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Bulgária medieval: Indo à capital histórica Veliko Tarnovo

Bem vindos a Veliko Tarnovo, a antiga capital do Segundo Império Búlgaro (1185-1396). Boa pra quem curte História e que vem à Europa querendo ver coisas da Idade Média e cidadezinhas de visual mais tradicional. Menor, mais bonita e mais aconchegante que Sófia, e visita indispensável na minha opinião. É cheia de ruas com casas tradicionais da arquitetura búlgara, tem castelo a visitar, e de quebra uma paisagem deslumbrante.

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Vista de Veliko Tarnovo do alto.

Não eram ainda 6h da manhã quando acordei na casa dos novos amigos que me albergaram. Saí à francesa. O mau de dormir na sala é que nunca dá pra se retirar enquanto a folia não acaba. Na noite anterior ficamos de papo até altas horas, e como resultado não dormi muito, mas as 3:30h de viagem de ônibus de Sófia a Veliko Tarnovo me ajudariam a tirar o atraso. Deixei os donos dormindo e fui ao ponto do bonde, de onde partia a linha para a rodoviária.


No caminho, depois de uns 20 minutos, aquela sensação maravilhosa de: peraê, qual será o ponto da rodoviária? Aquela deliciosa onda de pânico me subiu, achando eu podia já ter passado da parada. O jeito foi achar alguém que falasse inglês e perguntar. Por sorte consegui. Parei a alguma distância, mas de lá deu pra ir a pé, e cheguei à rodoviária a não mais que 15 minutos da saída do meu ônibus. Pra coroar, a atendente era super devagar, e ficava de papo no telefone. (Se você acha que isso só ocorre no Brasil, saiba que está re-don-da-mente enganado). Alguém atrás de mim chegou até a me pedir pra passar na frente, pois ia pegar o ônibus das 8. “Eu estou no mesmo, minha senhora”.  


Mas por sorte conseguimos, embora não sem aquela adrenalina acompanhada da vontade de meter a mão na atendente. Os ônibus são razoavelmente confortáveis, como no Brasil. As estradas também não são más, e você vai passando por tanto por áreas de agricultura quanto de matas e colinas. Antes do meio-dia, estávamos em Veliko Tarnovo.


Meus amigos haviam me advertido que a cidade pode ser meio confusa (me contaram um negócio de que não há direita e esquerda, mas sim pra cima e baixo, ???), mas por sorte havia um Centro de Informação Turística logo perto de onde eu desci. Não demoraria a entender o cima e baixo. Como se pode supor pela foto acima, a cidade é cheia de sobes e desces. É claro que há direita e esquerda, mas o que ocorre é que muitas bifurcações de ruas são em um seguimento que sobe e outro que desce.

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Sobes e desces em Veliko Tarnovo.

Essa vai pela parte antiga da cidade, que precisei atravessar quase que inteira até chegar no albergue. Ruas estreitas, casario bonito, e por algum motivo bandeiras da Bulgária por toda parte.

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Avenida central em Veliko Tarnovo.
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Vista do alto com o Rio Yantra margeando. Não parece mesmo cenário medieval?
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Rua com as casa de um lado e o vale com o rio do outro.
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Janelas decoradas com floreiras e bandeiras.

Algo curioso, que parece ser tradicional na Bulgária, é colar notas de falecimento na rua. Já havia visto isso em Plovdiv. Por toda parte há cartazes com fotos de gente que morreu e uma nota da família ou de amigos, com anúncio do enterro, uma mensagem de saudade, etc. Costuma-se colocá-las em locais onde a pessoa andava.

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Notas de falecimento na Bulgária, chamadas de “necrologs” (parece linguagem de informática).
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Caminhando para o albergue, em partes mais humildes.
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…quase chegando lá…
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E cheguei. Lá vem o carinha descendo pra me atender.

Esse Hostel Mostel é muuuuito mais aconchegante que aquele pardieiro onde fiquei em Sófia. Ainda me disseram que eu voltasse a tempo da janta grátis: sopa de abóbora. Mas eu precisava de algo para agora, então saí para almoçar, e em seguida visitar a fortaleza de Tsarevets.


Pelos restaurantes da cidade achei um almoço simples.

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Aqui pães chatos com um preparado de berinjela e pimentões vermelhos. Eu cubinhos o queijo feta, usado em todas essas vizinhanças da Grécia. E ali acima uns bolinhos de grão-de-bico com recheio de queijo. Ficou bom!

Dali é um passo curto até o que restou da fortaleza de Tsarevets, onde ficavam o palácio e o centro do patriarcado religioso. Uma ponte de pedra sobre o rio a separa da cidade, como nos filmes.

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Ponte para a fortaleza de Tsarevets.

Apesar de haver algumas partes restauradas, quase tudo segue original. A fortaleza foi erigida no século XII, e se tornou o centro do Segundo Império Búlgaro. O primeiro (680-1018 d.C.) foi logo que os eslavos búlgaros vieram à região e se estabeleceram, disputando-a com os bizantinos. Adotaram o cristianismo ortodoxo grego e tinham como líder seu próprio tsar (a pronúncia correta para “czar”). Mas, depois de muita guerra, em 1018 foram subjugados pelos bizantinos sob o Imperador Basílio II, conhecido como “o matador de búlgaros”. A História diz que esse infiliz, em certa batalha, capturou 14 mil soldados búlgaros e mandou cegar todos, deixando caolhos 1 em cada 100 para que guiassem o caminho de volta pra casa.


Só em 1185 é que os búlgaros reconquistaram a independência e formaram seu Segundo Império, com capital aqui em Tarnovo. Nessa época venceram tanto bizantinos quanto cruzados ocidentais que tentaram se estabelecer aqui num estado próprio (o chamado Império Latino). Essa foi a época dos chamados “imperadores incompetentes” de Constantinopla, que só apanharam. Num cerco à cidade de Varna no litoral do Mar Negro (atual Bulgária) em 1201, o tsar búlgaro Kaloyan mandou queimar viva toda a população bizantina da cidade, e se autodenominou “o matador de romanos”, como vingança. Os búlgaros chegaram até mesmo a se autodenominar “a terceira Roma”, supondo que Constantinopla já era.


Mas aí apareceram os turcos, que deram uma surra em todo mundo. Já havia muitas desavenças internas e movimentos separatistas que enfraqueciam tanto os búlgaros quanto os bizantinos e outros povos aqui dos Bálcãs, como os sérvios. Na prática, a situação no século XIV era de dezenas de pequenos estados em meio a esses dois maiores centrados em Veliko Tarnovo e Constantinopla. Ainda ensaiaram uma aliança mas não funcionou; aos poucos os turcos otomanos foram vencendo um a um e conquistando território. Em 1396 a Bulgária caiu, e em 1453 cairia Constantinopla, marcando o final da Idade Média. Os turcos governariam a região por longos 500 anos, até os movimentos nacionalistas do século XIX.

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Fortaleza medieval de Tsarevets, com as muralhas ainda de pé.
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Acesso à fortaleza.
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Folhas de outono em Tsarevets.
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Igreja do patriacado búlgaro no centro da fortaleza, restaurada.

Hoje as ruínas são um lugar bem quieto, tranquilo de se sentar e ouvir o vento. Fiquei um tempo, e depois segui caminhada de volta ao centro histórico. Ali ainda circulei, comprei uns souvenirs, e cheguei a tempo pra a sopa de abóbora no albergue. Caí no papo com uns franceses e espanhóis, e assim o tempo passou. No outro dia eu acordaria cedo novamente, para pegar o ônibus de volta a Sófia e de lá partir com meus amigos para um vilarejo que seria a parada final desta minha visita à Bulgária.

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Ruelas no centro histórico de Veliko Tarnovo.

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A vista da cidade a partir da fortaleza.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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