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Visitando Moscou: o Kremlin, a Praça Vermelha, e lugares menos conhecidos

Aquela à esquerda é a Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha, em Moscou.

A mesma Rússia simples, retratada no post anterior, guarda belezas como a dessa magnífica igreja. Muita gente a vê em fotos e acha que é o Kremlin, mas não é. A Catedral de São Basílio (1561) é o exemplo maior dos domos em forma de cebola e da arquitetura colorida das igrejas russas ortodoxas (vertente oriental do cristianismo católico que tem tradições distintas da igreja de Roma e que não segue o papa).

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A Catedral de São Basílio, em Moscou.

Moscou é uma cidade de 12 milhões de habitantes, a segunda maior da Europa (após Istambul), com uma quantidade razoável de lugares a ver. Além da catedral acima na famosa Praça Vermelha, há a se ver o próprio Kremlin, outras igrejas e mosteiros a perder de vista, mercados populares, prédios da era soviética, e mais. Dá pra se passar uns três dias se você não quiser cavucar cada esconderijo de Moscou. Mas o mais importante é o astral, a vibe da cidade. Não por ela ser exatamente agradável, mas por ser certamente diferente da que você encontra em outros países da Europa. Se São Petersburgo cheira à Rússia imperial dos czares, Moscou cheira a União Soviética.


Meus amigos e eu começamos com o café da manhã improvisado no cafofo. Pão, queijo e outras coisas básicas compradas no mercado da esquina, onde as caixas — quase todas imigrantes asiáticas de ex-repúblicas soviéticas (Uzbequistão, Tadjiquistão, Cazaquistão…) — mal nos olhavam. Comíamos na mesa da cozinha enquanto a TV (sempre ligada nas alturas) passava uma entrevista com algum general no jornal da manhã. A impressão que você tem ao assistir os telejornais russos é de que o mundo é um lugar hostil e a nação está sempre em risco.


Deixamos lá aqueles caras (funcionários e hóspedes) que parecem não fazer nada lá o dia inteiro, e fomos à estação de trem. Precisávamos comprar antecipadamente passagens a São Petersburgo, sob risco de os preços subirem. Atenção, pois há uma dúzia de estações de trem em Moscou. A nossa, a Leningradsky, em referência ao antigo nome de São Petersburgo (Leningrado), por sorte era perto do albergue. Há um milhão de guichês e ninguém pra te orientar em inglês, por isso sugiro enfaticamente que você aprenda ao menos o básico de russo suficiente para perguntar “onde passagens São Petersburgo?”, os números, etc. Modéstia à parte, meu básico de russo salvou a pátria nessa hora.


Escolhemos o guichê com base na cara das atendentes. A mais simpática nos pareceu ser Tatiana, uma jovem loura bem arrumada (as russas sempre estão arrumadas). A decisão se revelou acertada, pois ela foi paciente conosco e uma vez até sorriu (um feito, pois fazer um funcionário público russo sorrir é quase o décimo terceiro trabalho de Hércules). Saímos pra comemorar à frente da estação com vista para uma das famosas “catedrais de Stálin”, prédios altos da era soviética. As pessoas na rua ou ignoravam nosso pedido pra tirar uma foto do grupo ou aceitavam com aquela cara de impaciência. Mesmo assim ainda conseguimos sorrir na foto.

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Diante da estação Leningradsky em Moscou, com uma das “catedrais de Stálin” ao fundo.

Todas as principais atrações de Moscou estão na Praça Vermelha, o coração da cidade. Ali há uma área pavimentada aberta (onde ocorriam os desfiles militares na era soviética), a icônica Catedral de São Basílio, e a área murada chamada de Kremlin. Kremlin é, na realidade, um nome genérico que quer dizer “fortaleza”. Toda cidade russa antiga tem uma, embora se pense que é só em Moscou. Dentro do Kremlin moscovita — que é, portanto, uma área cercada por muralhas — há o palácio de governo, igrejas e museus.

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Muralhas do Kremlin em Moscou. A Catedral de São Basílio e a área aberta dos desfiles militares ficam do lado de fora.
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A Praça Vermelha no inverno. Lá ao fundo meio vermelho é um museu de história; aqui ao lado é um shopping requintado.
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A Catedral de São Basílio no inverno.
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Contornando-se a Praça Vermelha, as muralhas do Kremlin prosseguem por uma área de jardins — aqui cobertos de neve.

Se alguém estiver a se perguntar sobre o frio em Moscou, faz frio mesmo. Eu dei sorte de nesses dias de inverno só estar 9 graus negativos, mas às vezes vai a -20, -30… uma delícia.


Para entrar no Kremlin é preciso uma série de tickets caros, vendidos separadamente para cada seção e com entradas em horários fixos. As atrações turísticas na Rússia são normalmente caras pra caramba (~30-60 reais cada), então preparem os bolsos. Não há acesso ao palácio de governo propriamente dito (os guardas não deixarão você nem se aproximar; se olhar torto é capaz de já lhe chamarem a atenção). Mas é possível visitar o pátio interior do Kremlin com suas catedrais, uma torre, e o armorial/tesouro nacional, cada qual com um ticket de entrada diferente.


Apesar do preço alto, se você já chegou até aqui, vale a pena ir adiante e conhecer. No armorial não é permitido tirar fotos, mas há uma riqueza de posses da época imperial russa (bíblias enormes incrustadas com jóias, roupas chiques dos monarcas, armaduras decoradas, etc.). É bonito.


Já no pátio do Kremlin você pode visitar várias igrejas ortodoxas. Chega uma hora que enjoa porque elas são muito parecidas, mas como é algo que a gente quase não encontra no Brasil, vale a pena entrar e conhecer pelo menos algumas.  Aquela na esquerda da foto abaixo é a Igreja de São Miguel Arcanjo.

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No pátio das catedrais no interior do Kremlin.
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Canhão de 1586, da época imperial russa, no interior do Kremlin.

Reserve pelo menos um dia ou um dia e meio para ver essas atrações, pois os horários fixos de entrada (só uns quatro por dia) vão te limitar. Afora essas atrações, o que mais há nos arredores do Kremlin são lojas caras, fast-foods, etc. A visão dos soldados russos fazendo fila no McDonald’s pra mim foi antológica. Lênin deve estar se revirando no túmulo.

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Soldados russos fazendo fila pra comprar no McDonald’s, em plenos arredores da Praça Vermelha. (E, sim, McDonald’s está escrito no alfabeto cirílico).

Falando em Lênin, também é possível ver rapidamente a múmia de Lênin preservada, num pequeno mausoléu na Praça Vermelha. Infelizmente essa “atração” estava fechada por alguns meses quando eu visitei, mas dizem que vale a pena. Os russos continuam a apreciá-lo, ao contrário de Stálin, que hoje você só verá em camisetas souvenir pra turista. As várias estátuas de si próprio que ele mandou construir foram derrubadas ainda na própria época soviética, no regime de Nikita Khrushchev, seu sucessor.


E o Balé Bolshói? Está perto dessa área central do Kremlin e da Praça Vermelha, mas se quiser assistir, reserve pela internet com alguns meses de antecedência. Eu não consegui e acabei indo ver o rival, o balé Mariinsky de São Petersburgo.

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O Teatro Bolshói em Moscou.

Já vistas as atrações principais, fomos à Igreja do Cristo Redentor, enorme, a minha favorita em Moscou. Fica a uma curta caminhada do centro. Lá você verá os fiéis russos fazendo fila para beijar as imagens (hábito no cristianismo ortodoxo). Na tradição cristã ortodoxa as imagens são em geral pinturas, não esculturas. Então tomem-lhe beijos. Quando entrei na igreja havia uma fila imensa pra beijar uma imagem em especial, e após cada beijo um diácono ia limpando o vidro da pintura com uma flanelinha.

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Igreja do Cristo Redentor, em Moscou no inverno.
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Igreja do Cristo Redentor. Magnífica por dentro. Em 1931 essa igreja foi dinamitada pelo governo soviético, que quis usar as toneladas de ouro das cúpulas para pagar as contas públicas. Ela foi reerguida somente entre 1990-2000, após o fim do regime soviético.

Daí a alcunha de “catedrais de Stálin” para os prédios que os soviéticos erguiam sobre os escombros das igrejas e por toda a cidade.

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Uma das “catedrais de Stálin”, vista de perto.

Outra visita interessante foi ao Mosteiro Novodevichy. São jardins, pequenas capelas e um cemitério onde estão enterradas figuras eminentes como Nikita Khrushchev (líder soviético 1953-1964), Boris Yeltsin, e Pyotr Kropotkin (um dos pais do anarco-comunismo). O mosteiro é um lugar tranquilo e sublime, tanto no verão quanto no inverno. Vale a pena se você quiser sentir esse ambiente russo ortodoxo num lugar mais autêntico, não-turístico.

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Mosteiro Novodevichy no verão.
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Mosteiro Novodevichy no inverno.
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Interior de igreja ortodoxa em Novodevichy. Os fiéis acompanham a celebração de pé, e as mulheres tradicionalmente cobrem a cabeça dentro da igreja. Em lugares menos turísticos isso será exigido de mulheres turistas também.

E se você quer souvenirs (e não for inverno), não deixe de ir ao Izmaylovsky Park. Não há parque, mas um grande mercadão aberto. Há quase tudo que você acha em outras partes de Moscou, só que mais barato. Atenção especial para as dezenas de estilos de tabuleiro de xadrez. O jogo é super popular na Rússia.

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Alguns tipos variados de tabuleiros de xadrez à venda.
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Dois senhores jogando uma partida no mercadão de Izmaylovsky.

Moscou não será a cidade mais charmosa que você já viu, nem necessariamente a mais agradável. A beleza das ruas meio que se limita às partes históricas. Além disso, a infraestrutura capenga (com exceção do metrô) e o mau atendimento talvez te criem certa repulsa. Apesar disso, não deixa de ser uma visita historicamente importante. Gostaria de morar em Moscou? Não. Mas gostei muito de tê-la visitado. Além da História, há o contato com uma cultural social bem peculiar, diferente da europeia. E, vamos e venhamos, ainda que muito do geralzão seja feio, há aquelas sensações de tudo o que Moscou representa e que fazem a visita valer a pena.

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Entardecer sobre o Rio Moskva em Moscou, com o Kremlin e suas igrejas à direita.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Visitando Moscou: o Kremlin, a Praça Vermelha, e lugares menos conhecidos

  1. Linda a cidade, no inverno. Belezas ímpares. Lindo esse mosteiro, E as catedrais são um espetáculo à parte. E que frio bom heimm?

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