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Istambul, Turquia (Parte 3): Perdendo-se nas ruas, no Grand Bazaar, e nos doces turcos

Perder-se em Istambul é fundamental. E não é difícil. Basta meter-se nas inúmeras e infindáveis ruelas, que vão por aqui e por ali, e onde sempre tem gente. Como eu disse, esta cidade é um pouco como um formigueiro histórico, onde nunca se sabe quando se vai esbarrar numa torre bizantina, numa mesquita turca, ou mesmo em algo mais antigo. De quebra, há os interessantíssimos redutos mais populares, como os bazares, as casas de velharias, e as lojas de doces artesanais.

Um bom lugar pra se perder é Karakoy, um dos distritos mais antigos de Istambul. Entre 1273 e 1453 os italianos genoveses controlavam aqui uma cidadela, Gálata, encravada na cidade. A vizinhança se diversificou após a conquista turca, e passou a albergar uma grande quantidade de judeus fugidos da inquisição espanhola a partir de 1492.

Para chegar aqui, fui à Praça Taksim (centro dos protestos turcos em 2013) e desci todo o movimentadíssimo calçadão Istiklal, cheio de lojas, restaurantes e o que você imaginar. Dali, mais pra o final, qualquer rua lateral serve ao seu propósito de perder-se. Pra melhorar, várias das ruas são íngremes, o que adoça ainda mais a sensação de estar se metendo em algum esconderijo. Vasculhei muitas lojas, comprei livros que achei em inglês sobre a cidade, e achei até igreja cristã e outros brasileiros perdidos.

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Centro da Praça Taksim, coração de Istambul e local dos protestos de 2013.
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O movimentadíssimo calçadão de Istiklal. Junta ainda mais gente.
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Ruelas no bairro de Karakoy.
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Ruelas em Karakoy, cheias de lojinhas. Ótimas pra se perder.
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A Torre de Gálata, erigida pelos genoveses em 1348.

Dali você pode (se encontrar o caminho) chegar à Ponte de Gálata, que cruza não o Bósforo mas o chamado Chifre de Ouro (Corno de Ouro para os portugueses), um braço de mar que adentra o lado europeu e separa esta área comercial de Karakoy da outra área antigamente mais nobre (Sultanahmet), onde ficam a Hagia Sophia, a Mesquita Azul, e o Palácio Otomano Topkapi. É nesse Chifre de Ouro que ficava a esquadra bizantina.

Atravessada a ponte, você pode pegar um bonde elétrico que te leva aonde quiser. Meu plano era seguir nele até o famoso Grand Bazaar (altamente turístico), e de lá voltar caminhando até o porto, onde pegaria um ferry para reencontrar minha amiga Filiz do lado asiático da cidade, onde jantaríamos.

Tudo que você encontra no Grand Bazaar você pode encontrar mais barato fora dele“, preveniu-me uma outra turca amiga minha, antes de eu viajar. E é verdade, os preços lá são altos e o bazar é altamente turístico. Mas mesmo assim vale a pena dar uma conferida nele com os próprios olhos.

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Uma das muitas entradas do Grand Bazaar. Picado de gente. Sempre.
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Corredores do Grand Bazaar, sempre com turistas.

Como você deve imaginar, o Grand Bazaar é um enorme mercadão tradicional. Teve início em 1455, dois anos após a conquista da cidade pelos turcos. A princípio vendia têxteis, mas logo passou a acumular mercadorias vindas das várias partes dos Império Turco Otomano e do mundo. Hoje, o prédio continua tradicional, mas os preços em geral são altos e dirigidos ao público turista, que vem aqui em grande número. Pelas lojas você vê: louças, tapetes, roupas, mobílias, jóias, artigos em couro, e mais uma infinidade de coisas. O bazar é inclusive separado por departamentos. Ótimo de se perder entre eles e nunca mais achar a entrada por onde você veio. Entre os artigos mais característicos estão os narguilés (ou shisha), aqueles aparatos típicos árabes e turcos de fumar pela mangueirinha, com um filtro de água.

Mas afora o café e uma sobremesa de arroz meio vagabunda, eu só fiz uma compra. E foi uma compra disputada, com um cidadão que achou de achar que eu era árabe. Era uma loja de tecidos, almofadados, etc. Muito bonita. O vendedor me viu olhar e logo me cumprimentou em árabe (o velho e bom “Salamaleikum“). E falou mais alguma coisa em árabe que eu não entendi (mas que dá pra perceber que não é turco). Como meu árabe é praticamente zero, tive de quebrar o disfarce com um “Hi” bem inglês. Ao longo da próxima meia hora ficamos barganhando preço, uma atividade que pode ser divertida se você estiver de bom humor mas que pode ser irritante se você estiver sem paciência. Certa vez na Índia me disseram que uma barganha só é justa quando as duas partes saem insatisfeitas com o preço. Se for este o caso, a barganha então foi boa. Seja como for, consegui uma bela toalha de mesa.

Diz a lenda que nem sempre foi assim, que até o séc XIX a ética comercial entre os turcos era outra, regida sobretudo pelo islã, que combate a usura, a ganância, e promove uma mentalidade muito mais comunitária que de ganho individual. No entanto, hoje com a ética capitalista vá preparado para negociações bem interesseiras.

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O Grand Bazaar. Mais de 3.000 lojas em 61 corredores labirínticos que desafiam o seu senso de direção.
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Lojas mil.
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É um paraíso para os sacoleiros (lembrando aos meus leitores sacoleiros que geralmente sai mais barato comprar na rua que aqui).

Já eram meados da tarde quando deixei o Grand Bazaar e comecei a fazer o meu caminho de volta ao porto. Até pensei em pegar o bonde de volta, mas estava lotadíssimo (de turistas). Além disso, eu comecei a ver lojas interessantes no caminho e não resisti — sobretudo às lojas de doces. Essas lojas de doces tradicionais na Turquia são bem características. Deles os mais famosos são os Turkish delights (traduzido literalmente como “deleites turcos”, mas conhecidos em Portugal por “manjar turco”). São doces bem simples, feitos de goma e açúcar, às vezes com adicionais como nozes, pistache, côco, menta, ou caldo de alguma fruta como uva ou limão.

Já advirto que os industrializados vendidos em caixinhas são enjoativos, doces demais, feitos com xarope de glicose. Mas os feitos nessas lojas podem ser maravilhosos, e viciantes. Foram inventados por um doceiro turco no século XVIII, e no século XIX caíram no gosto da nobreza britânica quando um inglês veio aqui e levou um carregamento, dando o nome de “Turkish delight”. Daí espalhou-se pela aristocracia europeia como uma guloseima de luxo. (Você a vê citada, por exemplo, em Narnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, quando a rainha branca oferece o doce ao garoto Edmund no começo do filme).

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Loja de doces turcos, normalmente vendidos ao quilo. Os manjares são aqueles quadradinhos coloridos. Esses aqui mais abaixo (sucuk lokum) são feitos com suco de uva e nozes no interior. A textura parece a de um plástico, mas é uma delícia.
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Frutas secas e outros doces para além dos Turkish delights.

Nem vi a noite cair. Cheguei ao porto, e Filiz havia me dado as instruções do ferry a pegar para o lado asiático da cidade. O ferry aqui faz parte do transporte público, e há várias linhas. Pra onde é mesmo que eu tinha que ir? Kadikoy.

Quase confundo com Karakoy e vou pro lugar errado. Mas perguntando a um e a outro localizei o pier de onde meu ferry sairia. Havia ainda algum tempo a esperar, e ali eu me achei, mesclado aos turcos, circundado por vendedores de peixe assado na grelha, alguns bêbados aqui e ali, e toda sorte de gente pobre. Ao meu lado, um cidadão mantinha alguns coelhos brancos numa caixa de papelão sobre um banquinho de madeira. Depois me explicaram tem a ver com a sorte; você paga ao homem e o coelho mordisca um papelzinho com uma mensagem pra você. Lamentável a situação, tanto dos coelhos quanto do homem.

Meu ferry chegou. Embarco com o povão no que é um chão de madeira e umas “salas” cobertas cheias de cadeiras de plástico: uma no nível principal e outra igual no andar de cima. O cheiro de fumaça do motor do barco se espalha, mas não é o fim do mundo. Uma correntinha fecha a entrada\saída, supostamente para impedir que você caia na água. É horário de retorno do trabalho, então o ferry vai cheio. Fui em pé, como num metrô lotado, segurando em alguma barra de ferro que passava no teto. O chão molhado convidava algum desatento a escorregar. Mas a vista valia a pena: luzes refletidas no mar, a Hagia Sophia à noite e os minaretes iluminados.

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O homem e seus coelhos.
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Hagia Sophia à noite.
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Luzes nos minaretes e nas lojas do cais.

Meia hora depois chegamos ao bairro de Kadikoy, no lado asiático, onde Filiz me esperava. Aqui quase não há turistas também, mas os turcos são tantos que nem haveria espaço mesmo. Caminhamos por umas ruas estreitas, com barracas bem arrumadinhas de frutas, verduras e peixe dos dois lados. Toda sorte de comida. Os balcões dos restaurantes ficavam praticamente na rua. Os barraqueiros e o movimento faziam parecer que era sábado de manhã na feira, só que à noite.

Depois de um pouco circular, achamos um restaurante. Quase não havia lugar vago. Era um buffet, e as opções davam água na boca. Aqui na Turquia os pratos são bonitos, coloridos e chamativos. E ao contrário do que eu imaginei, a vida foi fácil para um vegetariano. A seleção de doces também era invejável, a ponto de você ficar naquele dilema (ou trilema) acerca de que sobremesa pedir. Filiz, no entanto, foi categórica: “A gente pede todos os que você quiser e, se sobrar, sobrou.” Como eu disse no post anterior, ela é boa de boca. E, por sorte, não era caro, então pedimos 3 sobremesas pra dividir. Foi outra refeição maravilhosa.

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Entre pimentões recheados com arroz temperado no azeite, verduras no creme, e legumes em molhos fortes. Allah!

A sobremesa incluiu o “pudim arca de Noé” (com avelãs, nozes, amêndoas, passas, e basicamente um pouco de tudo, como o nome sugere); uma forma de halva (um cuscuzinho de semolina com amêndoas); e um maravilhoso doce de abóbora. Uma perdição. Ou melhor, três perdições.

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Dali ainda iríamos a um show de rock turco no centro. A noite era uma criança, e uma criança nada perdida.

Continua em Istambul, Turquia (Parte 4): O Palácio Topkapi, morada dos sultões otomanos.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Istambul, Turquia (Parte 3): Perdendo-se nas ruas, no Grand Bazaar, e nos doces turcos

  1. Bom dia,Mairon.Primeiramente quero te dar os parabens pelo seu blog .Desde que o conheci fiquei viciado,hehehe.Sensacionais os seus relatos unindo história com a sua vivencia pessoal nos destinos.Estou querendo fazer minha primeira viagem internacional com minha esposa e fiquei meio cimado com a Turquia ultimamente.Você tem o roteiro com hoteis ,nomes de restaurantes e se possível vc poderia compartilhá-lo comigo.Estou entrando em contato com uma agencia que atende brasileiros e que faz passeios na capadócia,mas queria mais informações tambem de Istambul.Obrigado e continue firme com esse blog maravilhoso.

    1. Muito obrigado, Flavio! Eu fico contente que você esteja gostando.

      Sobre Istambul, é realmente uma cidade maravilhosa, uma das minhas favoritas no mundo. Em matéria de restaurantes, também, é uma cidade onde você facilmente encontra de tudo. Eu vou lhe ser franco em dizer que não me lembro dos nomes dos restaurantes aonde fui, e que nunca me hospedei em hoteis por lá (fiquei sempre com amigos), mas lhe adianto que você não terá dificuldades nem num quesito nem no outro. Restaurantes de comida turca estão por toda parte, e quanto a hotéis, o segredo é ficar no lado europeu da cidade, e de preferência entre as vizinhanças de Besiktas e Sultanahmet. Istambul tem um bom transporte coletivo, especialmente no centro onde há bondes elétricos, mas o delicioso em Istambul mesmo é andar a pé. Se seu hotel for muito longe e você precisar se deslocar muito no metrô ou tomar táxi, pode lhe custar muito tempo, porque a cidade é muito vasta e engarrafa. Então basta ficar centralizado.

      Se tiver mais alguma dúvida, estou à disposição!

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