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Istambul, Turquia (Parte 4): O Palácio Topkapi, morada dos sultões otomanos

A minha estadia em Istambul estava chegando ao fim. Mas não eu podia partir sem saber mais do sultão, seu harém, e descobrir aqui relíquias bíblicas que eu nem imaginei que ainda existissem (se é que existem mesmo e esses turcos não estão me enrolando).

O último dia da minha estadia em Istambul começou tarde. O show de rock turco no dia anterior foi uma beleza, e eu fiquei impressionado de ver (1) como parece o Brasil e (2) a quantidade de gente na rua mesmo às 3h da manhã, quando estávamos retornando. Parecia carnaval, por mais que fosse só um final de semana comum. Claramente, Istambul é mais segura que as metrópoles brasileiras. E os táxis também são bem mais baratos.

Meu café, já no final da manhã, não teve café. Foi um chá preto com limão (sempre naquele copinho de vidro bom de queimar a mão) e mais umas coisinhas genéricas de patisseria, no Smit Sarayi perto da casa da minha amiga Filiz, onde estávamos. Dali eu faria sozinho o meu caminho para o centro e de lá para Sultanahmet, o distrito onde estão as maiores atrações históricas — o mesmo onde ficam a Hagia Sophia, a Cisterna da Basílica e a Mesquita Azul, retratadas nos posts anteriores. É lá também que fica o Palácio Topkapi, de onde governavam os sultões turcos. (Mas não caia na besteira de achar que consegue ver todas essas atrações em um só dia; o palácio sozinho já toma quase uma tarde).

Uma tarde era o que eu tinha, então almocei por ali mesmo (há vários restaurantes buffet na região, e o preço não é alto demais) e entrei.

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Meu café da manhã com Filiz. Chá preto com limão e pães típicos turcos.
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Portal de entrada externo para adentrar o Palácio Topkapi,
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A entrada interna, com novas muralhas.

Diferentemente de outros países onde a monarquia se manteve simbolicamente (ex. Holanda, Reino Unido, Suécia) ou efetivamente (ex. Arábia Saudita, Marrocos, Emirados Árabes), na Turquia ela foi completamente abolida. Após a Primeira Guerra Mundial o império caiu e se formou uma república. Portanto, o Palácio Topkapi hoje é um museu, não mais habitado mas ainda guardando muitas relíquias e tesouros daquela época.

O palácio foi inaugurado em 1465, logo depois da conquista de Constantinopla, e serviu de trono para os sultões turcos até 1856, quando o sultão da época optou por um outro palácio mais ao estilo europeu (o Dolmabahçe). Você bastante tempo por jardins até chegar ao palácio propriamente dito, que na verdade é espalhado por vários prédios menores, em vez de ser tudo concentrado numa construção só. Há varandas, água correndo, mirantes, etc.

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Áreas abertas no Palácio Topkapi.
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Varanda com vista para o Estreito do Bósforo.
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O sol nas varandas e jardins.
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Jardins do palácio.

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Áreas abertas no Palácio Topkapi, com vista para a cidade.

As saletas pra você entrar são inúmeras dentro desse complexo, embora nem todas elas estejam acessíveis ao público. Os interiores são um banho de arte islâmica, com os azulejos e seus motivos florais (de onde Portugal e, em seguida, nós adquirimos o hábito), caligrafia árabe, pátios internos e cômodos atapetados.

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Corredores internos decorados.
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Pia no interior decorada com ouro. Paredes todas revestidas com azulejos em motivos florais.
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Pátios internos e muitas janelas para manter os cômodos arejados.
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Interior atapetado, e mais decoração nas paredes e janelas.

Uma área particularmente interessante é o harém. Lá morava a mãe do sultão. É isso mesmo. O harém não era puteiro, mas sim a residência da família real. O tchan que o difere das residências reais europeias é que havia várias esposas (o islã permite até quatro) e um sem-número de concubinas. São centenas de cômodos, tais como banhos, aposentos individuais, salas coletivas, além de varandas fechadas.

Tudo era guardado e administrado pelos famosos eunucos negros, trazidos ainda meninos (e já cortados) da Abissínia e da Núbia (hoje Etiópia e Sudão). Esses escravos eram tradicionalmente castrados por clérigos cristãos coptas aos oito anos, e perdiam tanto os testículos quanto o pênis, que era substituído por um bambu (me dá agonia só de escrever isso).


Esses eunucos negros trazidos a Constantinopla, contudo, podiam se tornar ricos e respeitados. O eunuco chefe, em especial, tinha uma função política ativa dentro do palácio. Era ele que governava o harem, e era um dos assessores principais do sultão. Mantinha uma rede de espiões e estava frequentemente envolvido nas intrigas internas. (Se você que assiste Game of Thrones ou lê As Crônicas de Gelo e Fogo achou parecido com o caso de Varys, o eunuco estrangeiro de Westeros, a semelhança certamente não é mera coincidência).

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Reprodução nos aposentos da mãe do sultão.
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A famosa sala das frutas, pelas ilustrações nas paredes.
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Salão do trono do sultão na área do harém.

Por fim, a parte que mais me impressionou. Há várias salas com exposições de robes chiques, túnicas com ouro, jóias da coroa etc — o habitual de qualquer palácio real que você vá visitar aqui ou na Europa. Aqui, contudo, há uma impressionante coleção de relíquias sagradas bíblicas, tão impressionante que eu não fiquei completamente convencido de que são autênticas. Mas quem sou eu pra julgar. (Bem, alguém que sabe que as pessoas, sobretudo os governos, são mais do que capazes de inventar tais coisas pra aumentar seu poder e influência).


Seja como for, vamos ver o que você acha. Aqui estão em exposição: um dente que Maomé perdeu em batalha no século VII; fios da barba do profeta; uma pegada sua em barro endurecido; armas suas e uma espada de Abu Bakr (um dos companheiros mais próximos de Maomé), e mais algumas outras relíquias especificamente islâmicas. Dessas eu não duvido. Agora continuemos: o cajado de Moisés (sim, aquele do Antigo Testamento, que abriu o Mar Vermelho, recebeu os 10 Mandamentos, etc.); o turbante de José (não o padrasto de Jesus, mas o filho de Jacó, da época dos judeus no Egito); e a espada de Davi, o que lutou contra Golias e se tornou Rei de Israel na Bíblia. Perto dali, um sacerdote lê sentado o Alcorão continuamente, para todos ouvirem. Infelizmente, não é possível tirar fotos dessa seção, então você vai ter que vir pessoalmente aqui a Istambul se quiser vê-las.


Acreditar ou não fica a seu critério. A explicação oficial é que pelos idos de 1500 os turcos otomanos haviam conquistado os vários reinos árabes e assim herdado (ou melhor, tomado) essas relíquias. No entanto, há um grande “buraco” na História, que não diz como os árabes supostamente obtiveram relíquias de milênios antes, de personagens cujos registros históricos são tão escassos, como Moisés ou Davi.

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Retrato pintado de Suleiman, o Magnífico, um dos sultões turcos mais importantes. Comandou o apogeu do Império Turco Otomano entre 1520 e 1566, com conquistas no Oriente Médio, norte da África até a Argélia, e da Hungria, chegando mesmo a atacar Viena, na Áustria. Era também poeta, ourives, e falava cinco idiomas. Quebrando a tradição, casou-se com uma concubina cristã, Roxelana, com quem teve o filho herdeiro, Selim II, que o sucederia após a sua morte.

A tarde já estava no fim quando terminei a visita. Dali ainda voltei ao centro, jantei com Filiz, e com a ajuda dela comprei uma passagem de ônibus para a Bulgária para o dia seguinte. Dali até a cidade de Plovdiv, no leste búlgaro, não eram mais do que 6 horas. Eu sairia de manhã e chegaria lá ainda à tarde. Levaria comigo as lembranças desta cidade maravilhosa e de ótimos dias. Pessoas muito parecidas com as do Brasil, e uma nação rica de história, beleza, musicalidade, e — mais do que eu imaginava — gastronomia. Era hora de me despedir deste e zarpar para mais um outro país.


Até a próxima, Istambul!

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(Eu daqui segui para Plovdiv, na Bulgária.)

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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