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Istambul, Turquia (Parte 2): Rumelihisari e um café da manhã turco às margens do Estreito do Bósforo

Hoje o dia prometia. Café da manhã turco às margens do Bósforo, visita ao bazar, lojas de doces, ida ao lado asiático da cidade para jantar, e show de rock turco no centro à noite. Um sábado de turco bon-vivant em Istambul, pelas áreas menos turísticas da cidade. Minha guia foi a amiga da minha amiga: Filiz, que encontrei ao fim daquele dia de turista na cidade (ver post anterior). Perguntei a ela se era a pronúncia correta era liz ou Filíz; ela respondeu que era algo entre um e outro. (Ao contrário do português, em muitas línguas simplesmente não existe sílaba tônica, e você tem de pronunciar tudo com a mesma entonação. Vivendo e aprendendo.)

Nosso dia começou com um dos melhores cafés da manhã da minha vida. Não só pela comida, mas também pelo ambiente. Estávamos na margem europeia do Estreito do Bósforo, um lugar chave para todos os mil anos da era bizantina e também para a conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453. Hoje, quase seiscentos anos depois, estávamos num calçadão sem sinal de turistas nesta manhã de sábado. Filiz me disse que turistas não sabiam de lugares como esse aonde ela iria me levar, no distrito de Beshiktash, no norte da cidade. Não era tarde, mas o local já estava bem cheio: um restaurante avarandado, bem aberto, com canteiros de flores e bastante gente conversando, todos turcos. Fomos ao segundo piso e, por sorte, achamos uma mesa vaga bem na beirada, com uma bela vista para o calçadão, a água, e a Ásia do outro lado.

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Calçadão à beira do lado europeu do Estreiro do Bósforo (do outro lado já é a Ásia). Vista da nossa mesa de café da manhã.

Filiz é boa de boca (estou me referindo ao sentido gastronômico), então solicitamos uma mesa cheia, um café da manhã turco completo. Nem coube na mesa, e parte teve que ficar sobre o parapeito, onde os pardais vieram nos visitar. O café da manhã turco é diferente, cheio de coisas interessantes, e você aprende a gostar. Eu nem precisei de aprendizado, foi amor à primeira vista.

À medida que as coisas iam chegando, íamos falando mal dos cafés da manhã mirrados da maior parte da Europa, normalmente restritos a uma xícara de café e algo doce (tipo pão com geleia). A maioria dos europeus fica arrepiada com a ideia comer algo mais substancioso de manhã. Por sorte, Filiz é do tipo de turca que faz questão de se distinguir dos europeus. Nós tínhamos: pimentões vermelhos cozidos com azeite de oliva, tomates cortados em rodelas, pão fino e chato, queijo branco, azeitonas pretas e verdes com especiarias, ovos mexidos, queijo assado, mostarda adocicada, e creme de nata no mel. (E gente me vem pra cá dizer que sucrilhos é café da manhã?!!). Tudo isso regado a muito chá preto no copinho de vidro bom de queimar a mão.

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A nossa mesa (detalhes mais abaixo).
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Queijo (parecido coalho) assado.
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Delicioso creme de natas (aqui chamado kaymak) no mel, pra comer com pão, queijo, ou puro.
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Filiz, eu, e o nosso felicíssimo café da manhã turco.

Para a vossa surpresa, não conseguimos terminar tudo. Mas sobrou pouco, basicamente da nata no mel e umas duas azeitonas. Os passarinhos nos ajudaram com o pão. Agora era hora de andar bastante para fazer a digestão. Filiz precisou fazer algo em outra parte da cidade, e eu fiquei por minha conta. Nos encontraríamos novamente ao fim do dia. Assim fui caminhando por aquela “orla”, vendo os turcos fazendo cooper, tomando sol com o cachorro, ou jogando gamão.

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Tiozões turcos jogando gamão. Esse jogo de tabuleiro (que eu conheço de nome mas nem sei como se joga) parecia ser mania nacional entre os turcos.
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O pessoal tomando sol na grama e, quiçá, preparando o churrasquinho.

Eu não pretendia fazer nada muito turístico hoje, mas você não simplesmente esbarra numa fortaleza de 500 anos e finge que não viu. Entrei. De quebra, deu pra fazer a digestão inteira e ainda queimar umas calorias daquela nata do café da manhã, pois haja escadas. Além da importância histórica disto aqui, você é recompensado com uma bela vista lá de cima.

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Fortaleza às margens do Estreito do Bósforo.
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Entrada para a fortaleza, de 1452.

Essa é a Fortaleza de Rumelhisari (às vezes escrito Rumel Hisari), determinante na Queda de Constantinopla pelas mãos dos turcos em 1453. Oferece excelentes vistas para o Estreito do Bósforo, mas prepare as pernas! 

Quero explicar o contexto histórico dela em 3 pontos.

(1) Rumel Hisari foi erigida pelos turcos já nos finalmentes da guerra contra os bizantinos, que tinham aqui (Constantinopla) a sua capital. O controle dos dois lados do estreito do Bósforo era crucial para impedir a chegada de reforços cristãos pelo mar — neste caso, vindos do norte, pelo Mar Negro (se você estiver geograficamente perdido, veja o mapa abaixo).

Em batalhas anteriores, os bizantinos já haviam usado uma grossa corrente de um lado ao outro para bloquear a passagem de navios inimigos e queimá-los com “fogo grego”, aquele coquetel incendiário que continuava a queimar mesmo em contato com a água ou sobre o mar (se você leu As Crônicas de Gelo e Fogo, que originou a série Game of Thrones, e achou parecido com a Batalha do Blackwater, saiba que o autor se inspirou aqui). Há especulações, mas a receita original dos bizantinos se perdeu.

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Mapa da região de Istambul, com as fronteiras de hoje.

(2) O Império Bizantino já havia decaído muito desde os idos de 1200, e sofrido inclusive com pilhagens dos cruzados cristãos ocidentais em suas passagens por aqui para ir brigar com os árabes na Palestina.

À época do cerco da cidade em 1453, os turcos otomanos já haviam conquistado grande parte do antigo território bizantino, tanto na Ásia quanto na Europa (como o que hoje são Sérvia, Bósnia, norte da Grécia e a Bulgária). Havia cristãos nas tropas turcas (ex. cavalaria sérvia) assim como turcos mercenário pagos pelos bizantinos. Então há certa nuance, não é tão preto-e-branco “cristãos contra muçulmanos” como alguns gostam de ver.

E, nisso daí, uma peça-chave foi um certo engenheiro húngaro chamado Orban. Ele confeccionou um canhão que, segundo ele, “derrubaria até as muralhas da Babilônia“. Quis vender para o imperador bizantino, que não tinha mais dinheiro, e ele então vendeu para os turcos. O canhão tinha até nome: Basilica, tinha mais de 8m e lançava balas de meia tonelada. Precisou de 60 bois para trazê-lo a Constantinopla e apontá-lo contra as então impenetráveis Muralhas de Teodósio, a única fachada da cidade não voltada para a água.

(3) O cerco turco a Constantinopla durou dois meses, comandado pelo Sultão Mehmet II, de apenas 21 anos, contra o último imperador bizantino, Constantino XI Palaiologos. Curiosamente, em maio de 1453, durante o cerco, muita gente não sabe mas aconteceu um eclipse quase total da lua, no qual esta ficou parcialmente coberta pela sombra da Terra — o que, segundo os astrônomos, pode dar à lua uma tonalidade avermelhada. Pronto. Foi o sinal profético que estava faltando. Ela foi entendida como uma “lua vermelha“, uma “lua de sangue“, e assim um presságio inédito para a queda também inédita.

A queda de Constantinopla significaria não só o fim de uma era greco-românica, mas também um susto para a Europa, que via cair o grande portão que segurava o avanço dos muçulmanos para ocidente. Artistas e intelectuais gregos fugiram da cidade e migraram sobretudo para a Itália, o que segundo alguns seria uma das causas do Renascimento. E, nos séculos seguintes, os turcos seguiriam avançando ainda mais a oeste, invadindo as atuais Romênia, Hungria e outros nos idos de 1500 e 1600, chegando até a sitiar Viena duas vezes. As marcas da presença turca por séculos governando os Bálcãs e quase todo o sudeste europeu são indeléveis, e podem ser percebidas na cultura, na arquitetura, na culinária, e inclusive na genética das pessoas nesses países.

A cidade continuaria sendo Constantinopla até 1930, quando foi rebatizada de “Istambul” na formação da República Turca, após a queda do Império Otomano.

E o meu dia ainda teria muito pela frente. Deixo vocês por ora com as fotos dessa fortaleza turca e das vistas do Bósforo lá de cima.

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Vista a partir da Fortaleza Rumelhisari. Do outro lado já é a Ásia.
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Vista para o Estreito do Bósforo.
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Alto da fortaleza. Na maior parte dos trechos não há parapeito algum, ou só de um lado. Então se beber, não suba.

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Continua em Istambul, Turquia (Parte 3): Perdendo-se nas ruas, no Grand Bazaar, e nos doces.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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