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Porto, Portugal: Uma Cidade e um Vinho

Cidade do Porto, à margem do Rio Douro. Segunda cidade de Portugal, mas para muitos a primeira. O Porto guarda preservadas áreas antigas, ao passo que em Lisboa muito se perdeu no terremoto de 1755. Além disso, aqui há dos vinhos mais famosos do mundo, o Vinho do Porto, que a maioria dos brasileiros já ouviu falar mas nunca experimentou.


Cheguei aqui numa viagem curta de uma semana em Portugal, após alguns dias em Lisboa (que eu já havia relatado numa outra viagem, embora talvez faça outro algum dia). A estação de trem em si já é um deslumbre, repleta de azulejos seculares. Era verão, portanto um vento agradável passava por este salão de entrada.

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Salão de entrada na estação de trens central do Porto, com muitos azulejos retratando cenas de época.

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Estação no Porto. Sistema eficaz de trens que seria muito bem vindo no Brasil…

Mas “estação de trens” seria um termo pouco usual em Portugal. Terminal de comboios é mais usado. Além deles, há por toda parte “o elétrico”, que são os bondes elétricos que fazem o transporte dentro das cidades, como era nas cidades brasileiras no início do Século XX, antes do desmantelamento, e que agora estão tentando reintroduzir no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e outras capitais. (Vejam esta boa matéria de 2013 da  revista Exame sobre o papel dos bondes na reforma do transporte público no Brasil).


Mas voltemos ao Porto. Da Estação Ferroviária de São Bento é uma curta caminhada até o nosso albergue, cruzando o centro antigo. Curta, contudo, não quer dizer fácil, pois o Porto é cheio de sobes e desces. No caminho se passa pela impressionante Torre dos Clérigos, além de muitas lojas à antiga e que fazem você se sentir em um Harry Potter à portuguesa ou n’algo outro de época.

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Interior da Livraria Lello e Irmão, na cidade do Porto.
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Casario antigo e a Torre dos Clérigos. (Ela não é torta; é a perspectiva da foto).
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Casas, e a entradinha pra a ruela do nosso albergue ali no fundo da foto, a Rua dos Caldeireiros, paralela à Rua de Trás.

A cidade do Porto é repleta de ruelas. Às vezes você se desorienta com elas, que sobem, descem, e fazem a curva. Infelizmente nem sempre essão tão conservadas quanto poderiam — há algum lixo, as casas estão muitas precisando de uma restauração, e só os gatos é que passeiam pelas ruas. Essas ruas do miolo histórico do Porto são estranhamente quietas. Quase que a única vida era das senhoras estendendo roupas em seus varais no terceiro andar.

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Ruelas no Porto. As bandeirolas, suponho eu, são porque era junho. E em Portugal também se celebram — e muito — as festas dos santos de junho: Santo Antônio (dia 13), São João (dia 24) e São Pedro (dia 29).
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As curvas das ruelas… vazias.
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Senhora estendendo roupa na varanda.

E onde estão as pessoas? Bom, basicamente em duas outras áreas. Primeiro, na parte nova — ou, digamos, menos antiga da cidade, onde as ruas são bem mais amplas, e onde há o comércio. São áreas, eu até diria, mais bonitas da cidade do Porto, com árvores e casas melhor preservadas. Há a Câmara Municipal, praças amplas e, é claro, igrejas. Aqui em Portugal quase não há vizinhanças sem igrejas.

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Espaço amplo na Av. dos Aliados, com estátua de D. Pedro IV (o nosso D. Pedro I).
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O Jardim da Cordoaria, no centro do Porto.
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Pracinha afável.
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Igreja da Nossa Senhora do Carmo, com revestimento de azulejos no exterior.
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A Câmara Municipal do Porto.

Por essas ruas é possível achar as famosas francesinhas pra comer. Calma, antes que pensem que é alguma depravação minha. As francesinhas são um tradicional sanduíche de carne aqui do Porto, com salsicha, linguiça, bife, tudo misturado. Mais carne impossível. Passei longe, mas há quem goste.


Muito mais interessantes me foram os pratos de bacalhau, que aqui vem servido de dezenas de formas diferentes. Enquanto que nos cardápios de países anglófonos o hábito é discriminar exatamente o que vem dentro, aqui — como no Brasil ou na Itália — você precisa alugar o garçom pra ficar perguntando: “E esse aqui, bacalhau ao não-sei-o-que, vem como?”

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No final pedi o Bacalhau à Zé do Pipo, que vem com pimentão, batatas cozidas inteiras e uma leve fritura no peixe, regado a muito azeite de oliva. Restaurante Arroz de Forno, recomendadíssimo!

Quase sempre são nomes que não te dizem nada acerca de como o bacalhau vem, a menos que você já conheça (é meio que como escolher sabor de pizza no Brasil, só que sem a lista de ingredientes): Bacalhau à Gomes de Sá, Bacalhau à Brás, etc. Todos tendem a ser muito saborosos (já provei uns 5 tipos), mas não abuse, ou pode enjoar, pois sempre é peixe e quase sempre vem batatas. (E não se esqueça, aqui em Portugal eles não costumam tirar as espinhas).


Um percorrer de olho pelos cardápios portugueses são sempre uma diversão:

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A linguagem nos cardápios portugueses. Alguém aí arrisca dizer como é uma Espetada de Boi Escangalhada? (Meia “dose” é meia porção).

A outra área da cidade que junta gente é o porto propriamente dito, a margem do Rio Douro, que banha a cidade. Não é assim o “ó do borogodó”, e não é recomendável comer nem comprar nada lá, pois é mais caro, mas vale a pena ver pra uma caminhada curta. A área é relativamente pequena.

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Margem do Rio Douro na cidade do Porto, com várias barracas vendendo coisas.
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Às margens do Douro, com a bela Ponte Dom Luís ao fundo.

É uma cidade com suas belezas, embora pequena, muito menor que Lisboa. Tudo aqui se faz a pé, e dois dias aqui provavelmente são o suficiente pra visitar.


Mas eu prometi falar não só da cidade, mas também do vinho. Não há como vir ao Porto e não se interessar pelas degustações daqui. No albergue perguntei como se faria pra visitar essas degustações e se ver algo do vinho. Renata, recepcionista simpática, me atendeu com seu sotaque portuense (ou tripeiro, na zoação dos rivais lisboetas, que zoam por causa das comidas aqui do Porto). Me explicou que nenhuma das degustações fica propriamente no Porto, mas em Vila Nova de Gaia, do outro lado do rio — o que faz do Porto o mais famoso caso de uma cidade conhecida por algo que ela não faz realmente.

Vinhos do Porto.

Toda a produção é em Vila Nova de Gaia, embora na prática sejam ambas uma cidade só (ao menos ao turista; já administrativamente eu não sei como é). Renata me falou também de um Museu do Vinho do Porto, que eu sinceramente não recomendo. É longe e não conta nada muito além da história do vinho e da cidade em algumas poucas vitrines explicativas. No caminho houve até um almoço de Bacalhau ao Brás que deveria ter se chamado “Batata ao Brás”, porque o peixe passava longe. (Olhar bem onde pedir o bacalhau…).


Mas depois foi só alegria. Na outra margem do Douro, em Vila Nova de Gaia, são muitas as caves a visitar. Os portugueses usam esse nome do inglês (de “cavernas”), mas pronunciando o “a” como a mesmo. Isso é porque, na verdade verdadeira, quem produzia e fez a fama mundial do vinho do porto foram os ingleses. Quase todas as grandes marcas de hoje pertenciam a comerciantes ingleses (Croft, Taylor, Graham…) e hoje são multinacionais. Achei emblemático da subserviência econômica história de Portugal à Inglaterra, se me permitem a franqueza.


As uvas são cultivadas ao longo das margens do Douro, e aqui ocorre o processo de envelhecimento em barris de carvalho trazidos… cof cof… da França.

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Virginie, guia francesa cercada de barris numa das visitas que fiz.

As visitas pra degustação não custam mais que 5 euros e te dão direito a um tour guiado e a provar dois vinhos no final.


O tchan do vinho do porto é que ele não é simplesmente uma marca, ou um tipo qualquer de vinho. Ele é um vinho fortificado. Interrompe-se a fermentação do açúcar das uvas, deixando o vinho ficar naturalmente doce, e depois acrescenta-se uma aguardente sem sabor pra fortificar. Dizem que a ideia surgiu com as grandes navegações, pra o vinho não estragar. Como resultado, ele normalmente tem 19 ou 20 graus, em vez dos 12 graus da maioria dos vinhos comuns. Por isso as doses são menores, numa tacinha, tomadas como aperitivo (no caso do vinho do porto branco) ou como digestivo (no caso dos vinhos do porto tintos). 


Há dois tipos de vinho do porto tinto: âmbar (mais conhecido como tawny, novamente do inglês) e rubi (ruby). Este último — meu favorito — cai particularmente bem com chocolate amargo, na sobremesa. Dizem que com queijos fortes ele também casa bem. O tawny pode ir com sobremesas que não sejam de chocolate.

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Bela combinação de chocolate com vinho do porto ruby. (E a gula que me dá ao escrever isso?)

As caves de degustação — claro — vendem os vinhos, mas você pode encontrar as mesmas marcas (e portanto a mesma qualidade) em qualquer supermercado depois.


No geral, o Porto é uma cidade agradável para uma visita de final de semana. Quase não há fado aqui (para os que vêm em buscar disso), mas dá pra passar uns dois dias, tirar umas fotos nas partes antigas, ver o rio e provar uns vinhos. Vale a pena incluí-la em qualquer roteiro de Portugal (até mesmo porque de trem facilmente se cruza o país).


Se alguém ainda não estiver convencido, deixo algumas fotos da cidade à noite.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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