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Praias romenas, trens quebrados, e ciganos

A Romênia é um destino mais interessante do que se imagina. Eu comecei minha visita por Bucareste, a capital, seguida da Transilvânia, a região mais interessante do país e repleta de lindas cidades históricas e belas paisagens naturais — além da história do Drácula pra atrair muitos turistas. Essas partes foram relatadas já há algum tempo, e eu nunca terminei. Mas agora finalmente chegou a hora.

(Pra quem não conferiu ou quiser reler os anteriores: Chegando à Romênia: Bucareste, o Museu Satului e a Casa Poporului e A Transilvânia: Sinaia, Sishisoara e Brasov)

A praia é um elemento indispensável na cultura romena. Quando a temperatura sobe, os romenos vêm aos milhares para as várias praias da costa do Mar Negro, no leste do país. É água quase parada, de mar fechado, que não se compara nem de longe às praias tropicais. Mas pra eles, e pra os europeus em geral, está bom. Além disso, muito da praia não é a praia em si, mas a “pegação”, e as festas noturnas depois de bronzear-se o dia inteiro na areia. Grande parte dos summer hits europeus, quase ninguém sabe, mas vem da Romênia.

Alerta: todos os hits são bastante viciantes, e breve você estará até varrendo o chão no ritmo dessas músicas. Estão avisados. (Mas vale a pena).

Primeiro, Alexandra Stan, romena de Constanza, cidade praieira, com seu sucesso Mr. Saxobeat, que você provavelmente já ouviu.

Inna, outra musa romena em ascensão com seus hits de verão ouvidos por toda a Europa.

E pra não dizer que é um sucesso só pela sensualidade das mulheres, aqui Edward Maya (nome artístico do romeno Eduard Marian) com o sucesso Stereo Love, com 200 milhões de visualizações no YouTube e que você provavelmente já ouviu aí nas discos da vida.

Bom, e lá fui eu. Voltando da Transilvânia, paramos brevemente em Bucareste, eu e minha amiga Alina, pra pegar uma outra colega, Rux (de Ruxanda), ambas romenas. Y vamos a la playa.

Um trem te leva facilmente de Bucareste a qualquer das cidades praianas — muitas delas pequenas, e dedicadas principalmente a essa população turista. Escolhemos Costinesti, a 4 horas de viagem. O trem vai basicamente lotado de jovens, alguns deles ciganos. Você percebe a diferença pela aparência e pelo jeito. Fisicamente são um pouco mais escuros, cabelo liso ou meio ondulado e também escuro, e frequentemente usam muito mais adereços (brincos, anéis, pulseiras). Eles também têm um jeito mais solto, que alguns podem entender como meio baderneiro em algumas situações. Há bastante discriminação contra eles, e normalmente ficam em seus próprios grupos. Junto de nós havia alguns comendo sementes de girassol torradas, que os europeus do leste em geral gostam pra distrair a boca.

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Foto de ciganos na Romênia. O nome politicamente correto é “povo Roma”, e a língua que eles falam é o Romani, muito diferente do Romeno, idioma oficial do país. Eu sei, é fácil fazer confusão, e os europeus em geral a fazem. Mas evite, ou é receita certa pra irritar os romenos. Os ciganos aqui estimados em cerca de 620 mil, ou pouco mais de 3% da população de 20 milhões de habitantes da Romênia.

Chegamos e pusemos as coisas no hotelzinho que havíamos reservado. Um sol de seus 35 graus queimava na rua, meado do dia. Aquela luzerna no asfalto e o calorzão — bem Brasil. O hotel era meio chinfrim: só um corredor sem decoração alguma e quartos laterais, mas quebrava o galho. O dono era daqueles praieiros veteranos que andam pra todo lugar com óculos escuros na vista ou na cabeça, beirando os 40 anos mas ainda achando que tem 20. Regata branca, e aquela atitude de surfista.

Ele não falava nada de inglês, mas quando minha amigas lhe disseram que eu era brasileiro, fez uma festa. Olhou pra mim fixamente com aquela cara de “como faço pra me comunicar”. Resultado: Me deu uns tapinhas daqueles de tiozão no ombro e, segundo as meninas, me contou que a mãe dele assistia novelas brasileiras e gostava muito. (E elas são mesmo muito populares na Romênia). Eu retribuí com aquele sorriso amarelo que a gente no Brasil é PhD em dar.

O tio recomendou um restaurante perto dali, e fomos. As redondezas eram só casas e asfalto, como num bairro residencial de cidade do interior no Brasil.

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Área de chegada do trem em Costinesti. Nada muito chique.

No restaurante, apareceu o tio de novo fazendo aquela social, com aquela pose de “Eu conheço todo mundo aqui, a comida é ótima”. Não era. Comemos uma pizza malacabada e mamaliga, que é a versão romena da polenta italiana. Os romenos, como nós no Brasil, comem pizza com ketchup — para o horror dos italianos. Mas é que estava mal feita mesmo. Já a mamaliga, que eu peguei como “entrada” pra experimentar, revelou-se um prato cheio que eu — pasmem — não consegui terminar. Aquele pratão de mingau de milho pastoso, coberto de creme, e com pedaços de um queijo branco salgado por baixo — parecendo queijo coalho. Não foi exatamente a minha melhor refeição.

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Essa foto é da internet, mas parece com a que comi. À exceção que na minha os pedaços de queijo estavam inteiros, e o prato era maior. Esta é a mamaliga branza (branza é nome desse tipo de queijo branco). Tal como a polenta italiana, há várias formas de fazer. Mamaliga com carne é quase o feijão-com-arroz dos romenos.

Com o bucho cheio, por volta de 1h da tarde, fomos à praia (crianças, não façam isso em casa). Já estava lotada, com a areia repleta de toalhas e sombreiros, mais o diferencial de que aqui as pessoas fumam muuuuito mais que no Brasil, então quase sempre tem dois ou três de cigarro aceso perto de você. Outro diferencial é que aqui é normal as mulheres fazerem top-less (se surpreenderam quando eu disse que no Brasil não era; justo o Brasil, esse país de fama caliente e de gente sexy). Pois aqui, e em grande parte da Europa, é. Às vezes é um colírio para os olhos, outras vezes é álcool-gel e você se arrepende de ter olhado naquela direção.

O ambiente quase sempre tem um beat, um summer electro-hit tocando em alguma tenda ou venda próxima, então imagine-o com o som.

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Numa parte estreita da praia.
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Praia lotada.

Aqui não há a vendedora ambulante de salada de frutas, ou os vendedores de picolé e queijo coalho na brasa, mas há outras coisas que o pessoal come na areia. Vi milho assado, mas preferi um kürtőskalács (pronuncia-se Kurtósh Kalátch), um rolo de pão com canela e açúcar, tradicional húngaro mas que é popular aqui também. Embora não seja minha comida de praia favorita e eu ache que cai muito melhor como comida de Natal, é gostoso.

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Kürtőskalács. São grandes, mais ou menos do tamanho do seu antebraço. E vem quentinho. É bem gostoso, embora eu não ache que combina tanto com praia.

Ficamos lá, entre a areia e a água, até o cair da tarde. À noite o lugar se transforma, e entram em cena as boates, os restaurantes com música ao vivo, e várias coisas de entretenimento na rua, lembrando aqueles parque de diversões à antiga, com luzes coloridas, máquina dar murro que mede a sua força, essas coisas. Achei uma tenda que vendia toalha de banho com seu nome costurado nela, e mandei fazer uma.

Pra mim o mais legal de tudo — embora minhas amigas romenas discordassem veementemente — eram as casas de música cigana, o manelê. Mais uma vez, chamar isso de música tradicional romena é receita certa pra tirar um romeno do sério. Eles dizem que as letras são vulgares e cheias de erros. Mas pra quem não entende nada, o ritmo é gostoso. Todo ano há a competição nacional Miss Piranda, pra eleger a melhor dançarina. Normalmente, são acompanhadas de cantores ciganos bem vestidos de jeito meio gângster. É hábito cigano às vezes jogar dinheiro nas dançarinas. É bem curioso de se ver.

Pra quem quer ter uma ideia do ritmo, da dança e do ambiente, essa, se eu não me engano, é a vencedora do Miss Piranda 2012.

(Pra quem quiser ver melhor a dança — que parece mas não é a dança árabe — vejam este também: Concurso Miss Piranda. Os romenos podem espernear o quanto quiserem, mas a dança é bonita e o ritmo é gostoso).

Mas não teve jeito, não consegui convencer minhas amigas a ficarmos numa das casas de música cigana. Acabamos circulando por várias casas de show até as coisas irem fechando na madrugada. Nos próximos dias, o programa não foi muito diferente, com praia de dia e cidade à noite. Ao que parece essa é a receita básica dos verões cá na Europa.

A muvuca foi, terminado o fim de semana, voltar pra Bucareste. O trem estava picado de gente. Estava claro que não sentaríamos, a não ser no chão do corredor. Pra coroar, o trem quebrou. Empacamos no meio da zona rural por horas, e o calorzão — já que não havia exatamente janelas, só basculantes — subiu. Mas a muvuca já estava instalada mesmo antes de o trem quebrar, pois o trem estava superlotado e, na surdina, havia gente usando até a cabine privada dos condutores enquanto estes circulavam pelo trem. Quando o condutor chefe — um sujeito baixinho, gordinho e meio calvo — descobriu, não prestou. Ele ficou azedo. Pelo que entendi, os ocupantes reclamaram que era espaço vazio enquanto o trem estava cheio, ao que ele esbravejou — e, segundo tradução das minhas amigas, disse que a cabine era dele e que se quisesse até se masturbava dentro da cabine e ninguém tinha nada com isso.

Botou todo mundo pra fora. Passados alguns minutos, o vejo todo prosa, sorridente, e deixando as pessoas entrarem de novo. Não entendi. Perguntei a minhas amigas o que havia acontecido, ao que elas me retribuíram com uma cara cínica: “Sério que você não entendeu? Deram dinheiro a ele. Por isso que ele está todo feliz“. É…  não é só no Brasil que tem malandragem.

Duas horas depois, o trem voltou a se mexer e nós, suados como a peste, terminamos nossa viagem a Bucareste, onde chegamos já à noite. Para o meu deleite, a mãe da amiga que me hospedou nos aguardava com uma bela mesa, cheia de quitutes caseiros romenos — muuuito melhores que a mamaliga. Estou até com uma cara gastronomicamente entorpecida na foto.

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Quitutes romenos à mesa. Empanados de queijo (no meu prato e garfo), fritatas de batata com ervas ali no meio, e ao lado um tradicional purê de berinjela com tomates em cima. Esse último é maravilhoso. Não aparece ali mas havia ainda a zacusca, uma espécie de molho grosso feito com pimentão vermelho e outros legumes defumados pra passar no pão.

Não sei se por isso, no ano seguinte fui morar com uma romena e provar mais dessas guloseimas regularmente.

Meu voo saía na manhã seguinte, mas certamente não era a minha última visita ao país.

[Pra quem gostou do tema, aqui a continuação alguns anos depois, Praias Romenas 2: Farofa, nudismo e rock n’ roll]

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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