzes e das colunas na água.
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Grande cabeça de medusa na base de uma das colunas.

A cabeça da medusa se deve ao fato de que as colunas foram todas espoliadas de templos greco-romanos da região. Se a imagem foi colocada de cabeça pra baixo por acaso ou por superstição e medo do olhar da estátua, não se sabe. Diz a lenda que sete mil escravos foram utilizados para fazer a cisterna.

A esta altura cabe uma breve contextualização histórica. Istambul é uma cidade bastante antiga, do século VII a.C. quando era chamada Bizâncio, do lendário Rei Byzas (que não se sabe se existiu). Era uma colônia grega, uma cidade comercial depois reformada e rebatizada em 330 d.C. pelo imperador romano Constantino (o mesmo que “desproibiu” o cristianismo; quem a tornou religião oficial do império foi Teodósio I, algumas décadas depois). Constantino rebatizou Bizâncio de Nova Roma, mas o nome não pegou muito. Ela acabou sendo conhecida como Constantinopla (a adaptação portuguesa de Constantinopolis em Latim), a cidade de Constantino. Ela seria o maior centro de poder na Europa durante aproximadamente 1000 anos, até ser conquistada pelos turcos em 1453 (marco do final da Idade Média).

Com as invasões bárbaras e o declínio de Roma, Constantinopla tornou-se a mais importante cidade do império. Diocleciano já havia dividido sua administração em uma metade ocidental e outra oriental em 285 d.C., mas as alcunhas de “Império Romano do Oriente” ou de “Império Bizantino” foram dadas sobretudo depois por historiadores. Na época, era a continuidade do Império Romano simplesmente. Aquelas divisões são meramente didáticas. Na prática, o que mudou foi que o grego veio a substituir o latim como língua corrente e a cultura era mais helênica que latina, com o Cristianismo Ortodoxo em vez do politeísmo de Roma.

Uma das edificações mais notáveis dessa época foi a Hagia Sophia, a Basílica da Santa Sofia. Mas ao contrário do que eu ouvi um guia ignorante dizer a um grupo de turistas norte-americanos, Sofia não é nenhuma santa (ele disse aos turistas que Sofia tinha sido uma freira católica que virou santa, com aquele tom de voz de quem estava improvisando). Sofia é sabedoria em grego, e a basílica é dedicada à “santa sabedoria”, de Deus. Foi erigida em 537 d.C., e era a sede de um dos patriarcas da igreja. A cisão religiosa com Roma e seguinte divisão formal entre Igreja Romana e Igreja Ortodoxa só viria a ocorrer em 1054.

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Imagem de como teria sido a Hagia Sophia original (não é o estado atual).

Quando os turcos invadiram Constantinopla, não destruíram a igreja e nem os mosaicos cristãos no interior. Afinal, o Islã a princípio respeita o cristianismo. Mas a converteram numa mesquita, acrescentando-lhe elementos islâmicos no interior, minaretes, e cobrindo os mosaicos com um reboco, para escondê-los sem os destruir. Foi a principal mesquita de Constantinopla até 1616, quando a grande Mesquita Azul foi construída ao lado. Em 1931, deixou de funcionar como mesquita e se tornou um museu. O reboco sobre as imagens cristãs foi removido, revelando-as relativamente bem preservadas.

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Hagia Sophia hoje, com os minaretes.
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Interior de Hagia Sophia, com elementos islâmicos. As placas circulares com escritos em árabe são o nome de Allah, de Maomé, dos primeiros califas, entre outros.
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Runas nórdicas gravadas no interior de Hagia Sophia, provavelmente por algum membro da Guarda Varegue, uma divisão de guerreiros vikings que protegiam o imperador.
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Interior. Mosaico da virgem Maria com o Jesus menino no alto.
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Mosaico de Cristo no interior da Hagia Sophia.

Não tive a sensação de estar num lugar sagrado, mas de fato num museu. É muito bonito, além de importantíssimo pelo valor histórico.

Logo ali ao lado está a Mesquita de Sultanahmet, também chamada de Mesquita Azul pelo seu interior, e desde 1616 a maior da cidade. Entre Hagia Sophia e ela, uma bela praça com jardins e chafarizes. E ali, perto das barraquinhas hoje vendendo milho assado e castanhas portuguesas na brasa, você esbarra em monumentos ainda mais antigos, como o obelisco egípcio trazido de Alexandria pelo Imperador Teodósio no século IV d.C.. Está aqui quase intacto no meio da praça.

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Obelisco egípcio trazido por Teodósio de Alexandria no séc IV d.C. para o centro da então Constantinopla. Foi originalmente erigido para o Faraó Tutmósis III por volta de 1450 a.C., no Alto Egito. E agora está aqui.
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Obelisco egípcio no centro histórico de Istambul.
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Entrada da Mesquita Azul.
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Homens lavam as mãos e os pés ao lado da mesquita antes de entrar.
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Interior da Mesquita Azul. Um grande vão atapetado e todo decorado. Só se entra descalços.
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O teto da Mesquita Azul no interior.

Dali eu fui assistir a uma breve palestra gratuita que estava ocorrendo sobre o Islã, onde até dei uma entrevista filmada ao palestrante sobre o que achei. Ainda ia me encontrar com a amiga da minha amiga de noite, e ainda muito por ver em Istambul. Este era só o primeiro dia.

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Continua em Istambul, Turquia (Parte 2): Rumelihisari e um café da manhã turco às margens do Estreito do Bósforo.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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