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O Reino de Lesoto, sul da África

Waka waka, é a vez da África!

Direto o Reino de Lesoto, um país independente encravado na África do Sul, e de difícil acesso a brasileiros, pois não há sequer embaixada dele no Brasil pra tirar visto. Normalmente é preciso mandar o passaporte a Washington D.C. nos Estados Unidos, ou tirar o visto em trânsito na África do Sul. Mas consegui um “atalho”, já que fui a um evento com gente do governo de lá.


Provavelmente como você, eu pouco sabia de Lesoto. Fui ler a respeito e comecei com belas perspectivas: malas se perdem com frequência no aeroporto, e não há balcão de reclamações. Arranje translado antecipadamente, pois não há ponto de táxi. E a incidência de AIDS é de 23%, uma das maiores do mundo, chegando a 50% entre mulheres jovens na área urbana — portanto, nada de gracinhas.


Minha viagem começou com voos peculiares. No primeiro, de Salvador a São Paulo, a GOL me pôs na poltrona 13A, e qual foi a minha surpresa ao ver que a fileira de número 13 não existe.

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Sem fileira de número 13 no vol da GOL. Justo a minha. Até onde chega a superstição das pessoas…

A comissária ficou confusa, e me disse que escolhesse qualquer outro assento. Por sorte o voo não estava cheio.

De São Paulo mais um voo, a Johannesburgo na África do Sul. Nesse, pouco depois de decolar, o piloto nos agracia com declarações suspeitas: “Eu quero avisar a todos que este será meu último voo, agradecer por tudo que passei, e se preparem pois amanhã terão uma surpresa ao chegar“. ???. Você fica com aquela cara de “hã?”. Adeus mundo cruel?

No fim das contas, ele estava se aposentando. Ao chegar, carros de bombeiro lançaram jatos d’água formando um arco para o avião passar por baixo, após aterrissar. Foi bonito, e o piloto estava bem emocionado. Por sorte, continuávamos todos no mundo cruel.

Em Johanesburgo eu aguardaria minha breve conexão para o aeroporto (de mosca) de Maseru, a capital do pequeno país de Lesoto. Lá você já ganha um breve sabor das cores e belezas naturais e humanas da África, mas também do seu temível serviço leeeeento para além do que se pode acreditar. É de se benzer com a mão esquerda, como diria a minha avó.

Não há muita cultura de eficiência e presteza no atendimento ao cliente: você vê os atendentes no maior papo dentro da loja, sem nem olhar para você, e quando te atendem tudo leva uma eternidade. Trocar dinheiro (para a moeda sul-africana, que é aceita em Lesoto) me custou inacreditáveis 30 minutos. A mulher tem que fotocopiar seu cartão de embarque… ops! a cópia não ficou boa, deixa eu tirar outra. Preencher um formulário com os dados do seu passaporte, procurar na gaveta as moedinhas pra te dar a quantia exata… E seu olho não sai do relógio, vendo a hora de o seu portão de embarque fechar.

E fechou. Subiu-me aquele frio na espinha quando sai do balcão de câmbio, olhei “Maseru” no visor e vi “Gate closed” em vermelho. Corri feito um condenado. Ao chegar no portão, a menina ainda estava lá, e o ônibus que levaria as pessoas ao avião não havia saído. “Maseru?”, ela me interpelou. E eu já falando descoordenadamente que pelamordejesuscristo ela me deixasse entrar. Deixou, com um olhar meio impassível, e eu embarquei.

Meia-hora só de voo separam Johannesburgo de Maseru. A bordo, quase todos africanos, alguns aparentemente pouco acostumados a viajar de avião. Um me perguntou onde era o banheiro.

Do alto, você vê a paisagem seca mas bela de Lesoto. Lembra talvez a imagem que temos do Arizona ou do Colorado.

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Vista aérea de Lesoto, da janela do avião. Cadê o verde?
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Vista já no pátio de pouso. Tudo parecia desértico e quieto.

No aeroporto, nada além da nossa aeronave. À entrada, uma faixa celebrava os 50 anos de Sua Majestade, o rei.

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Caminho da aeronave ao saguão onde pegar as malas, no aeroporto de Maseru, em Lesoto.

Dali pegamos o carro do evento, que veio nos buscar, e fomos levados até o hotel. No caminho, você vê as penúrias e desigualdades da África. De um lado, hoteis chiques e repletos de funcionários prontos a te tratar com sir pra cá e sir pra lá. Do outro, a simples pobreza da maioria que não tem acesso às riquezas do país.

À beira da pista viam-se vacas, meninos correndo, jovens agasalhados (pois é inverno e aqui o termômetro pode chegar abaixo de zero), e casas simples construídas de forma meio que espalhada pelo terreno, quando não barracos.

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Arredores da capital de Lesoto.
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Beira de pista, perto de Maseru.

Qual foi a minha surpresa ao, de repente, avistar algo familiar, do Brasil. Uma organização brasileira que parece que se sente particularmente atraída por áreas pobres e de gente necessitada.

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A Igreja Universal marcando presença em Lesoto.
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Visão geral do ambiente, já na capital Maseru.
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E, pra contrastar, o hotel onde ficamos e onde o evento se realizou.

Durante os dias seguintes tivemos uma agenda cheia de eventos dentro do hotel e, lá no fim, finalmente uma “saída de campo”. As ruas não são tão perigosas quanto na África do Sul, mas também não são nenhum paraíso da segurança. Muito menos quando você é obviamente turista. De todo modo, há relativamente pouco a se ver na cidade. As maiores atrações são as trilhas pelas colinas e montanhas. Mas antes de falar da breve trilha que fiz num sítio histórico, deixem-me contar um pouco da experiência do dia-dia.

A África parece ter a morosidade do Brasil, mas sem a sagacidade do jeitinho brasileiro. Minha primeira impressão foi de, no geral, bastante apatia social — certamente herdada do colonialismo europeu e mantida pelas estruturas desiguais em que só uns mandam e nada se resolve. Há calor humano, mas os lesotenses não são tão soltos e confiantes quanto os brasileiros. Muitos são sisudos e te olham com certa suspeita. Não ache que vai encontrar aqui entre estranhos aquele mesmo sorriso aberto de um carioca boa-praça ou de um baiano. Cuidado com o estereótipo do africano que, quando não está passando fome, está de sorrisão feliz-da-vida. Não é assim.

Por outro lado, ver africanos dançarem me deu uma nova dimensão do que é espontaneidade. Se para alguns a dança é um show, um espetáculo milimetricamente planejado como em muitas partes da Ásia, aqui é o contrário: deixa a música correr e se solta. Há as danças cerimoniais, mas, no geral, valem todos os movimentos: é um requebrado de joelho, de ombros… e como fazem isso bem. Parecem nessa hora esquecer completamente as mazelas sociais e nem de longe se preocupar com quem está olhando.

No lado gastronômico, como turista dá trabalho achar comida genuinamente africana. Os hoteis veem as comidas do povo como pouco sofisticadas, e em geral oferecem buffets internacionais que não são maus, mas não têm identidade nem personalidade cultural alguma. Cenoura cozida, frango assado, peixe à milanesa, salada de tomate, mousse de chocolate mal feito … dã? Comemos as mesmas coisas a semana toda, e ao terceiro dia você já está doido. Da comida local mesmo, sobre a qual me informei com algumas pessoas de lá, eu só pude experimentar pouca coisa, basicamente um misturão de trigo com feijão (meio papinha), e um pirão de milho branco que não tem gosto mas dá sustança. Definitivamente não entraram para o rol de Melhores Comidas Que Eu Já Provei, mas gostei de ter tido a experiência.

Por fim, como você deve imaginar, a infraestrutura é precária. Internet é quase como nos anos 90: há limite de transferência de dados. Dá pra ler e-mails e talz, mas anexar arquivos é um horror. YouTube nem pensar. Há mais de um shopping na capital, mas lembram aqueles shoppings de classe média baixa de centro de cidade no Brasil. E mais da metade da população vive abaixo da linha da pobreza, então o acesso é pra poucos. Na maior parte do país não há nem mesmo ruas pavimentadas ou quadras, só pistas (para os ricos se deslocarem em seus carros importados do aeroporto ao hotel, e aos campos de golfe) serpenteando pelo terreno, com casas pobres aqui e ali, lembrando a zona rural do Nordeste.

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Interior de um shopping em Maseru.
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Crianças atravessam pista nos arredores da capital.

Foi perto desse lugar que fizemos uma breve trilha histórica por onde o Reino de Lesoto nasceu. Há uma meseta (planalto no topo de um elevado) onde, reza a lenda, o Rei Mushoeshoe (lê-se muxoxo) do povo Basoto se estabeleceu e de lá rechaçou várias tentativas de invasão, tanto de europeus quanto de reinos africanos vizinhos, como o de Shaka Zulu.

De lá rolavam pedras, atiravam lanças, e não havia quem subisse. Reza a lenda que, no princípio do século XIX, quando Mushoeshoe se estabeleceu, pediu a um feiticeiro que protegesse o lugar. As pessoas subindo teriam a sensação de que o topo nunca chega (e eu confirmo que é verdade).

A subida no local não chega a ser um alpinismo mas requer um bom fôlego.

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Subida para a meseta onde Mushoshoe fundou o Reino de Lesoto.
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A vista do meio do caminho.
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Lá em cima com uma colega do evento.
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Sozinho no descampado da meseta, lá no alto. Nem parece que você está num elevado.
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A solitude durou pouco. Foi só me verem e a galera local veio zoar na foto.

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Aqui tudo é seco. Das três palavras-lema do país (como o “Ordem e Progresso” do Brasil), uma é chuva. A previsão é que fique ainda pior com a Mudança Climática Global. Apesar disso, algumas flores insistem em nascer, como na foto inicial do post.

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Junto ao túmulo do Rei Mushoeshoe II, lá no alto. Apesar da resistência, Lesoto acabou se tornando “protetorado” …cof, cof… britânico, daí não havia mais reis. Só em 1966 a independência foi reconquistada. Atualmente temos o Rei Mushoeshoe III no poder.

Na festa de encerramento, tivemos um belo jantar cultural. O garçom se chamava “Prosa”, o câmera era caolho, e no cerimonial tivemos um belo coral de jovens semi-nuas, cantando de top-less. Enquanto o olhar insistia em se fixar em certas partes, os ouvidos apreciavam bela música. Era tipo um coral natalino só que com um figurino diferente. Além das jovens, havia homens atrás envelopados em panos grossos de lã ou pêlo de cabra, típicos da região. Cantavam todos em bela harmonia, melhores até que alguns corais que já vi na Europa.

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Coral em Lesoto. Homens em tecidos de lã, e garotas em trajes mais leves. As de top-less completo estão mais para o lado.
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Eu na malandragem, hoje fazendo o estilo sambista da Mangueira.

No todo, uma curiosa primeira experiência no continente africano. Esse foi um, agora faltam outros 53 países. Espero que outras oportunidades venham logo.


BREVE EPÍLOGO

De quebra, eu pude sentir também um gostinho rápido da África do Sul. A razão? Perdi o voo.

Saímos atrasados de Maseru, e acho que nem Usain Bolt chegaria a tempo no portão do embarque de Johannesburgo para o Brasil. “We have to rrrun“, me disse a moça da companhia ao desembarcarmos, com aquele sotaque sul-africano vibrado no R como os italianos. Uma jovem negra e magra com seus 1,75m, e, além de mim, três tios com outros voos. Quem disse que eu competia com a mulher? Ao menos não com uma mochila de 8kg nas costas e um casaco me esquentando e atrapalhando ao passar por obstáculos básicos como a imigração e o detector de metais — todos furando fila, é claro.

Mas não teve outra, quando alcançamos o portão já estava fechado. Os tios ficaram pra trás ainda no princípio do trajeto. Ficamos eu e Leratu (a moça) aguardando a bagagem retornar, e a companhia me colocou no voo do dia seguinte. Um belo hotel, com mais comida-de-buffet-nada-a-ver-com-a-África, mas confortável. E uma escapada ao chocante Museu do Apartheid, que recomendo a todos.

Mas a África do Sul fica pra quando eu tiver a chance de passar mais um tempo lá. Breve, bem em breve.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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