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Edição especial numa terra Pataxó: Em meio aos índios em Porto Seguro e Coroa Vermelha

Dança com Lobos (1990) e O Último Samurai (2003) são filmes de narrativa simples, mas de profundo significado: um homem deixa a sua sociedade habitual e acaba convivendo com aqueles que vivem de um outro modo. “A way of life”, é o nome da música-tema d’O Último Samurai, e não por acaso. Em ambos os filmes, os personagens acabam encontrando naquela nova sociedade muito do que já não encontravam nas suas.


Este ano fui agraciado com trabalhos aqui no Brasil, entre eles um projeto com os índios Pataxó, no sul da Bahia. Perto da conhecida Porto Seguro há mais de 800 hectares de uma reserva autônoma indígena, a Reserva da Jaqueira, cercada de áreas cobiçadas por redes hoteleiras, resorts de luxo, e condomínios de loteamento. Parte das áreas já foi garantida legalmente aos índios, parte segue em disputa. O que relato aqui é a minha breve experiência na região este ano, em três viagens curtas e alguns dias de trabalho.


A nossa primeira parada foi Porto Seguro. Rumamos de Feira de Santana, perdida no agreste da Bahia, numa van pela BR-101 até o extremo sul do estado. Chegamos no fim de um domingo, e fomos jantar no centro de Porto Seguro, uma área bem turística conhecida como a passarela do álcool. O caminho até a pousada era meio cabreiro, deserto e escuro, mas estávamos em grupo.


Ao final da nossa pizza, lá pelas 10 da noite, não foi grande surpresa quando se aproximou um mendigo (ou ao menos parecia) com mão na barriga e gemidos de dor, queixando-se de que havia tomado dois tiros. Pensamos que era um bêbado dizendo as asneiras de sempre, e seguimos comendo, até que vimos mesmo a camisa branca manchada de sangue e o fulano arreando no chão, na parede. A indiferença geral foi reveladora. Patologia social. Não há algo estranho quando alguém está a morrer do seu lado e todos continuam a saborear suas pizzas quatro-queijos como se nada estivesse acontecendo?


Chamamos a ambulância (que não chegou), e depois de uns 5 minutos as pessoas começaram a se dar conta de que — pra citar em palavras exatas — “de onde veio dois tiros vêm mais“. E debandaram. De repente todo mundo pediu a conta e foi dando o fora. O cara continuava caído, já sentado no chão de costas pra a parede enquanto no bar\restaurante alguém gritava que “na hora que morrer um eles aparecem!“. Saímos dali e fomos comer pastéis de belém numa doceria portuguesa próxima pra dar tempo de a ambulância aparecer. Pra o nosso azar, o baleado — e portanto as balas — haviam vindo exatamente da rua para voltar à pousada, então resolvemos matar tempo enquanto o cara morria ou era levado. Após 20 minutos o cara continuava lá. Era o tráfego do domingo à noite tão pesado assim? O que apareceu foi um táxi, que o pôs pra dentro e levou, sabe lá pra onde. Especulava-se desde o hospital até um dos mangues ali mesmo.


Bem vindos a Porto Seguro!

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Cena do episódio, minutos antes.

Comecei esse post meio em clima de história de horror urbano, mas é simplesmente o que aconteceu. Não há mais assassinatos na história (embora fora dela eles continuem a ocorrer). Voltamos nas ruas escuras à pousada na tensão de como se estivéssemos num jogo de Resident Evil, inclusive com gente suspeita por perto, mas chegamos sem novos problemas, comentando o acontecido.

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As ruas de Porto Seguro, mais tranquilas durante o dia.

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No dia seguinte daríamos início a alguns trabalhos na cidade, e em seguida iríamos à Reserva da Jaqueira, que desenvolve trabalhos de conservação etno-ambiental (ou seja, de identidade cultural e também da biodiversidade) e é aberta a turistas. Há uma área de mata fechada, primária, e outra de mata secundária junto de onde vivem algumas famílias da etnia Pataxó. Falam português e já há uma mistura significativa com a cultura não-indígena da Bahia, mas se notam as diferenças, sobretudo entre os mais velhos. Os jovens agora é que estão aprendendo o que significa ser Pataxó. Ensina-se cada vez mais o Patxohã (a língua dos Pataxó), demais tradições, e faz-se um esforço para que não seja mais vergonha se apresentar como indígena no Brasil. Há aulas na própria reserva.

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Área onde circulam os Pataxó, com kijemes, casas tradicionais de barro e piaçava.
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Na reserva.
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Crianças Pataxó na sala de aula, que tem mesas e cadeiras mas também faz coisas no chão. A estrutura é simples, mas o ensino parece ser bastante dedicado.
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Crianças Pataxó.

A infraestrutura é bastante humilde: em geral não há luz elétrica, há pouca água encanada (há dois banheiros convencionais para turistas, mas os índios dizem não usar), o fogão é de lenha, e aqui se dorme em geral em redes. Galinhas, um cachorro muito simpático e um papagaio chamado de “mineiro” circulam pelo lugar, todos parte da comunidade. Pelas árvores há aí as aves da Mata Atlântica, já quase desaparecidas nos ambientes de crescente urbanização descoordenada.


Junto com eles nós comemos. Há pratos consideradas iguarias da culinária Pataxó, como o peixe assado na folha da patioba (uma planta local da Mata Atlântica), mas o dia-dia é mesmo arroz com feijão, salada, farinha de mandioca da grossa, e pratos bem parecidos com o habitual de qualquer baiano. Exceto um detalhe: os índios geralmente não adicionam sal à comida. É saudável, mas pra quem não está acostumado a comer assim, ele faz falta.

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Peixe assado na folha da patioba. Está já detonado porque, como vocês podem ver, meus colegas pesquisadores não me deixaram nem bater a foto direito. Voaram em cima, hehe.
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Meu almoço de todo dia na Reserva da Jaqueira. Feijão, arroz, farinha de mandioca da grossa e salada. Os outros também comiam frango ou carne. Tudo normalmente sem sal, embora às vezes punham pra nós.
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Interior do kijeme cozinha.

Nosso trabalho foi colaborativo com os Pataxó, foram oficinas realizadas para nós todos sobre atividades de conservação da biodiversidade, identidade e direitos indígenas… o que chamamos hoje de conservação bio-cultural.


Quando não estávamos nos trabalhos, acompanhamos as atividades para os turistas (apresentações de danças, trilhas, etc.). Aqui os Pataxó se vestem em trajes característicos, embora não estejam assim sempre (tal como os alemães que adotam seus trajes típicos no Oktoberfest mas depois tiram, ou qualquer europeu que apresente danças tradicionais mas depois retorne aos seus trajes modernos). O argumento é muito simples: nenhuma sociedade fica congelada no tempo. Não se deve esperar que os indígenas sejam diferentes. O japonês não deixa de ser japonês porque não sai mais vestido de quimono ou porque não mora mais em casas tradicionais de madeira e papel. O que importa, além do sangue, são a cultura e os valores.

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Pataxós fazem um awê com os turistas, uma dança ritual em círculo, com incenso no meio, e em seus trajes tradicionais.

Não há mais caça, pois as populações animais já são bem diminutas e qualquer impacto pode levar à extinção dessas populações. Na verdade, os Pataxó têm é trabalho afastando caçadores não-índios, biopiratas, essas coisas.


Apesar disso, continuam a tradição do arco-e-flecha, e há inclusive “Jogos Pataxó” de anos em anos, que juntam competidores de várias aldeias. Eu soube que o governo brasileiro está tentando pegar alguns pra competir pelo Brasil nas Olimpíadas, já que existe a modalidade arco-e-flecha mas o Brasil nunca ganha nada.


Esse indiozinho aí abaixo parecia o Legolas, e eu o flagrei atirando flechas com o pé.

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Índio Pataxó atirando flecha com o pé.

Já eu precisei de uma aulinha básica de como atirar…

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Um dos caciques me mostrando como arrumar a flecha no arco e disparar.
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Meu disparo não foi mau. Mas eu quis fazer igual a aqueles arqueiros de filme, que levantam a flecha para ela fazer uma curva no ar, e acabei acertando uma jaqueira lá atrás. Ainda bem que não ia passando ninguém. O negócio vai longe.

Mas a Reserva da Jaqueira está vinculada a uma “aldeia” maior, Coroa Vermelha, onde dizem que se celebrou a primeira missa, a da chegada de Cabral. Os Pataxó a chamam de aldeia, pois legalmente Coroa Vermelha é terra indígena e a maioria dos habitantes ali são índios, mas ao olhar não é muito diferente de áreas urbanas de qualquer outra parte da Bahia. Há o posto de gasolina, o supermercado, e até as igrejas evangélicas pentecostais.

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Via principal em Coroa Vermelha. Se não fossem pelos rostos indígenas por toda parte, eu acharia que estava em qualquer outra parte da Bahia.

A esta altura já éramos somente eu e uma espanhola, Isabel. Ficamos numa pousada malacabada, administrada por um italiano simpático que arrastava o português e por sua mulher, do interior da Bahia, e com ar de piriguete. (Depois me disseram que se conheceram no carnaval de Salvador… Sei bem como é isso). Ficavam jogando baralho o dia todo e assistindo televisão. A piscina estava verde de biodiversidade e, no quarto, a cama me derrubou. A cena foi linda, comigo ouvindo “Nothing else matters” do Metallica no alto-falante do celular, aquela pressão toda, eu sento na cama e caio pra dentro com as pernas pro ar.


À tarde fomos à praia, ali perto, quase completamente deserta. Parecia abandonada, mas a água era boa — se você se afastar o bastante do riacho sujo que despeja dejetos ali, ele que um dia mereceu o nome de Rio Jardim. Degradado por urbanização descontrolada. Mas a praia ainda é bonita.

A ironia foi, no mesmo dia à noite, alguém dali nos dizer que aquela praia onde fomos era tranquila só até a 1h. Eu e a espanhola supomos que era 1h da manhã, mas que nada. A senhora respondeu com um sorriso: “1h da tarde“. Isabel e eu nos entreolhamos. Havíamos ficado lá atééé o cair da tarde. A razão é que rola tráfico de drogas, agora chegando também aos aldeamentos indígenas.

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Praia em Coroa Vermelha.
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Praia relativamente deserta em Coroa Vermelha.
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Área já um pouquinho menos deserta da praia, embora ainda bem vazia.

O tráfico de drogas (e a violência que o acompanha) são um problema sério em Porto Seguro, parcialmente devido aos consumidores turistas, e Coroa Vermelha não é muito diferente. Não é porque é indígena que a comunidade está imune a esses males sociais, hoje presentes em quase todas as zonas urbanas pobres no Brasil (e na América Latina de forma geral). O problema, seja pra índio ou pro pobre em geral, é que mesmo quando se garante o acesso à terra (ou à habitação, como no Minha casa, Minha vida) acha-se que aquilo é o bastante. Só que, sem desenvolvimento socio-econômico, vira point de tráfico.

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Cruz em homenagem à primeira missa realizada pelos portugueses no Brasil.
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Mercadinho Pataxó em Coroa Vermelha. Sobretudo pra turista.

Depois de alguns beijus, muito açaí na tigela e trabalho feito, era hora de retornar a Feira de Santana. No caminho paramos num restaurante magnífico que mantém um ambiente bem Mata Atlântica e serve comidas e vende produtos artesanais da região. O tipo de comércio que valoriza as riquezas cultural e natural e que eu gostaria de ver muito mais no Brasil.

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Restaurante à beira da estrada combina comida boa e ambiente natural agradável.
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Doces, licores e quitutes regionais.
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Entrada com molhos de cupuaçu, jaca, e banana com pimenta. Um melhor do que o outro. Tudo isso é riqueza brasileira sub-valorizada pra se comer porcaria industrializada “sabor artificial de cereja”.
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Um espetacular suco de graviola. Suco de verdade.

A experiência indígena foi fenomenal. O contraste também é gritante, passando do episódio de patologia social em Porto Seguro ao ambiente radicalmente diferente da Reserva da Jaqueira, tão próxima mas tão distinta. Recomendo a todos irem lá. Não há como não se sentir mais brasileiro após um trabalho desses. Conhecer indígenas de forma autêntica — na realidade e não nos preconceitos da gente elitista — seria experiência boa pra todo mundo. É um pouco o que a reserva tenta fazer: descontruir preconceitos.


Não é romantizar; é reconhecer. Reconhecer que são dos que ainda guardam valores tão escassos na sociedade de hoje em dia.

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Idosa Pataxó na Reserva indígena da Jaqueira.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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