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Koprivshtitsa, uma cidade histórica no interior da Bulgária

À beira da estrada, prostitutas faziam sinal de carona, em plena luz do dia. Era final de semana. Rumávamos a Koprivshtitsa. (Boa sorte a você tentando pronunciar; eu custei a aprender). Koprivshtista é uma vila muito bonitinha e de grande relevância histórica no interior da Bulgária. Foi a última etapa da minha viagem, onde teríamos o aniversário de um amigo dos meus amigos. Prometiam-nos uma festa típica, daquelas em casa de madeira do século XIX, mas depois eu digo o que foi que eu tive…


Naquele dia eu acordei ainda em Veliko Tarnovo, 5h da manhã, e andei no escuro até a rodoviária. Bastava refazer o caminho do dia anterior e não me perder, o que consegui. No meio da manhã eu estava de volta à rodoviária de Sófia, onde os meus amigos búlgaros Romina e Buágo foram me buscar. Dali já pegaríamos de mala e cuia a estrada. Paramos brevemente nos arredores verdes de Sófia, de onde dá pra ter belas vistas da cidade a partir das colinas, e depois seguimos viagem. O cigarro de Buágo enquanto dirigia me matava.

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Vista de Sófia a partir de uma das várias colinas nos seus arredores.

Foi aí que tomamos a estrada margeada por prostitutas. Não era o tempo todo, mas digamos que a cada 10 minutos você via uma distinta de salto alto e aquele figurino característico, sozinha na beira da pista. Meus amigos indicaram que era normal. Culpavam sobretudo os ciganos. (Há um preconceito imenso contra ciganos tanto aqui quanto na Hungria, na Romênia e nos outros países desta região da Europa, onde eles têm populações expressivas).


Umas duas horas depois estávamos em Koprivshtitsa, e fomos nos instalar no hotel dos pais dum amigo do aniversariante, que eu nem sabia quem era. Ninguém falava inglês, então você tinha que ficar com aquela cara de pasto enquanto as pessoas conversam. As caras me diziam que a conversa era tipo: “Bom dia, dona fulaninha, e aí, como vão as coisas?”; “Vamos indo. Fulano foi fazer não sei o quê e eu estou aqui cortando o queijo. E vocês?“. Não era preciso entender búlgaro.


O casarão era quase todo de madeira, bem aconchegante, e nos ofereceram uns petiscos de queijo e linguiça enquanto o almoço não saía.

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Canteiro central da casa.
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Mesa com queijo, linguiça e pão. O queijo era salgado e parecia um requeijão.

O almoço quando veio foi uma super densa sopa de ervilha, que dá pra ver no pratinho aí nessa foto do queijo. Parece ser bem típica na Bulgária, e de fato é bem boa. Depois de dois pratinhos daquele já não havia fome. Também há sempre pão pra usar junto. Já o suco, aquilo ralo ali no copo, foi uma enrolação.


Saímos, pois Romina queria me mostrar as antigas casas (hoje pequenos museus) de vários personagens importantes do Renascimento Nacional Búlgaro do século XIX. Escritores, poetas, políticos… gente que ajudou a Bulgária a reencontrar e revalorizar sua identidade depois de 500 anos de dominação turca, e que lutou pela independência conquistada em 1878.


Nessa cidadezinha de 2.500 habitantes mal se veem carros. São sobretudo ruelas, pequenas pontes, árvores, e senhoras vendendo doces caseiros e artesanato. Tudo muito bonitinho, sobretudo rendas, toalhas de mesa bordadas e essas coisas de avó. Uma pena que hoje em dia, lá ou aqui, poucas pessoas tenham guardado esses saberes e estejamos cada mais dependendo das porcarias de loja, sem personalidade e quase sempre de menor qualidade.

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Banquinhas de artesanato em Koprivshtitsa.
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Ruelas com calçamento antigo de pedra.
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Ponte de pedra.
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Pracinha no centro da cidade.

Já as casas históricas tem todo um jeitão século XVIII e XIX, completamente de madeira escura, com aqueles pisos que rangem. Visitamos pelo menos umas cinco de personagens importantes, que Romina ia me explicando quem eram e o que tinham feito. Há informação em inglês mas é pouca. Já em búlgaro há recortes de jornal, partes das obras que escreveram, etc.

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Com minha amiga búlgara, na entrada para um dos casarões de madeira.
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Monumento no centro de Koprivshtitsa.

Pra quem não sabe, os russos é que catalisaram essas várias independências aqui na região dos Bálcãs. Empreenderam a chamada Guerra Russo-Turca (1877-1878) com o intento de ganhar território na região do Mar Negro, e ajudaram os movimentos de independência local que já estavam em ebulição. Após essa guerra se tornaram independentes dos turcos não só a Bulgária, mas também a Romênia e a Sérvia. Uma pena que menos de um século depois os russos tornariam-se desta vez os algozes, com a dominação soviética desses países entre a Segunda Guerra e 1989. A Bulgária ainda está tentando se encontrar, e encontrar seu lugar (e seu respeito) na Europa.


Após visitar as casas e aprender um pouco mais, fui comprar geleia de morangos silvestres. São pequenininhos, mas muito mais saborosos. Trouxe logo dois potes, junto com um outro de framboesas, e a tia ficou feliz. São bem açucaradas, mas são boas.


Com a tarde já caindo, fomos voltando pra casa e encontramos a mesa já posta para a janta de aniversário.

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Mesa de petiscos de aniversário.

Não há salgadinhos e docinhos no estilo brasileiro. Em vez disso, há petiscos de várias formas, com queijo, tomate, pimentão, molhos pra passar no pão, pedaços de salsicha camponesa, etc. Por alguma razão também não havia bolo, nem se cantou parabéns.


Não fez tanta falta. O que fez falta foi a fogueira que eu imaginei que teria, em meu imaginário de festas de vilarejo. Que nada; o que eu vi foi uma festa de jovens regada a hip-hop norte-americano, com músicas no YouTube tocando Kanye West, 50 cent, e companhia limitada. Foi uma decepção. A galera encheu a cara, conversei com um e outro, e pouco depois da meia-noite eu já estava capotado na minha cama.


No dia seguinte deixávamos Koprivshtitsa, direto para o aeroporto. Era o fim da minha visita à Bulgária, e dessa jornada inesquecível através dos Bálcãs. Ficam as belas paisagens, as comidas, e a lembrança dessa gente misturada de jeito meio cismado mas caloroso e tão interessante. Pra quem acha que a Europa se resume a Paris, Roma, Londres e a esses destinos mais batidos, recomendo que deem um pulo cá pra conhecerem algo diferente.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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