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Chegando a Plovdiv, no leste da Bulgária

Estamos na segunda maior cidade da Bulgária (atrás apenas da capital, Sófia). Seis a sete horas separam Istambul daqui.

Eu não acho que muitos brasileiros façam esse trajeto. Ao que turcos, búlgaros, e turistas europeus e norte-americanos passaram rapidamente pela imigração terrestre, eu fiquei para trás com os policiais — que pareciam nunca terem visto um passaporte brasileiro. Checavam no sistema se havia mesmo isenção de visto (como há). Basicamente, todos descem do ônibus e passam a pé por um portãozinho lateral e por uma saleta onde os passaportes são inspecionados.

Uns 10 minutos depois, me liberaram. Logo antes de cruzar a fronteira, eu havia gasto  as minhas últimas liras turcas comprando um pacote de batata Pringles num enorme shopping vazio onde havia mais funcionários que clientes. Um deserto de concreto, onde as bandeiras da Turquia, da Bulgária e da União Europeia balançavam hasteadas. Agora era hora de conseguir alguns levs búlgaros (a moeda) e conhecer um novo país.

Em Plovdiv me esperava Romina, uma amiga búlgara. Mas antes mesmo de chegar à cidade você já vê a transição na paisagem humana. A Bulgária é um país bastante simples e relativamente pobre para os padrões europeus. Ela passou a fazer parte da União Europeia em 2007, mas ainda é vista como uma “prima pobre” na Europa.

Da janela do ônibus eu via muitas casas humildes, alguns carros velhos, e uns descampados agrícolas. Para efeitos comparativos, aqui parece haver mais ou menos o mesmo nível de infraestrutura do Brasil. Ou seja, não é uma zona como a Índia, mas também não se compara à arrumação de países ricos como a Holanda ou a Alemanha. A Bulgária é, como em geral nos países do leste europeu, arrumadinha, mas com calçadas quebradas ali, umas casas abandonadas aqui, e pessoas de jeito em geral modesto, diferente do jeito cheio-de-si que a gente vê nos países ricos.

Em Plovdiv, a rodoviária era modesta. Umas bodegas aqui e ali, barraquinha com cara de ponto de ônibus, e pátio de cimento. O tempo estava friozinho, com o outono já querendo se instalar neste outubro, e alguns meninos agasalhados corriam lá e cá. Eu, doido pra ir no banheiro (já que os ônibus turcos não têm banheiro) mas sem dinheiro búlgaro pra pagar o da rodoviária, aguardava Romina andando pra lá e pra cá como os meninos.

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O deserto de concreto do lado turco da fronteira, com o shopping center quase vazio logo ali. Hasteadas, a bandeira turca em vermelho à direita, a azul da União Europeia à esquerda, e junto dessa a da Bulgária, em listras horizontais de verde, vermelho e branco.
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Rua em Plovdiv. Jeito do Brasil? Na placa a escrita búlgara, que usa o alfabeto cirílico (o mesmo do russo).
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Banquinha de frutas na calçada.
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Fim de tarde em Plovdiv.

Basicamente não havia Plano B caso Romina não aparecesse. Mas tínhamos contato por celular, e após uns 20 minutos de espera ela deu as caras, com Buágo (o namorado) e Nadia, uma amiga.

Eu não estava lá com muita fome, mas fomos comer. A culinária búlgara, eu logo descobriria, é uma culinária de caminhoneiro. Fígado de porco, coração de boi, língua, tripa, sopa de estômago… Haja estômago. Me falaram que eu deveria experimentar tarator, uma sopa fria com iogurte e pepino. Foi a minha felicidade. “Pronto. Vou ficar só com a sopinha mesmo. Não estou com muita fome“, disse eu. “Mas a sopa é pra beber“, me retrucaram, “E pra comer?“.

A culinária búlgara, eu logo descobriria, é uma culinária de caminhoneiro. Fígado de porco, coração de boi, língua, tripa, sopa de estômago…

A sopa veio naquelas canecas de vidro grosso, de cerveja. Não é terrível, mas, bem, é meio litro de coalhada com sal e pedaços de pepino dentro. Os últimos goles foram literalmente de arrepiar. Já imaginando o que viria ser, eu pedi junto um suco de laranja pra rebater. O pessoal ainda pediu churrasco no espeto com cebola, limão e tomate, e eu achei um risoto de ervilha na manteiga, que não estava mau.

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Nós tomando sopa de iogurte na caneca de cerveja. Um brinde ao descobrimento da Bulgária.
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Churrasquinho com cebola, limão e tomate pro pessoal. Minha caneca de sopa terminada. Pauleira.

O ambiente era agradável. O restaurante tocava músicas americanas dos anos 80 e, por algum motivo, acho que metade de todo o repertório foram músicas de Michael Jackson.

Fora dali já escurecia, mas ainda fomos dar uma andada pelo centro histórico de Plovdiv, muito bonitinho. Ali você deixa as ruas com ar de Brasil e os prédios com ares velhos e comunistas, e passa a uma época histórica da Bulgária dos séculos XVIII e XIX, época do ressurgimento da cultura nacional da Bulgária, que passou cerca de 500 anos sob domínio do Império Turco Otomano. (Você aí consegue imaginar o que são 500 anos de dominação estrangeira? Eu acho que qualquer sonho de independência passa a ser encarado como utopia. Que bom que alguns acreditaram).

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Ruelas no centro histórico de Plovdiv.
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Muretas e torres antigas no centro histórico de Plovdiv.
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Vista da parte antiga da cidade.

Plovdiv, na verdade, é a cidade mais antiga sendo continuamente habitada de toda a Europa. São de 6000 a.C. os primeiros vestígios daqui, da antiga Trácia. Em 342 a.C. ela foi conquistada por Filipe II da Macedônia (pai de Alexandre o Grande), que a nomeou Philippopolis. Os trácios a reconquistaram e adaptadam o nome para Pulpudeva, origem do nome atual. Em seguida esta cidade se tornou uma colônia romana, que devido às colinas foi rebatizada de Trimontium (se fosse em Minas Gerais, seria “Trêsmontes”, pra fazer companhia a Sete Lagoas).

Por aqui passava a Via Militaris, a estrada romana de quase 1000km que ligava Singidunum (atual Belgrado, capital da Sérvia) a várias outras cidades dos Bálcãs até Bizâncio (que viria a se tornar Constantinopla e depois Istambul). Aqui na década de 1970 acharam durante uma escavação um anfiteatro romano que segue muito bem preservado. Hoje ele é palco de espetáculos.

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Ruínas de um anfiteatro romano em Plovdiv.

Passado o período romano, os povos eslavos colonizaram esta região e Plovdiv ficou trocando de mãos entre os búlgaros e os bizantinos, até a região ser conquistada pelos turcos em 1364.

Somente em 1878, após mais de 500 anos, os turcos foram expulsos. Tenham em mente que durante esse meio milênio de dominação turco-otomana na região as pessoas não ficavam confinadas em fronteiras com base em sua etnia. Havia gregos, turcos e búlgaros por toda parte, e muitas vezes misturados. Hoje, se você fala com alguém daqui, quase sempre há um “Ah, eu sou turca mas meu avô era búlgaro“, ou “Minha família é turca mas vivia na Grécia“, etc. Só durante as guerras de independência do século XIX é que houve uma migração geral, temendo represálias, e foi cada um pra onde estão hoje.


Mas chega de história, pois já era de noite e ainda tínhamos uma jornada de algumas horas para fazer de carro até Sófia, a capital, onde um quarto de albergue estava reservado pra mim.


Quando eu cheguei lá o centro da cidade, onde eu ficaria, já estava quieto. Num beco de uma praça, meu albergue, naquela porta marrom ali à esquerda, em frente ao sex shop. Puro glamour.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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